Semicírculo – Lafalle

Se me perguntassem qual o melhor mangá em publicação atualmente, a resposta viria rapidamente: Spirit Circle. O autor, Satoshi Mizukami, mostrou sua habilidade em criar bons personagens e desenvolver uma história coesa em Lúcifer e o Martelo, supracitado neste blog e publicado no Brasil pela JBC. Porém, sua nova obra caminha para se tornar ainda mais redonda, com o perdão do trocadilho.

A história trata de vidas passadas e é dividida em partes, onde vemos estas vidas uma a uma. Como há muitas relações entre as vidas, recomendo que siga lendo o texto apenas se estiver atualizado nos capítulos do mangá. Analisarei aqui a sexta vida, mostrada do capítulo 22 ao 29, na qual acompanhamos o futurístico século 34 aos olhos de Lafalle. Fortuna, o aparente vilão do mangá, diz que esta é sua vida preferida, opinião que compartilho.

Mundo, Futuro e Tecnologia

Para começo de conversa, ir para o futuro foi uma boa ideia do autor. Até aquele momento, acompanhamos vidas passadas em momentos históricos reais, com regras estabelecidas e mínima fidelidade necessária. No futuro, por outro lado, o autor tinha total liberdade para criar suas próprias regras e brincar com a curiosidade do leitor sobre aquele novo mundo. Ele consegue fazer isso no modo como organiza os acontecimentos e as explicações, geralmente mostrando um elemento particular deste universo em ação e explicando-o posteriormente, o oposto dos óbvios mangás que optam por trazer uma longa explicação inicial antes de seguir a história, para não confundir o leitor.

Mizukami cria um experimento de futurologia ao desenvolver seu mundo a partir de questionamentos importantes sobre o caminho da sociedade humana. Se nossa tecnologia evolui tanto, quanto tempo temos até a medicina nos levar à imortalidade? Seguindo esta premissa, vemos uma sociedade onde ninguém morre graças a uma tecnologia que mantém os cérebros estimulados mesmo após a morte do corpo. Estes seres, os não-vivos, residem em um local chamado Sleeping Tower (Torre de Dormir ou Torre Adormecida) e se mantém em um pós-vida, onde não fazem contato com mais ninguém, mas vivem eternamente em um sonho.

Desde o começo, o autor tenta estabelecer este mundo como um lugar feliz e equilibrado. A torre em si é brilhante por dentro, os funcionários parecem felizes e os robôs que servem os humanos possuem designs especialmente agradáveis, como se tivessem recém saído de um desenho infantil. Fora isso, o universo nunca soa sub-aproveitado e todos os campos relevantes para a narrativa são apresentados, incluindo medicina, história e filosofia, sempre chegando ao leitor de forma orgânica.

A Sleeping Tower, por exemplo, é construída aos poucos na mente do leitor como o centro deste novo mundo. Pela arte não conseguir transmitir com precisão a grandeza do prédio, algo compreensível já que objetos tão colossais beiram ao incompreensível mesmo em fotos, notamos isto pelos diálogos, como quando os personagens falam que irão para outro setor apenas na próxima estação do ano. O tempo, aliás, é outro fator relevante para a construção de mundo, já que acompanhamos muitos acontecimentos e frequentes saltos temporais, mostrando sutilmente o quão longeva a vida pode ser com esta nova medicina.

Em poucos capítulos, estamos imersos naquele universo e nos sentimos parte dele, estimulados positivamente pela tecnologia, seus robôs divertidos e sua medicina milagrosa. A paz do começo, porém, está lá para tornar os conflitos que virão mais chocantes. O primeiro elemento destoante são os ataques dos terroristas anti-tecnologia, a organização Arion, algo de difícil identificação, uma vez que já estamos do lado da tecnologia. Em seguida, temos a primeira grande virada ao descobrirmos a verdadeira história deste mundo.

Por depender e se envolver cada vez mais com a tecnologia, as pessoas se tornaram menos férteis e ativas. Assim, a taxa de mortalidade superou a de natalidade, levando a humanidade para uma iminente extinção. A solução do governo para o problema foi proibir qualquer evolução tecnológica, embora eles próprios mantivessem pesquisas científicas secretamente, e criar os não-vivos, diminuindo artificialmente a taxa de mortalidade para zero, embora não resolvesse completamente o problema. O status quo da narrativa é abalado e entramos em um caminho indefinido e muito mais complexo.

