Game of Thrones – Tyrion, a Morte e os Besouros

Em sua quarta temporada, precisamente no oitavo episódio, Game of Thrones brindou os espectadores com uma das cenas mais violentas em uma das batalhas mais impactantes de toda a série. O combate final em The Mountain and the Viper ficou marcada na mente dos fãs e gerou muita repercussão na internet, mas há uma cena tão poderosa quanto logo antes da batalha. Focado puramente em diálogos, o momento em que Tyrion se prepara para observar seu destino ser decidido no julgamento por combate é perfeito para definir o personagem e aprofundar ideias sobre a relação dele com a morte, o tema mais frequente da obra de George R. R. Martion e sua adaptação.

Este diálogo específico ocorre apenas na série, sem um paralelo claro nos livros, portanto analisarei exclusivamente a cena do episódio e com os elementos presentes na adaptação. Haverão spoilers inevitáveis, embora a análise não explora mais do que os 5 minutos e 44 segundos da cena.

Encontramos Tyrion em sua cela, matando tempo com seu irmão, Jaime, até a hora do julgamento por combate que decidirá sua culpa ou inocência perante os deuses. Embora vejamos o anão enfraquecido e assustado, é importante lembrar que sua vida seria poupada se ele tivesse confessado o crime, mesmo sem ter cometido, mas seu ego não permitiu que sua honra fosse destruída tão facilmente e este orgulho colocou sua vida em jogo novamente. Isto mostra como o personagem é tridimensional, equilibrando níveis arrogância e covardia dentro de si.

Logo de cara, a naturalidade e credibilidade da situação se revela como um ponto forte da cena. Momentos como este, quando o personagem está pronto para aceitar a morte, tendem a ser exageradamente dramáticos, mas aqui há um esforço para mostrar que os dois personagens ainda são pessoas de verdade. Há uma tentativa de otimismo em Tyrion, enquanto Jaime age calmamente para confortar o irmão. Os dois atores entregam seus diálogos e suas reações de maneira precisa, mantendo uma expressão preocupada, mas com esporádicos sorrisos rígidos e pouco empolgados.

O estado da relação dos irmãos é bem definida, mostrando que Jaime, generosamente, trouxe vinho para Tyrion, enquanto este não se sente nem um pouco mal em urinar ao lado do irmão, ao mesmo tempo que percebemos as barreiras entre os eles. Há um detalhe em certo momento, quando Jaime cita seus “interesses” quando jovem e, pelo tom de voz de Peter Dinklage (Tyrion) e o conhecimento que temos dos personagens, entendemos exatamente quais interesses os dois estão pensando – a relação incestuosa entre Jaime e Cersei -, de modo que nos sentimos parte daquela íntima relação de irmãos por estarmos tão conectados com eles. E, sutilmente, compreendemos também a reação de Jaime apenas com o sorriso que míngua no rosto de Nikolaj Coster Waldau, ao passo que Tyrion continua a conversa, sabendo que aquele tópico geraria um conflito desnecessário e acabaria com seu possível último momento de paz.

Um ponto vital para que essa cena funcione é a sensação de imersão do espectador, pois precisamos nos sentir parte da conversa, inclusive por um fator metalinguístico que ela ganha posteriormente. Além de alguns usos simples de foco e desfoque, a fotografia adota ângulos que não são surpreendentes ou chamativos, mas servem os personagens muito bem, deixando os atores carregarem a cena – Dinklage com sua dicção impecável e Nikolaj pautando sua performance em suspiros calculados e reações sutis – e permitindo que o espectador se foque nas palavras e nos semblantes. Conseguimos compreender perfeitamente o que eles sentem e, por consequência, passamos a ter sensações parecidas. Quando Tyrion e Jaime imitam seu primo deficiente e tiram sarro de sua demência, vemos a mesma graça que eles, mas notamos que trata-se de um alívio artificial para a tensão em que nos encontramos, de modo que o riso dura pouco.

Os diálogos, mantendo este equilíbrio entre o drama da morte iminente e a tentativa de ter um último momento agradável, é construído de forma orgânica e cheia de subtextos. O modo como eles chegam à lembrança do primo Orson, o elemento mais importante do diálogo, funciona por ser uma conversa natural, com Jaime dizendo que o único tipo de assassinato sem um nome próprio é o de primos. É irônico que, conforme Tyrion cita levianamente palavras como “matricídio, patricídio, regicídio, filicídio”, podemos notar que existem exemplos, ou possibilidades reais, destes homicídios na família Lannister, algo que estabelece o estado de espírito cínico do anão e o cenário violento em que essa família está.

Contudo, o ponto mais relevante de toda esta cena é a história de Orson Lannister, o primo que caiu de cabeça quando bebê e ficou mentalmente limitado, adquirindo uma obsessão por esmagar besouros sem razão aparente, morrendo posteriormente com um coice de uma mula. Tyrion conta a história de como ele ficou fascinado com Orson e passou a estudá-lo para compreender porquê ele promovia aquela chacina dos pequenos insetos. Uma lembrança que começa como uma piada com a deficiência de Orson, se revela diante dos olhos de Jaime, e dos nossos, como uma tentativa de compreender a natureza da violência e da morte.

