Feridas

À primeira vista, o mangá Feridas (Kizu, no original) teria grande potencial para a mediocridade. Adaptação literária de um conto escrito por Otsuichi, adaptado pelo aparente desenhista de aluguel Hiro Kiyohara, com um título comum, uma capa genérica e uma edição mediana da Editora JBC. Não há nomes consagrados ou atrativos gritantes, portanto a experiência é livre de qualquer expectativa exagerada. No fim da leitura, de fato não há nada de particularmente especial, mas há qualidades que, embora discretas, merecem ser destacadas.

Acompanhamos a história dos protagonistas Keigo e Asato, dois garotos com graves problemas familiares que se encontram na turma especial da escola, que direciona os alunos mais introvertidos e que sofreriam em salas mais agitadas. Keigo descobre que Asato possui uma inexplicável habilidade de absorver ferimentos, curando as pessoas e ficando com as feridas em seu próprio corpo. A partir disso, os dois se tornam grandes amigos e passam a lidar juntos com a infância complicada de cada um deles.

Conteúdo

Feridas tem uma ideia muito interessante. As possibilidades dramáticas são inúmeras e aqui o autor do conto decidiu usá-la para desenvolver crianças e traumas infantis. Conforme a ideia é explorada, se pode sentir que Otsuichi compreende seu conceito, respeita suas regras e explora-a em toda sua extensão. Cada forma de utilização da habilidade de Asato é explorada, inclusive expandindo-a ao mostrar que o garoto pode transmitir feridas da mesma forma que pode absorver. Isto permite também uma variação de clima, mostrando os garotos felizes em poder curar ferimentos superficiais facilmente e, depois, afetados pelo peso de lidar com feridas mais graves e com a responsabilidade de ferir uma pessoa para curar outra. A tensão das ações dos personagens vai aumentando e atinge um tom muito pesado próximo ao fim.

Nos importarmos com os personagens é uma necessidade crucial para a obra atingir este peso dramático. Os dois protagonistas são vítimas, principalmente dos adultos, portanto haveria grande chance de entendermos que o mangá está vitimizando-os com pieguices e melodramas, entretanto notamos que eles são profundos e interessantes o suficiente para serem mais que apenas vítimas. Keigo tem uma personalidade magnética e cheia de energia, sendo um ponto fora da curva em sua turma de alunos introvertidos, além de demonstrar uma tentativa constante de projetar uma presença mais madura. Por outro lado, Asato é bastante quieto e depressivo, muito mais infantil que seu amigo, mas com bondade e altruísmo envolventes, isto sem deixar de ser a grande vítima da história.

A dinâmica entre os dois funciona muito bem, uma vez que eles se completam. Ambos enfrentam problemas parecidos relacionados a abandono e adoção, mas são impactados por isso de formas diferentes. Keigo se esforça para superar seus traumas com os adultos se tornando mais adulto, adotando inclusive uma agressividade que percebia em seu pai, enquanto Asato tenta ser pacífico e acaba se tornando muito apático, de modo que as características que faltam em um são supridas pelo outro. Em certos momentos, Keigo protege Asato com sua força, tanto física quanto psicológica, mas Asato consegue fazer o mesmo por sua personalidade comedida, evitando que Keigo tome atitudes que irá se arrepender no futuro, como na situação de Keigo com seu pai hospitalizado.

Falando no pai, o centro dos traumas dos dois protagonistas é o mesmo: A ausência de adultos responsáveis e amorosos. Keigo e Asato são crianças, por volta de seus 11 anos, então é comum que seus maiores traumas envolvam seus pais e sua família. Na infância, sempre estamos presos a estas figuras pela dependência financeira, legal e emocional, portanto, quando as figuras responsáveis são corrompidas diante dos olhos dos personagens, eles se encontram em um estado emocional muito complexo onde não há liberdade, mas também não há um porto seguro. Isto gera uma enorme desesperança nas crianças, já que seus exemplos de conduta os decepcionam e a chance de alcançar algo positivo em suas vidas parece muito distante.

O mangá retrata a maioria dos adultos de forma muito negativa, como seres agressivos, ignorantes, negligentes, falsos e afins. Há quase uma tentativa de demonizar os mais velhos, mas fica claro que é apenas a visão traumatizada dos protagonistas – a primeira frase do mangá é “Eu passei a vida odiando meu pai” – algo que ganha novos contornos conforme a história se desenvolve. Por uma visão maniqueísta, compreensível nas crianças, os protagonistas não conseguem entender que os adultos possam ter variações de humor e sentimentos mais complicados – se a mãe do garoto abandonou-lhe, é óbvio que a mensagem que ficará na mente dele é que ela o odeia, mesmo que os sentimentos dela estejam longe desta simplicidade. A professora deles, por exemplo, começa acreditando que Keigo será um problema que ela precisará lidar, e somos levados a vilanizá-la por isso, mas logo percebe as qualidades do garoto e repensa sua visão. Próximo ao desfecho do mangá, Keigo reflete sobre seu pai ao se ver chorando pelo homem que tanto odiava e percebe a verdade dos sentimentos: eles não são tão facilmente definidos e, muito menos, definitivos.

Por outro lado, alguns adultos são claramente mostrados como pessoas ruins, servindo como crítica a certas condutas. Sim, o abandono de Keigo por sua mãe é um grande problema, mas ela o fez por também estar traumatizada, enquanto a agressividade e a falta de compaixão da mãe do aluno que brigou com Keigo é um defeito mais consciente, passível de repreensão. O mesmo vale para os parentes de Asato, que criam um ambiente familiar sufocante pela falta de carinho e delicadeza com um garoto com tantos problemas. A esperança dos garotos está em Shiho, uma moça que trabalha numa sorveteria e se mostra muito amigável e carinhosa, ouvindo o que as crianças têm a dizer. Trata-se de uma personagem que representa algum conforto para os dois, surgindo na última página como um símbolo do arco deles para compreender melhor os adultos e poder confiar neles novamente.