O mundo do futurista, antes tão pacífico, revela-se cada vez mais cínico e hipócrita, cheio de problemas terríveis escondidos sob a ilusão de paz e harmonia. A verdade é que tudo está prestes a ruir, com os terroristas, o governo e os próprios diretores da Sleeping Tower envolvidos em uma guerra de ideologias, tanto internamente quanto entre os grupo, com suas motivações e seus objetivos que, aos poucos, se alinham ou se chocam, formando um conflito interessante e urgente. Tudo é mostrado do ponto de vista humano de Lafalle, o que tira um pouco do tom homérico e traz certa verossimilhança à situação. Mesmo que contenha situações globais, esta história nunca deixa de ser sobre as pessoas e seus dilemas.

Pessoas, Espíritos e Relações

Em sua linha temporal principal, o mangá conta a história de adolescentes, podendo dar a falsa impressão de se tratar de um shonen. Ainda que carregue algumas características destes mangás para crianças e adolescentes, na prática ele é um seinen e tem liberdade para ir e vir entre assuntos pesados e leves. Neste arco, acompanhamos adultos e suas vidas recheadas de situações e reflexões maduras. Sem dramas exagerados ou preocupações bobas, compreendemos os personagens como seres que vivem em seu próprio cotidiano, um mérito da escrita de Muzikuami.

Lapis e Lafalle, os dois protagonistas desta vida, são tridimensionais e possuem semelhanças e diferenças, o que torna a relação deles muito crível. Ambos são muito sérios e centrados, quase ranzinzas, mas ela tende para o senso comum, enquanto ele se mostra mais curioso e ousado. E, mesmo assim, são comuns momentos divertidos ou cômicos envolvendo-os, beneficiados pelo ótimo humor do autor.

O modo como suas personalidades e biografias são expostas é lento e funciona por ser orgânico e, como na construção de mundo, gerar curiosidade. O passado de Lafalle é mostrado em partes, sem entregar tudo em sua primeira aparição, de modo que o conhecemos melhor conforme criamos mais intimidade. Tal organicidade está nos detalhes e fazem grande diferença para a fluidez da obra, como o trabalho da Sleeping Tower.

O serviço deles, feito em duplas, consiste em limpar os vidros que protegem os milhares de não-vivos da torre. Por ser repetitivo e duradouro, os personagens ficam muito tempo juntos fazendo a mesma coisa. Isto faz os assuntos entre as duplas de funcionários acabarem; e é muito divertido ver que o autor se preocupou em expor os detalhes do cotidiano, como quando um outro funcionário se junta aos protagonistas e Lapis demonstra muita empolgação ao ter um novo assunto; além da relação de companherismo deles vir do convívio silencioso, confirmando a teoria de Mia Wallace.

O que une-os definitivamente como um casal é a chegada de Carol, a filha do antigo diretor da torre que é adotada por Lapis e Lafalle. Primeiro, o romance entre os dois não chega a ser realmente um romance, já que eles decidem se casar apenas para formar uma família com a menina. Mesmo assim, trata-se de uma relação adulta de companherismo, com toques de amor aqui e ali. E o próprio conceito de família é igualmente maduro, com um amor sincero, relevante para a história e muito bonito.

A beleza do amor do casal por Carol só é plenamente compreendido ao entender sua relação com a vida passada, de Houtarou. Esta sexta vida possui muita relação com todas as outras, o que dá mais valor dramático para algumas situações. No primeiro capítulo do arco, fica claro que vemos uma continuação do arco iniciado na vida passada, do Japão Antigo, quando Lapis e Lafalle mostram que seus braços e pernas são artificiais. Na vida de Houtarou, eles cortaram os braços e pernas um do outro em uma batalha de espadas e acabaram juntos em um templo, quase adotando a vida passada de Carol, impedidos pela morte. Assim, o momento onde os três estão juntos de novo, agora como uma família, sentimos o peso daquela felicidade por notarmos que, sendo brega ou não, o amor transcendeu o tempo e a morte.

A relação não se restringe aos protagonistas. Talio, amigo de Lafalle e diretor que precedeu os casal na Sleeping Tower, também possui seu próprio arco de redenção. Na vida passada, sua encarnação do Japão Antigo culpa seu alcoolismo pela morte de Houtarou, então nesta vida ele é um homem que não bebe álcool. Além disso, ele é o responsável por deixar Carol aos cuidados do casal, sendo que seu eu anterior não havia conseguido dar uma família para a menina. Mantendo a relação entre as duas vidas, Talio morre exatamente quando vemos sua vida passada superar a culpa da morte de Houtarou, dando a impressão que todas as vidas estão acontecendo simultaneamente e há um arco para cada alma, inclusive o tio e a prima de Lafalle que trazem a gratidão da vida passada onde eles puderam ficar juntos graças a ele. Esta é uma tarefa muito complexa para se roteirizar de forma natural, conectando os pontos e transformando tudo em um grande arco contado em várias eras.

