Gleipnir – A Bela, a Fera e o Ecchi

Antes de virar as primeiras páginas de Gleipnir, é fácil notar que se trata de um mangá estranho. Com um nome sem sentido para qualquer um que não seja amante de mitologia nórdica e uma capa que mistura sensualidade, ação e sátira, a curiosidade deve chamar muitos leitores para a obra. Felizmente, nos 8 capítulos publicados até o momento, o mangá de Takeda Sun tem mostrado um conteúdo a altura da curiosidade que gera.

Acompanhamos Shuichi Kagaya, um estudante com o bizarro poder de se transformar em uma fantasia de cachorro – ele não veste, mas literalmente é a fantasia – ganhando habilidades sobre-humanas e que leva-o até Claire, uma garota que teve os pais mortos por outra pessoa com habilidades semelhantes: sua irmã. Depois que Shuichi salva e é chantageado por ela, os dois passam a buscar respostas para as transformações e o assassinato.

Gleipnir tem um ritmo bastante acelerado, apresentando conflitos importantes logo no começo, sem medo de dar dicas substanciais para a resolução de seus mistérios. Em menos de dois volumes, a maioria das peças já foram colocadas no tabuleiro e começamos a compreender seus movimentos. Ainda assim, a curiosidade permanece e o futuro pode ser grandioso, como sugere a possível presença alienígena, ou mais íntimo, pelos conflitos de Shuichi sobre sua carreira e sua vida cotidiana.

A narrativa visual, por outro lado, não funciona tão bem. Além de ângulos “sensuais” usados, frequentemente, de forma irrelevante – em certo momento, o rosto de uma personagem deve permanecer anônimo, então vamos apenas seus peitos e sua calcinha – não há fortes tentativas de criar estruturas novas para a quadrinização das páginas. As cenas de ação funcionam pelo peso que o protagonista sente em seus atos de violência, mas as piadas tendem a falhar quando não envolvem ironias com o conceito esdrúxulo do mangá.

Como desenhista, o autor tem limitações. Há páginas duplas muito bonitas e cenas marcantes no mangá, mas o autor demonstra amadorismos aqui e ali, principalmente envolvendo anatomia e uma estranha dificuldade em desenhar mulheres de costas. Os designs dos personagens variam entre alguns pouco inventivos – basta ver quantas personagens podem ser confundidas com o protagonista – e outros certeiros, como Claire e seu cabelo que informa sua excentricidade e a transformação do protagonista, misturando bem o esquisito e o cômico.

Os dois protagonistas, além dos bons visuais interessante, tem uma relação que é a melhor coisa do mangá e pontos de personalidade muito relevantes para o plot. O garoto, Shuichi, traz um medo tão grande de matar quanto o de morrer, mas com o impossível desejo de levar uma vida normal e equilibrada. O fato de sentir-se mal por ter recebido um poder tão feio e monstruoso traz uma melancolia tragicômica para ele, enquanto seu desejo de fazer o certo em um cenário tão violento e moralmente confuso nos ancora em alguma realidade ao vermos que ele não é um herói shonen, tornando as situações mais intensas e ameaçadoras. Já Claire é quem traz a ação para a história, variando entre seus momentos de insanidade, demonstrando impulsos suicidas e homicidas, com traumas e conflitos emocionais muito sinceros. Ela é esperta e guia o leitor e o protagonista com suas ideias e descobertas, mantendo a trama sempre em movimento.

A Bela, a Fera e o Ecchi

É fato que o ecchi tende a ser irritante para um leitor maduro, principalmente quando as cenas são forçadas e artificiais, como na maioria dos casos. Trata-se de uma sexualização da intimidade feminina com o simples propósito de agradar homens de forma superficial. Mesmo o hentai, sempre mais pesado que o ecchi, pode ser mais aceitável, já que tem o propósito de satisfazer as necessidades sexuais de pessoas que se contentam com o visual, servindo como qualquer material pornográfico. O ecchi, entretanto, não chega a satisfazer qualquer necessidade, ele apenas utiliza o corpo como um brinquedo para a excitação estéril de, primariamente, adolescentes imaturos. Independente de posições políticas sobre sexismo e feminismo, geralmente há bons argumentos para criticar o ecchi e sua existência.

