Vertical – Eventos Intrigantes da Era da Ferrugem

Dizer que o Brasil possui muitos artistas talentosos já se tornou banal, além de nunca ter sido uma afirmação particularmente inteligente. Um brasileiro pode criar uma obra tão boa quanto qualquer americano, coreano ou japonês, como é o caso de Samuel Fonseca, criador da webcomic gratuita Eventos Intrigantes da Era da Ferrugem. Trata-se de um quadrinho independente que, diferente das tirinhas comuns na internet brasileira, se arrisca numa trama de suspense e com uma narrativa elaborada e dramática. Atualmente, a primeira temporada está concluída em sete capítulos e a segunda começará em breve.

Algo importante a se dizer é que o autor posta cerca de duas páginas por semana. Porém, os capítulos não parecem ser pensados para serem lidos a conta-gotas, então a recomendação para qualquer um que queira manter uma experiência de leitura mais completa é que espere os capítulos (ou as temporadas) serem postados até o fim, assim não haverá nenhum dano na compreensão do ritmo da história.

Até aqui, seguimos o jovem adulto Piet Petersen que, mesmo com nome de herói da Marvel, leva uma vida medíocre de ilustrador em uma cidadezinha, passando seus dias criando logotipos para pequenos comerciantes, jogando videogame com seus amigos e julgando os costumes e gostos das pessoas da cidade. Sua vida começa a mudar quando situações estranhas e casos macabros parecem envolvê-lo misteriosamente, deixando-o cada vez mais confuso e paranoico.

Muito focada em criar curiosidade, a história é um mistério construído lentamente, sem forçar ação ou tensão desnecessária, mostrando que estamos vendo a preparação para algo grandioso que está acontecendo aos poucos. Por isso, a trama se desenvolve de forma muito cotidiana e ordinária no começo, algo que pode afastar leitores mais sedentos por agitação. Felizmente, o universo real e corriqueiro é trabalhado de forma muito convincente, de modo que nos sentimos no dia a dia dos personagens.

A imersão é um ponto alto da obra, pois acompanhamos momentos que dão credibilidade a história. Vivemos aquela vida da cidade, com as conversas bobas, atividades banais e cenários amplos que mostram locais fáceis de imaginar em nosso mundo. Um exemplo de elemento cotidiano são as marcas, algo que faz parte das nossas vidas e que muitas vezes é mascarado na ficção. Aqui, o autor criou marcas fictícias que são usadas em diálogos e cenários, deixando aquele mundo muito mais rico; e mesmo que o traço não seja realista, tudo parece vivo graças à naturalidade do todo.

Os desenhos em si são um tanto inconstantes, apresentando algumas cenas de forma rudimentar, mas consciente em relação aos momentos que pedem por um tratamento especial, conseguindo trazer cenas memoráveis com o auxílio das cores. Estas passam sensações de forma sutil, trazendo boa parte do clima sombrio e monótono, adotando tons soturnos e, muitas vezes, evocando um aspecto enferrujado e sem brilho. Além disso, os ângulos permitem que o leitor compreenda perfeitamente o que está acontecendo, sem exagerar em close-ups, e surpreendendo quando necessário.

A quadrinização é quase insignificante na maior parte da leitura, pois a narrativa visual é construída como um storyboard de cinema, com grandes quadros horizontais postos um abaixo do outro. A falta de extravagância nos quadros encaixa com a trama cotidiana e, quando quer mostrar uma ação fora do comum, o visual sofre sutis e significativas transformações. Porém, mesmo que tudo seja compreensível e a leitura flua rapidamente, há um pequeno problema de ritmo em algumas sequências que parecem apressadas e complicam a noção de movimento entre os quadros. De um quadro para outro, os personagens se deslocam muito e dão uma sensação de que estamos vendo fotos tiradas em sequencia e não uma narrativa em quadrinhos. Ainda assim, o estilo não danifica a naturalidade da obra e contribui com uma leitura fácil.

E, por ser uma webcomic, Era da Ferrugem usa algumas ferramentas da web para contar sua história, como músicas e gifs animados. No começo, as músicas parecem boas apenas para serem apreciadas isoladamente, já que são originais e servem como um adicional ao quadrinho, acrescentando pouco a leitura. Aos poucos, felizmente, o uso das músicas se torna cada vez mais orgânicos e elas começam a servir como trilhas sonoras de fato e deixam de ser ruídos na experiência. Já os gifs são bem utilizados em todas as poucas vezes que surgem, colocados de forma sutil e agradando pela surpresa.