Já no fim do arco, temos a aparição do Robo-Cat, também relacionado com outra vida, desta vez a grande esfinge criada por Flors no Egito Antigo. Conectando mais dois pontos, vemos que a alma de Carol sonhou em criar algo tão belo quanto a esfinge com cabeça de gato, realizando isso no futuro com um robô idêntico. Em uma primeira olhada, ele parecia apenas mais uma brincadeira do autor, mas vemos ele se torna importante no fim do arco. Ao tentar parar o conflito final entre Lapis e Lafalle, o robô é atingido com um tiro na cabeça antes do mundo explodir pela bomba dos terroristas. Porém, seguindo algumas dicas do arco e da vida seguinte a esta, talvez as coisas não tenham acontecido como pareceram.

Isto é uma teoria, já que o mangá ainda não chegou ao fim, mas pode estragar a surpresa quando for revelada, portanto pulo este parágrafo caso não queira saber. Carol demonstra um grande intelecto e revela estar fazendo pesquisas com viagem no tempo. Quando seu pai pergunta onde a máquina está, ela diz que é um segredo. Não é difícil imaginar que ela colocaria a máquina do tempo em sua criação preferida, o Robo-Cat, e é notável que o mundo acaba no exato momento após a “morte” do robô. Além disso, na vida seguinte, vemos o Robo-Cat avariado em uma realidade paralela, dando a entender que ele é a única coisa que restou daquele antigo futuro. Embora o autor tente iludir o leitor com as palavras de Lafalle culpando os terroristas pela destruição do mundo, faz mais sentido que o momento final foi o fim daquela linha espaço-temporal.

O final se mostrou muito maior que os indivíduos, mas como uma boa ficção científica, levantou discussões filosóficas muito profundas, sem perder-se do tema espiritual da obra.

Vida, Fantasmas e Ciclos

Após estabelecer o tedioso trabalho na Sleeping Tower, somos surpreendidos pela aparição de Spacifica, um fantasma misterioso que desencadeia uma sequência de revelações que mudam a visão de Lafalle, e do leitor, sobre tudo construído até ali. Em seguida, temos um novo momento de calmaria com a chegada de Carol e a formação da família, o que é rapidamente quebrado por um abalo no status quo recém estabelecido, revelando a resolução de um mistério que mal sabíamos existir.

O modo com esta revelação é feita torna-se o ponto alto do arco. Desde o começo, situações e diálogos serviam como pequenas peças de um grande quebra cabeça, algo que Lafalle, com sua inquietação presente desde a aparição de Spacifica, tentava responder sem ter certeza da pergunta. Seu dilema só cresce ao passo que ele vê seu amigo Talio se tornar um não-vivo, desenvolve um impulso de melhorar o planeta para sua filha e sempre mantém a pergunta em sua mente: Os não-vivos estão vivos?

Ele fica cada vez mais perturbado e estressado com a situação, até o ponto em que ele finalmente faz a grande descoberta. Juntando as informações que possui, ele encontra a causa do problema de baixa natalidade. As almas estão presas entre a vida e a morte na Sleeping Tower, impedidas de reencarnar; algo tão simples, tão natural e tão difícil de perceber até aquele momento. Como um bom ilusionista, o autor mostra tudo de forma sutil para que só seja possível compreendê-las quando unidas.

E não é apenas inteligente no roteiro, mas também no modo como a bombástica solução é exposta. Ao invés de simplesmente colocar um grande balão de fala com letras garrafais, o autor faz uma ótima representação das pistas se conectando, remetendo a neurônios criando conexões para formar uma ideia. O contraste entre preto e branco, além de conferir impacto à cena, representa a dicotomia entre vida e morte na mente de Lafalle e, não por acaso, remete ao visual da própria Sleeping Tower.

Após este momento, a história ganha uma nova camada, muito mais sombria e profunda, elevando a tensão para o desfecho que estava por vir. Por não ser exatamente uma história de ação, as barreiras são mentais e a agitação evolui os temas e aumenta os questionamentos. As discussões são atuais e provavelmente serão por muito tempo, como a relação do ser humano com a tecnologia e o progresso, visto que cada vez mais a ciência nos distancia de esforços básicos e da morte ou qualquer mazela física, de forma que pode criar, a longo prazo, uma geração de pessoas vazias, sem vontade de lutar por objetivos ou mesmo sem objetivo algum. Isto, provavelmente, seria a paz, assim como o fim.