Esta história levantou algumas teorias e questões no público de Game of Thrones, uma vez que possui tanto subtexto e tantas boas interpretações possíveis. É fato que se trata de uma metáfora, e a interpretação mais aceita é a de que Orson é uma metalinguagem, uma representação do próprio George R. R. Martion e de Game of Thrones em si, enquanto os besouros são os personagens e nós somos Tyrion, fascinados e buscando um significado para tantas mortes. Há também a possibilidade de Orson ser uma representação do destino ou dos Deuses, citados por Tyrion no começo da cena, operando de maneira que soa aleatório para os mortais, mas com um grande plano por trás.

Tais teorias são perfeitamente válidas, inclusive a ideia de metalinguagem faz com que a cena ganhe um sabor extra ao trazer um comentário preciso na relação do espectador com a obra, descrevendo este sentimento de observar sucessivas mortes sem compreender exatamente qual o objetivo final disto na história, ou sequer se existe um. Cria-se até uma rima no episódio, já que Tyrion observava Orson esmagar besouros e, no fim, assiste Oberyn Martell ser esmagado por seu rival no combate. Porém, há uma outra possibilidade de interpretação que nos conta algo sobre o mundo de Game of Thrones e, principalmente, esclarece os motivos que fazem de Tyrion um personagem tão carismático e destacado.

Orson não é a representação de um Deus obscuro, mas também não é apenas um humano; ele é a humanidade. A curiosidade de Tyrion em compreendê-lo é a curiosidade de compreender a raça humana daquele mundo, que pode ou não ter relações com aquela humanidade do nosso mundo, já que os seres humanos, principalmente os poderosos lordes que cercam o anão, não se cansam de assassinar e não se importam com a vida alheia, tratando os outros como insetos dispensáveis. Claro, existem motivações, há algo ocorrendo na mente de Orson, como Tyrion descreve, mas o anão não consegue deixar de ver toda a violência presente no mundo como ações aleatórias de uma raça que caiu de cabeça enquanto se desenvolvia e agora está fadada a atos de demência.

Tyrion se mostra realmente conturbado pela ideia de tanta violência e tantas mortes serem comuns e, diferente de todos ao seu redor, ele demonstra compaixão pelos outros. Ele está em outro nível de consciência ao dizer, em dado momento, que muito foi escrito sobre grandes homens, mas quase nada sobre dementes, algo que parece errado para Tyrion e sugere que ele enxerga ambos da mesma forma. O próprio Jaime faz parte deste ciclo que vitima pessoas diariamente, por isso Tyrion termina a conversa direcionando o questionamento para o irmão, esperando uma resposta sincera do que se trata toda essa violência, e Jaime apenas responde que não sabe, comprovando para Tyrion a incompreensibilidade deste defeito humano.

É por isso que Tyrion é, provavelmente, o personagem mais correto em Game of Thrones: Tyrion é um questionador, alguém que busca compreender em vez de apenas aceitar. A violência e a crueldade deste mundo, como ele descreve na metáfora, é como uma língua que ele não compreende, embora busque compreender, e os gritos de vitória nas conquistas a base de morte e destruição soam como os sons feitos por seu primo demente. No fim da conversa, quando Tyrion conclui seu pensamento, Jaime suspira de maneira sutil e reveladora ao perceber a pureza de seu irmão e a injustiça que é para ele ter que sobreviver em um mundo tão sujo e violento. Tyrion, embora seja corrompido no fim desta quarta temporada, tentando recuperar alguma justiça em sua vida, continuará sendo o personagem mais consciente e correto da série. Enquanto Orson esmaga incontáveis besouros de forma irracional, Tyrion compreende o valor de suas vidas e liberta-os.

4 Respostas para “Game of Thrones – Tyrion, a Morte e os Besouros

  1. Tyrion retrata diversas passagens de violência, exploração e subjugação dos mais fortes perante os mais fracos ao decorrer dos livros, até por ser alguém fraco ao lado de pessoas fortes. Ele sempre carrega um tom de desesperança em seus monólogos/diálogos, pois não há explicação para isso ocorrer- é simplesmente a natureza do mundo. Assim como nosso mundo. Tyrion é pequeno – e por isso fraco. Vemos animais maiores devorando animais menores. E depois que ficam velhos, são devorados pelos mais jovens. O mundo é simplesmente assim, sem sentido. Apenas sobreviver…
    Dá até pra entender o fascínio dele por dragões, talvez seja sua válvula de escape, a fantasia num mundo duro e real demais, o fogo num mundo de gelo.

  2. Eu só fui pensar sobre essa cena depois de outra cena. Acho que o bezouro foi a última palavra antes da morte, possivelmente provocada por um wag, como aconteceu com Will que ficou repetindo hold door, e todos achavam q era hodor.

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