Contudo, o que realmente prende a atenção do leitor é o mistério. Desde o começo é possível ver dicas e pistas sobre o que está por vir, deixando claro que há um ótimo trabalho de planejamento. O roteiro é tão natural quanto o universo da história, transmitindo a importante noção de que a vida deles não é roteirizada, fazendo a própria existência do roteiro ser esquecida. Com isso, surgem algumas arestas, como uma ou outra coincidência para facilitar o andamento da trama, algo que não chega a incomodar tanto graças a fluidez da história e ainda confere uma naturalidade rústica a esta realidade fictícia.

Os diálogos também são igualmente orgânicos, frequentemente parecendo conversas que poderiam existir facilmente. Além disso, a composição deles é cuidadosa em dar voz aos personagens e não simplesmente servirem como um transmissor do roteiro. Conforme vivemos junto com o protagonista, passamos a compreender o que ele diz em um nível muito íntimo. Em dado momento, Piet fala em meio a uma conversa que ouviu falar de algo e, rapidamente, lembramos da conversa onde ele ouviu aquilo. Isto mantém a coesão da narrativa e, junto com inúmeros exemplos, mostra uma organicidade enorme nos personagens e suas relações, pensamento e experiências.

Piet Petersen, obviamente, é o centro de tudo e a identificação com sua jornada é vital para a apreciação da obra. No início, ele é um cara ranzinza, antiquado e muito chato, mas se importa muito com seus amigos e família. Não demostrando ser a melhor pessoa que poderia, Piet odeia ardentemente com certa facilidade e julga qualquer um que pareça superficial aos seus olhos. Em geral, ele detesta coisas modernas e tenta atribuir futilidade nisto para validar seu próprio anacronismo. Enquanto os eventos vão afetando-o, passamos a nos importar por pena de sua impotência, embora ele mantenha seu temperamento agressivo e destrutivo por tempo demais. No fim, sua amargura não é apenas um traço de sua personalidade, mas também um elemento importante para a trama, com bases fortes em seu passado, mostrado nos interessantes flashbacks, e consequências decisivas em seu futuro.

Esta primeira temporada é cheia de suspense e muitas respostas chegam no último capítulo, mas a resolução do mistério não é totalmente satisfatória. As respostas trazem apenas mais perguntas, o que é bom e era de se esperar, mas o modo como as respostas são dadas é um pouco maçante. Destoando da naturalidade da maior parte da narrativa, a resolução do mistério é cheia de exposição. É importante dar a recompensa para as pistas dadas e matar a curiosidade do leitor, entretanto faltou alguma sutileza na explanação.

Ainda assim, é animador notar que o autor sabe o que está fazendo, inclusive colocando na boca de seu protagonista a expressão “Deus Ex-Machina” ao se referir à resolução do mistério. Tudo indica que, após começar a revelar a verdade por trás dos segredos, começará a história que ele realmente queria contar. Só nos resta aguardar os novos capítulos para continuarmos intrigados pelos eventos desta brilhante era da ferrugem.

2 Respostas para “Vertical – Eventos Intrigantes da Era da Ferrugem

  1. eu busquei ler a série dessa webcomic e francamente achei ela muito boa quero dizer ela n é prefeita mas o roteiro dela realmente conseguiu prender minha atenção, o clima de mistério foi bem elaborado e para mim isso foi importante já que n sou um leito que aprecia esse tipo de hq (digo me dou melhor com mangá ) mas como era nacional eu tinha que dar uma olhada e o nível realmente é muito alto e os comentários sobre essa hq só tem elogios a sedar n é por menos já que a história é mesmo incrível para mim é o novo mas falando da arte realmente ela é própria para a história além de eu achar ela bonita n sei pq gostei dessa analise ^u^

  2. Concordo com basicamente tudo. Tanto a parte dos defeitos quanto de qualidades. Ficou perfeitamente igual ao texto que eu faria se escrevesse sobre a série. Só que com uma escrita melhor que a minha.

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