Death Note – Review Relâmpago

Certo, faz algum tempo que eu não escrevo por aqui, mas assisti essa adaptação de Death Note da Netflix e encontrei alguns elementos interessantes a serem analisados. Porém, ainda que não seja absolutamente descartável de um ponto de vista de análise, o filme não merece tanta atenção assim, então vou colocar um limite de meia hora para a produção deste texto – e que fique claro que só estou compartilhando isso neste primeiro parágrafo pra dar uma tensão artificial para o post e mostrar como eu sou incrível de estar fazendo isso, algo que se conecta muito bem com o filme em questão.

Eu não vou dar nenhuma informação didática sobre o filme, mas vou dar muitos spoilers. Espero que tenha assistido. Valendo.

00:01

A princípio, o filme não dá sinais de que será terrível. A montagem de abertura estabelece algumas informações que claramente serão relevantes para a história que será contada, ainda que já demonstre uma falta de apreço ao material original. Mas, mesmo que se ignore este problema de adaptação em um primeiro momento, esta abertura já demonstra um dos maiores problemas do filme como obra única e individual, dissociada de suas contra-partes (anime e mangá).

A montagem em si não é ruim. Os cortes acompanham a música de forma minimamente interessante, a fotografia é decente e é criado um tom – se este tom é respeitado ao longo do filme é outra história. Porém, já é perceptível desde este momento o apreço que os criadores tem por montagens e brincadeiras feitas na sala de edição.

E isto não é um problema. O verdadeiro problema é que elas raramente deixam de ser apenas isto: Brincadeiras.

Como qualquer elemento de um filme, a edição e amontagem devem servir a história, devem ser úteis para transmitir algo; seja algo complexo e revelador ou algo simples e sutil. O montador e o diretor de fotografia deste filme, porém, se contentam em demonstrar suas habilidades – que nem chegam a ser impressionantes – em transições chamativas que simplesmente não encaixam com o tom geral do filme, tornando a identidade visual heterogênea e desconexa.

17:15

Para dar alguns exemplos: A transição com pessoas ou objetos passando na frente da câmera, muito usada em Scott Pilgrim, é utilizado em uma certa cena tantas vezes que a única explicação é que o editor queria que todos percebessem seu feito – o que ganha um outro nível de absurdo considerando que este tipo de transição serve para deixar a mudança de cena mais sutil e, por consequência, menos perceptível. E a cena sequer pede esse tipo de transição, trata-se de um momento tenso, longe das cenas dinâmicas e divertidas de Scott Pilgrim.

O mesmo vale para as transições em meio ao movimento de câmera – feitos com uma unidimensionalidade pobre e amadora, do tipo que qualquer idiota faz – e as transições estilo Star Wars, que soam mais como uma solução apressada para planos que não foram bem pensados o suficiente de um ponto de vista de montagem e, inclusive, são até mal feitos aqui e ali.

Claro, o filme acerta aqui e ali, como na cena onde Light é nocauteado e a montagem faz um bom trabalho em demonstrar como é esta sensação. Isto demonstra que há boas ideias dentro da produção e havia a possibilidade de um bom filme, mas ela foi minada pela necessidade dos criadores de se mostrarem e sua total falta de sutileza na maior parte do filme.

Nos créditos finais do filme, vemos cenas de making of, como se os produtores fizessem questão de nos mostrar que eles fizeram aquilo, que aquilo tudo é trabalho deles, uma quebra da “magia” que é tão cômica quanto coerente em um projeto muito mais focado em se divertir com seus próprios feitos do que oferecer uma boa experiência, transmitir ideias ou qualquer outra coisa que bons filmes fazem.

23:43

Bem, ainda me resta cerca de 7 minutos do meu tempo. Vejamos o que podemos fazer com isso. Nem falei da adaptação, não é?

Vamos aceitar que adaptações existem como adaptações também. Embora eu concorde que é importante ver o filme como uma obra individual e avulsa, é preciso lembrar que o nome Death Note está ali – e se os criadores quiseram colher os frutos da popularidade da obra original, merecem ouvir as críticas dos fãs. É o preço que se paga.

Quase tudo que fazia Death Note um bom mangá (e anime) é perdido nesse filme. Mesmo com qualquer crítica que se tenha contra Death Note, é preciso notar que Light é um personagem interessantíssimo e, com toda a certeza, muito marcante. Ele tem ação, ele é diferente de quase todos, ele tem objetivos absurdos e divertidos de acompanhar, graças a sua megalomania e genialidade. O Light do filme é um idiota, um garoto extremamente burro, imaturo, hipócrita e patético. Isto não é um problema, é claro, temos grandes histórias de burros, imaturos, hipócritas e patéticos – embora a maioria delas envolvam algum tipo de evolução -, o real problema está na maior qualidade disto: Este Light parece real.