Gleipnir, mesmo adotando o ecchi em suas páginas, se mostra um pouco mais auto ciente, ou apenas mais hipócrita, pois traz pesos diferentes para a relação do casal principal. Claire não é o arquétipo mais clichê das protagonistas de mangá ecchi, geralmente garotas muito inocentes que não se importam ou não percebem abusos e “acidentes”, como o clássico cair com as mãos nos peitos, ou garotas extremamente recatadas que agridem e xingam o protagonista a qualquer sinal de sexualidade. A garota em Gleipnir sabe do poder de seu corpo e usa-o de forma livre, tanto para persuadir Shuchi quanto por simples liberdade sexual.

O garoto é igualmente interessante em sua sexualidade, pois sente as necessidades sexuais como adolescente que é, mas tenta evitá-las e, quando não consegue, se sente mal por isso. Embora o protagonista não esteja tão distante do clichê, é interessante ver que Gleipnir traz um casal onde o homem tenta controlar sua sexualidade e manter-se “puro”, enquanto a mulher usa-o para cumprir seus objetivos e, literalmente, empoderar-se. Podemos notar algumas metáforas interessantes na obra com esse pensamento em mente.

A transformação de Shuchi serve como uma vestimenta para Claire e eles descobrem o verdadeiro poder da união deles quando ela entra na roupa. O momento em que eles testam esta união traz analogias claras a sexo, com Claire despindo-se para penetrar Shuichi e ficando, nas palavras dela, “realmente molhada” no processo – inclusive, o nome do capítulo em questão é “Quando dois se tornam um”, em tradução livre. Além disso, o monstro em que Shuichi se transforma possui um revolver, objeto notoriamente fálico – Claire até pergunta, em um diálogo sugestivo, se a arma dele funciona ou se é apenas um brinquedo.

Ainda que seja cedo para afirmar uma temática geral do mangá, é seguro inferir que o foco inicial está na descoberta e compreensão da sexualidade. Logo no começo, Shuichi salva Claire e tira sua roupa em uma tentativa de estupro, mas para ao perceber a imoralidade do que está fazendo. Ao mesmo tempo, Shuichi tenta negar sua identidade monstruosa e fingir que a criatura em que ele pode se transformar não existe. As duas questões estão conectadas, já que a impulso sexual do garoto se assemelha a sua transformação em monstro. Com medo de si mesmo e do que pode fazer, ele decide reprimir seus desejos sexuais, representados pelo seu monstro interior, enquanto Claire tenta mostrar que ele não deve esconder ou podar o que sente, mas aprender a controlar, sendo ela quem consegue liberar os instintos dele quando se unem. A perigo do cômico mascote cômico serve, nesse sentido, como um comentário interessante ao ecchi, ridicularizado e tratado como brincadeira, mas que traz o peso de lidar, mesmo que involuntariamente, com o descobrimento da sexualidade.

Há possíveis dicas para a evolução dos personagens e o seguimento da história. A palavra “Gleipnir” vem da mitologia nórdica e trata-se de uma corda de seda usada para prender um animal, Fenrir, que, não por coincidência, é descrito como um lobo. Ele teria crescido demais e se tornado muito agressivo, obrigando Odin a ordenar sua prisão. Duas correntes poderosas foram usadas para prendê-lo, mas ele se libertou de ambas. Foi apenas a inofensiva corda mágica de seda que pôde prendê-lo até o dia do Ragnarok, o fim do mundo nórdico. Se Shuichi e sua transformação canina foi inspirada em Fenrir, talvez Claire tente ser a própria corda, mantendo a criatura presa pelo tempo que puder. Ou, em uma teoria mais arriscada, Claire represente uma das correntes que falhou em prender a besta e outras garotas, como a amiga da classe de Shuichi ou a própria irmã de Claire, entrarão na fantasia e servirão como novas amarras para ele.

Sincronizando uma ferramenta apelativa com um tema relevante, Gleipnir se mostra uma alternativa esperançosa para o gênero ao apresentar novas formas de tratar o ecchi, ainda que use-o com a mesma frequência que os “clássicos”. Será preciso acompanhar para saber se a obra se manterá presa ao gênero até o fim ou irá se libertar das amarras para se tornar realmente grandiosa.

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