The Walking Dead: “Bury Me Here” – Prisões

Haverão spoilers a abaixo, mas como já foi definido, 7 temporadas é muita coisa pra assistir agora. Caso queira pular minha opinião sobre o episódio em si e ir direto para a análise mais técnica, leia a partir do subtítulo “Prisões.

Desde o começo desta sétima temporada, The Walking Dead está claramente construindo o cenário para uma grande guerra – que a essa altura parece que só acontecerá na temporada seguinte ou não será tão grande assim. A participação do Reino, facção liderada por Ezekiel, está igualmente clara, mesmo com a tentativa desesperada do Rei em manter seu povo alienada dos conflitos que acontecem fora de seus muros. “Bury Me Here” (S07E13) tinha que ser o episódio que sacramentava essa decisão do Rei, já que estamos perto demais do fim da temporada para mais enrolação. E, de maneira muito sangrenta, o episódio cumpriu essa expectativa de forma surpreendente.

Já tivemos um líder tomando a decisão difícil de aceitar o fardo da guerra no oitavo episódio desta mesma temporada, com o protagonista recuperando sua potência e liderança, simbolizadas por sua Colt Python, e reunindo seu grupo em uma cena heroica (e um pouco brega) mostrando Rick e seus companheiros caminhando na direção da câmera. Não houve sutileza nesta decisão, o que é aceitável se considerarmos que trata-se do grande herói da história e suas motivações precisam ficar bem claras para o espectador. Felizmente, assim como Carol pode ter arcos mais orgânicos por ser secundária, o mesmo vale para o Reino.

É ótimo ver que, dos três arcos de transformações de Bury Me Here, dois deles aconteçam de forma extremamente natural e, mais importante, oculta. Primeiro, o que quebra a regra: O arco de Morgan é o mais extremo, partindo de seu inflexível pacifismo para sua antiga insanidade psicopática, e, talvez pelo tamanho do salto, este soe o mais forçado do episódio. Não que a mudança seja injustificável para o personagem – sua luta pelo equilíbrio moral e psicológico é sempre presente na sufocada atuação de Lennie James – mas a série não investiu o suficiente na motivação para valer o impacto da resolução. Sim, a morte de Benjamin é cruel e dolorosa, e o arquétipo do garoto é perfeito para cumprir o papel de mártir, mas a dinâmica dele com Morgan nunca é desenvolvida como uma relação paterna, algo que este episódio tenta vender.

Mas, felizmente, o resultado desta motivação frágil é bem mais interessante. O plano de Richard é acabar com a paz e leva a uma morte de alguém importante para Morgan, o que cria uma intersecção entre a ideologia e os sentimentos pessoais do personagem. O grande ponto de virada de Morgan, que é matar Richard, se mostra um benefício em todos os sentidos, pois serve para manter a paz entre o Reino e os Salvadores, para vingar a morte de Benjamin e ainda beneficia o plano do próprio Richard, que, depois do primeiro plano falho, se tornou recuperar a confiança dos inimigos para dar o elemento surpresa à rebelião. Mesmo que a situação seja terrível, acabamos a justiça executada, a paz restaurada e a vantagem estratégica para a futura rebelião, um saldo bem positivo – menos para Benjamin, coitado.

Os outros personagens que se transformam são Carol e Ezekiel. Estes dois revelam a maior qualidade deste episódio, que foi tornar suas conclusões tão críveis e inevitáveis, que não precisamos de uma cena impactante de tomada de decisão – se os roteiristas estivessem um pouco menos inspirados, provavelmente a última cena do episódio seria o Rei falando qualquer frase que terminasse com um raivoso e sonoro “WAR”.

A morte de Benjamin provou para Ezekiel que os Salvadores não são apenas instáveis, mas desleais e irracionais, enquanto Carol teve uma prova direta de que não há como fugir dos problemas pra sempre – e, como Richard explica, não fazer nada é uma decisão como qualquer outra e sempre traz consequências. Assim, é muito coerente que o momento em que os dois personagens nos informam suas decisões – que já deviam estar claras na mente de qualquer espectador atento – seja um simples diálogo, sem música épica ou câmera giratória. Inclusive, o cena final traz um movimento de câmera muito mais sutil que serve perfeitamente a função de concluir o tema e a progressão narrativa do episódio.