27:33

Ele é um garoto de verdade, preocupado com aparência (e que belo cabelo), romance, traumas de infâncias, etc. E isto não combina com esta história. E quando eu digo “esta história”, não me refiro a “história de verdade” que vem do original; falo da própria história do filme. Embora se distanciam este tanto do original, o plano final de Light tem suas raízes no Light do mangá, do Light absurdamente inteligente do mangá, como se o filme quisesse colher frutos que sequer plantou, mas que possivelmente serão aceitos pelo público pelo conhecimento prévio com o protagonista.

Isto demonstra a absurda hipocrisia do filme enquanto adaptação, ignorando as partes mais complicadas do material original, mas pegando emprestado apenas os elementos que lhe convém, sem nunca merecê-los.

Vish, 31:45, perdi.

Bem, agora vou até 35.

Ryuk como vilão? Que péssima ideia. E, de novo, o filme usa sua filosofia de “apenas observar e se divertir”, mas deixa de merecê-la quando coloca-o ameaçando Light e mentindo para ele.

Mia como vilã? Ideia interessante. Parece um comentário sobre o óbvio sexismo da obra original e é um twist relativamente coeso com a história. Uma pena que o fim de sua história envolva pontos tão absurdos do roteiro – esse Death Note é cheio de regras e elas não fazem tanto sentido se pararmos pra pensar.

34:55

L é o melhor personagem, bom ator e excêntri

4 Respostas para “Death Note – Review Relâmpago

  1. Estava concordando com tudo… Até a última linha. Acho o L o pior personagem. O ator fez um ótimo trabalho, mas a construção do personagem e a presença dele só prejudicam o filme. As duas piores cenas do filme são com o L: aquela perseguição gratuita e o aquele confronto ridiculo com o kira.
    Alem de que, o Light ser burro até dá pra engolir, mas o maior detetive do mundo não parar de fazer besteira é inaceitável. Eles abaixaram demais a inteligência dele para equiparar ao protagonista, oq descaracteriza completamente o personagem.
    Sinceramente, se essa adaptação esquecesse o L e focasse em trabalhar a relação entre Light e Mia, já daria uma melhora consideravel na minha opinião.

  2. Bom, o blog perdeu uma ótima oportunidade de aumentar a quantidade de inscritos do canal do YouTube, já que death note, estar sendo odiado pela a internet.

  3. Achei um filme despojado que não se preocupa tanto em seguir o caminho de uma disputa de ideias, mas que tem como objetivo central trazer uma experiência estimulante, evidenciada pelo gore, a montagem, e a música, que pra muitos está meio deslocada, mas eu vejo como uma ironia bem divertida nos momentos que são colocadas. Essa desconexão com si próprio pode ter dado às pessoas um forte argumento que o filme é vazio de argumento, os personagens são vazios e não há um embate moral ou de egos, e de fato, não tem nada disso. Mas tu percebe que o filme tem consciência disso quando a coisa que deveria ter maior peso de discussão é colocado de plano secundário enquanto o Light e a Mia estão transando no primeiro encontro. Eu vi logo nesse momento que o filme está mais disposto em construir aquele casalzinho doentinho do que se ater a discussão moral da coisa. O objetivo do Light desse filme é mesmo impressionar a garotinha gótica da escola enquanto mata meio mundo no processo. E tem uma tal investigador picudo com um cara de máscara que senta estranho na lanchonete tentando te pegar. É meio idiota? É. O filme precisava existir? Acho que não. Mas já que existe, pelo menos que traga uma dignidade autoconsciente, e acho que isso o filme traz.
    Só um ponto sobre adaptação: acho que não teve forma melhor para americanizar o Light. Ele é o garoto branco que acha que sabe mais, emburrado com tudo e que se sente injustiçado pela sociedade. É o garoto que em vez de sair na mão com o valentão da escola, diz que vai processa-lo por ser maior de idade e ele não. Acho o Light um ótimo retrato do adolescente americano da nossa época e tenho certeza que daqui uns anos veremos ele de forma bem mais escrachada e divertida que vemos hoje, assim como vemos os adolescentes dos filmes dos anos 80. E tenho certeza que esse tipo de adolescente usaria o Death Note enquanto transa bem tranquilo.

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