O embate ideológico é representado por Lafalle e Lapis, embora demore para tornar-se um debate direto. Lapis sempre afirmou preferir a simplicidade do que é conhecido, querendo uma vida normal para sua filha e prendendo-se aos conceitos básicos com que cresceu. Sua visão não é muito explorada, até porque vemos a história do ponto de vista de Lafalle, mas ela parece simplesmente preferir o comodismo do singelo. Talvez o progresso não seja tão relevante, a estagnação não seja realmente um problema e salvar a humanidade de seu fim seja inútil, já que este é um caminho natural.

Os próprios funcionários da Sleeping Tower podem servir como um reflexo dos não-vivos. Ambos permancem em uma vida repetitiva e suas ações beiram ao irrelevante para qualquer um fora da torre. Inclusive, eles estão presos ao lugar por não conseguirem superar a morte de seus entes queridos que ali jazem, como fantasmas que não conseguem partir. Em certo momento, Lafalle diz que permanece lá por não ter para onde ir e não desgostar do serviço, revelando um claro comodismo.

Porém, tendemos a ficar do lado de Lafalle, já que o vemos expandir suas ideias, colocando seus sentimentos em segundo lugar e até trabalhando com seu odiável irmão terrorista para o bem maior. A ideologia desenvolvida por ele serviria para salvar a humanidade no mangá, mas podemos trazê-la para o nosso mundo atual sem dificuldade. Podemos aplicar o pensamento ao vegetarianismo ou até para a eutanásia, uma vez que ele define vida como algo útil e mutável; além da óbvia aplicação na discussão do significado da morte e da imortalidade, visto que a morte é provavelmente um dos maiores incentivos para termos uma vida saudável.

O conflito entre Lapis e Lafalle pauta-se muito na relação sentimental dos dois, pois ele carregou o peso daquele dilema sozinho ao invés de confiar nela para chegarem a uma decisão juntos. O embate final entre eles é emocionante por nos importarmos com os personagens, assim como demonstra um forte senso de urgência pelo que está em jogo, mantendo uma escala colossal ao lado de uma situação íntima.

Já o conflito ideológico é puramente entre conservar o atual e aproveitá-lo ou questionar, arriscar e mudar. Em um breve diálogo, Lapis fala que administrar os funcionários e os robôs é muito mais díficil que analisar os não-vivos, pois estes últimos nunca mudam. Isto é um ponto importante dos conflitos morais deste arco e parece ser um padrão temático da obra como um todo. Na maioria das vidas que nos são mostradas, inclusive a principal, vemos o estado vigente das coisas como algo a ser questionado e combatido.

Na linha do tempo central, Koko mantém seu ódio e seu desejo de vingança como mais uma condição vigente, sem perceber que evoluir é modificar-se e sair do padrão, nunca permanecendo completamente estável. Talvez, no fim, a ideia de Spirit Circle seja, ironicamente, quebrar o ciclo.

5 Respostas para “Semicírculo – Lafalle

  1. Eu li o começo e me lembrou muito a fase do Geoff Jhons no gavião negro, na HQ ele descobre que esta sempre amaldiçoado desde o antigo egito a se apaixonar pela mulher gavião e quando consumirem o amor sempre seriam assasinados por Set, então eles reencarnariam teriam aventura e tudo se repetiria.

    Ainda não li, estou na VIIIIBEEE devilman conheci essa semana

  2. Caramba, outro grande texto do Leonardo, parabéns!
    Spirit Circle é realmente um mangá fantástico, apesar de ficar aquele medinho de se o autor vai conseguir fechar tão bem a história.
    O Lafalle é a vida mais interessante mesmo, e o fato da humanidade estar acabando pelas almas não conseguirem reencarnar foi muito bem pensado.
    Só achei meio confuso o fim do arco com o lance da viagem no tempo, e o meu maior temor pro final é ele pirar nessa ideia da viagem e na “ciência espiritual” do arco do Fortuna.
    Mas enfim, acredito no Mizukami e ia gostar muito de um novo post sobre a obra no futuro.
    Abraços!

  3. Melhor manga em publicação atualmente ? acho q não …. Provavelmente o melhor é atualmente Hinomaru Zumou, q é um manga incrível, porque vcs não leem ele 🙂

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