Homesick Alien

O concurso japonês Silent Manga Audition abre anualmente uma competição onde, como o nome sugere, não são permitidos diálogos ou narrações e a história precisa ser contada utilizando apenas os recursos visuais dos quadrinhos, mantendo-se no tema proposto. Além disso, o concurso é aberto para qualquer cidadão do mundo que desenhe em “estilo mangá”, este termo tão maleável.

Em 2015, pela segunda vez consecutiva, o brasileiro Ichirou recebeu o prêmio máximo da competição com o one shot Homesick Alien, com o tema “Mãe”. Aqui poderia haver uma sinopse, mas não será necessário já que a obra está disponível oficialmente para a leitura aqui. E já que o one shot é curtíssimo e sem nenhum diálogo, leia-o antes de continuar o post, pois analisarei quase todas as páginas e, obviamente, haverão spoilers.

Logo na capa, podemos notar as primeiras boas decisões do autor, que não serão poucas. A bela imagem traz um reflexo distorcido e quase monstruoso no capacete de um astronauta, criando a expectativa de uma sequência violenta e visceral. Servindo como página de abertura, logo na página seguinte vemos que se trata de parte da narrativa, ao passo que notamos como não há nada de violento naquela situação.

As páginas seguintes subvertem todas as possíveis expectativas da primeira página e mostram uma pura relação entre mãe e filha. A noção de movimento nestas páginas é transmitida com exatidão, de modo que todo quadro é usado para conduzir as ações pelo tempo e espaço. O desenho também é competente em criar um ambiente aprazível e aconchegante, com cenários cheios de elementos infantis e contrastando o fundo preto com cenas muito claras, em todos os sentidos.

E embora se trate de uma história puramente visual, o roteiro não é esquecido e há algo sendo contado ali. Notamos a óbvia paixão da garota pelo espaço e seu sonho é exposto de forma simples e direta, assim como a forte relação com a mãe, os dois elementos chave deste roteiro. Com isto estabelecido, o que descobrimos ser um flashback acaba na sequência mais inteligente do mangá.

Utilidade interna é uma das características mais importantes para se criar qualidade em arte sequencial e estas duas páginas são uma aula de utilização de recursos únicos dos quadrinhos. Há a emoção da garota por ver as estrelas e uma lágrima surge em seu olho, para logo em seguida vermos um corte, chamado no cinema de match cut, onde a lágrima é usada como fio condutor da passagem de tempo.

Esta cena mostra, em primeiro lugar, o crescimento da garota e como aquele momento emocionante está diretamente conectado ao seu momento atual de realização. E, além do tempo, a lágrima ajuda a estabelecer a mudança do espaço também, mostrando que a cena seguinte acontece em microgravidade.

A partir daí, temos belas páginas com quadros tortos, como se estivessem à deriva no espaço, contribuindo com a sensação de baixa gravidade. Já a escolha de muitos quadros quadrados pode remeter, em uma ultra-interpretação, ao formato de fotos, elemento importante no fim do one shot.

O traço se mantém belíssimo e o roteiro dá valor ao sonho e à mãe, mostrando a garota triste pela saudade e feliz com onde está ao mesmo tempo. Ela vê a terra de cima, a imensa prova de seu objetivo alcançado, mas logo percebe o ônus emocional trazido pelo sucesso.

A obra traz experimentações de quadrinização, uma arte incrível e fecha com um sentimento profundo e tocante. A protagonista é dividida pelos quadros da última página, mostrando que o auge é único e, por isto, solitário. Porém, ela ainda carrega suas lembranças e seus sentimentos, mesmo no imenso vazio do espaço. Sem precisar um grande número de páginas ou falas, o autor demonstra um grande controle sobre a obra e a mídia ao expor, na microgravidade, o peso das emoções.

5 Respostas para “Homesick Alien

  1. Vlw pelo post, realmente é de se surpreender a composição de quadros e da página, me parece que ele trabalha de uma forma parecida com a do Inio Asano. Ainda mais na cena que vemos a terra e aquele satélite.

  2. é muito bom ver brasileiros se dando bem nesse tipo de concurso gostei bastante desse mangá ,mas tambem tem muita coisa boa dos outros competidores
    e já decidi que ano que vem vou participar desse concurso tambem

    • Tem obras interessantes, mas o primeiro lugar está com muitos pontos na frente do segundo e dos demais.

      E o concurso se tornou semestral, portanto terá outra edição esse ano mesmo, dá uma lida no site lá.

  3. Pena ter tão poucas páginas, fiquei tentando passar as páginas uma 10 vezes até perceber que era a última.

  4. Pingback: Mangá² #151 – Entrevista: Ichirou | AoQuadrado²·

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