Forma

Todo este conteúdo do mangá, seus interessantes personagens e seus temas fortes se devem, provavelmente, a obra original. O conto de Otsuichi pode trazer muitas destas qualidades presentes no mangá, mas existem acertos exclusivos do trabalho de Kiyohara. O que me chamou mais atenção em Feridas, mesmo com seu bom conteúdo, foi a qualidade na condução, sua forma. Há um apuro visual no trabalho do desenhista que pode passar batido no consciente do leitor, mas é muito relevante para a imersão e o ritmo do mangá.

Primeiramente, as metáforas escolhida pelo autor, estas, imagino eu, não exclusivas do quadrinho, são certeiras. Ao descrever o modo como Asato se relaciona com seus parentes, Keigo diz que ele é como “uma gota de tinta preta que caiu sobre uma aquarela toda colorida”, evidenciando de forma sucinta e eficiente o modo como o garoto, cheio de traumas e depressão, não se encaixa em uma família que não está atenta as necessidades especiais que seu estado psicológico requer. Em outro momento, logo no começo, Keigo disserta sobre sua desesperança e sua solidão, dizendo que esta última é como uma grande escuridão envolvendo-o. Esta não é uma metáfora especialmente original, mas funciona da mesma forma, já que estar envolto pelo desconhecido e não saber para onde fugir define o conflito do garoto. Kiyohara representa isso em uma página dupla bem construída e cheia de peso.

Outro bom trabalho do desenhista é o uso de luz e sombra, assim como outros efeitos com retícula. Em vários momentos, quando precisa passar sentimentos mais amigáveis e sensações agradáveis, o autor deixa seus personagens banhados de luz, demarcando seus contornos com um cinza bem claro e refrescante misturado com o branco. Isto está presente em Asato, quando Keigo descobre seus poderes, e no momento onde o rosto de Shiho é revelado e precisamos compreender a beleza do momento e da moça. Por outro lado, quando precisa demonstrar sentimentos mais negativos ou uma ação enérgica dos personagens, o autor mergulhá-os em sombras, usando preto ou cinza escuro, agora com pouquíssimo branco.

Há também um outro efeito recorrente, presente na melhor sequência do mangá. Trata-se de um uma retícula granulada, com tons bem escuros, que é frequentemente usada para transmitir violência e perigo. Nesta ótima cena, Keigo é confrontado por um garoto mais velho que quer brigar com ele e ambos são cobertos por este efeito ao demonstrarem o intuito de resolverem a situação com violência.

A briga continua até Asato perceber que Keigo corre perigo. Neste momento, o garoto introvertido e pacífico, até aquele momento representado com tons bem claros de cinza, recebe o mesmo efeito dos outros dois garotos. Além de manter a lógica visual, e ser um momento importante para a trama, esta cena traz uma mistura de empolgação e medo ao leitor pela mudança repentina de Asato e o perigo que ele passa a representar.

Esta sequência de ação funciona não apenas pelo peso dramático de seu conteúdo, mas pela forma como é conduzida e planejada pelo autor, revelando coerência e sofisticação. Nenhum dos autores é um gênio e esta não é uma obra prima, mas o simples esforço de encaixar uma forma refinada e inteligente com uma conteúdo coeso e sem exageros megalomaníacos demonstra o compromisso com a qualidade deste mangá como história em quadrinho, algo que muitos autores costumam esquecer. Não se trata apenas de tramas complexas ou desenhos deslumbrantes, mas sim de compreensão das necessidades e limites de sua obra e atenção aos detalhes. No fim, é tão simples quanto a harmonia entre forma e conteúdo.

3 Respostas para “Feridas

  1. Gostei da análise, conseguiu cumprir bem seu objetivo de elevar o nível do mangá de descartável para algo interessante que merece uma leitura. E uma boa leitura!

    Qual é a do título? Colocou errado sem querer? Ou queria chegar a algum lugar e depois se perdeu?

  2. tenho esse mangá aqui, mas ainda não li, na verdade não consigo ler metade do que compro

    e naruto foi muito mais influente em minha vida do que punpun.

  3. Obrigada por essa análise detalhada e clara. O título do post “Feridas” pareceu se encaixar na minha procura por mangás que refletissem mais profundamente sobre o ser humano (e o fez). Sem a matéria acima, não saberia da existência de “Kizu”, nem teria percebido outros pontos importantes na obra.

    Uma curiosidade é que na última página, o próprio mangaká revela a fonte de sua história: um livro lido por ele durante o ensino médio: “Somebody Else’s Kids”, da autora Torey Hayden. As experiências dessa psicóloga que leciona para crianças com necessidades especiais são ali relatadas. Os personagens centrais de “Feridas” encontraram inspiração em crianças do referido livro.

    Essa nota do mangaká me assegurou da realidade dos sentimentos/reações das crianças ali retratados (porque, eu não teria como aferir isso por conta própria) e essa verossimilhança me deixa satisfeita.

    Se o natural seria deixar que os alvos dos maus-tratos psicológicos direcionassem a leitura do mangá, eu me deixei ser conduzida pelos adultos. Então, minha atenção se deteve à instabilidade e à complexidade do ser humano e às consequências de seus atos. Se os atos dos “adultos” causam danos à vida de outros “adultos”, como podem ser desastrosas para uma criança. Asato é um bom exemplo, pois arca até o extremo com as falhas da mãe. Mas, o pior dos resultados desses erros é se tornar um adulto como seus pais ou como os outros ali representados.

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