Prisões

Este episódio é sobre libertação – em vários sentidos. Já na primeira cena, o ângulo da câmera nos coloca presos na traseira de um caminhão, que depois é aberta para nos libertar e permitir que comecemos a acompanhar a história.

Logo em seguida, vemos Carol deixando sua casa, e o modo como as grades do portão são filmadas tem a intenção óbvia de transformá-las em grades de prisão, estabelecendo que a personagem está enclausurada ali. O tipo de prisão dessa casa é muito específico, porque é um isolamento auto-imposto que, com uma pequena mudança de perspectiva, pode ser também uma libertação, já que Carol se trancou ali para ficar livre de relações interpessoais e as preocupações que elas trazem. Em episódios anteriores, tratava-se de liberdade para Carol, mas agora, com suas incertezas, a perspectiva mudou, algo que ganhará outra camada ao fim do episódio.

O mesmo visual de grades retorna depois, com um ângulo de dentro de um carrinho de supermercado que encarcera o grupo do Rei Ezekiel – a comitiva real? – e estabelece a prisão simbólica em que eles se encontram, presos aos desmandos dos Salvadores. Esta cena vem logo antes de outra que deixará clara a força e o perigo de tal prisão, servindo como uma construção para o que virá.

Depois de mostrar o que estar preso significa, temos uma conclusão que, ao mesmo tempo que dolorosa, é libertadora. O Rei precisou perder dois de seus companheiros mais próximos para enxergar a inevitabilidade da guerra e a verdadeira natureza da prisão em que estava, assim como Carol precisou presenciar o que está em jogo nesta guerra para abandonar seu exílio e voltar a se conectar com as pessoas – e é importante que o irmão de Benjamin esteja em cena quando ela retorna à civilização, já que, desde que perdeu sua filha, encontrar a maneira mais saudável para lidar com crianças é um de seus maiores conflitos e, antes desta virada, sua solução era afastá-las completamente.

O modo que a série nos informa essa mudança de mentalidade dos dois é tão simples quanto eficiente – o que o torna realmente notável em uma série que presa tanto pelo choque. Vemos os personagens mais uma vez atrás de grades, agora muito mais sutis, e a câmera apenas sobe em um movimento vertical modesto, libertando-os lentamente da prisão em que estavam.

É importante notar que e a cena seguinte, que fecha o episódio, não nos permite acabar neste tom agridoce, relembrando que o que virá a seguir não será bonito. Morgan, agora vivendo exilado na casa que Carol abandonou, surge no lado oposto do quadro com um outro símbolo visual para prisão: em vez de barras, ele está preso pela moldura da porta, servindo mais como uma representação do sufocamento e falta de alternativas dele.

Ainda assim, Morgan está diante de uma prisão, de uma forma ou de outra. Ele pode estar do lado de dentro dela, preso por sua própria mente em um desejo de violência que o fará tomar decisões involuntárias; ou pode estar do lado de fora, tomado pela liberdade máxima que é sua insanidade, livre de qualquer freio moral. Ele precisará descobrir logo qual é a perspectiva correta – se é que esta existe.

Sugestão de conteúdo relacionado: O ótimo canal Now You See It e seu vídeo sobre geometria no cinema.

Uma resposta para “The Walking Dead: “Bury Me Here” – Prisões

  1. Excelente análise. Gostei bastante do episódio, finalmente The Walking Dead fez os arcos dos personagens irem para algum lugar. Me incomodava muito o quanto o Morgan estava “acomodado” com o ponto de vista dele sobre lidar com conflitos, mesmo passando por situações críticas ele continuava vendo os inimigos como possíveis pessoas que ele poderia evangelizar com o livro de Aikido, o que se tornou repetitivo e começou a estragar o personagem na minha opinião. Esse foi um episódio de mudanças em The Walking Dead, o que é relativamente difícil de acontecer ultimamente, uma série com personagens tão ricos e com tanto potencial pra crescer, sempre desperdiça o tempo de tela com tramas preguiçosas que não levam a lugar nenhum, dá pra contar no dedo os episódios dessa temporada que trouxeram mudanças pra algum personagem, mas esses poucos episódios costumam ser muito bons.

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