Verão de 2015: Akagami no Shirayukihime

O verão já chegou para os japoneses, eles podem aproveitar os dias quentes e ensolarados desta aprazível estação. Mas além do Sol Nascente, o Japão é o país do anime e a Temporada de Verão chega, como sempre, com algumas adaptações de mangás. E se aqui temos que suportar o frio do inverno, nada melhor para aquecer nossos corações do que um romance.

Akagami no Shirayukihime (traduzido para o inglês como “Snow White with the Red Hair”, ou “Branca de Neve Ruiva”) é o mangá shoujo que está ganhando uma versão animada pelo estúdio Bones. A autora se chama Akizuki Sorata, que publica mensalmente na revista Lala DX, da editora Hakusensha, e atualmente conta com 14 volumes.

Acompanhamos a história de Shirayuki, uma plebeia com um raro cabelo vermelho que é intimada a casar com o príncipe de seu reino. Contrariando a decisão de seu soberano, ela corta seu cabelo e foge, encontrando o distinto príncipe do reino vizinho logo na fronteira. A partir daí, ela desenvolve uma relação com este príncipe, enquanto tenta encontrar sua independência neste cenário de nobres autoritários e arrogantes.

É importante começar dizendo que o ritmo desta obra no começo acaba criando dificuldades para que a expectativa criada antes da leitura seja satisfeita. Por se tratar de um mundo antigo, com príncipes, castelos povoados pela nobreza e uma bela moça no meio de interesses diversos, pode-se criar a expetativa de um cenário de intrigas palacianas, conflitos políticos e jogos de poder, além da possível relação com a história da Branca de Neve. Não é o caso. O conflito entre os príncipes da sinopse se encerra sumariamente e o único elemento que traz referência ao conto de fadas é a maçã envenenada, igualmente subaproveitada.

Este começo possui alguns problemas de ritmo e estrutura, e acaba acelerando elementos que pareciam importantes para a trama ou para a construção dos personagens. Assim, a protagonista corta o cabelo e deixa seu país em menos de 5 páginas, sem nos fazer entender quem ela é. Sem qualquer passado ou status quo, sua decisão transformadora perde todo o impacto e parece leviana. Embora a apresentação não seja eficiente, a personagem evoca uma afeição por sua conduta ao longo do mangá.

Shirayuki é uma farmacêutica muito dedicada, alguém que busca se aperfeiçoar e crescer por seu próprio esforço. Ao mesmo tempo que desafia a autoridade dos nobres, ela consegue não ser rebelde ou agressiva, demonstrando uma maturidade ao enxergar o mundo como ele é, enquanto tateia os limites dos valores e tradições. Ela também consegue ser proativa, agindo para resolver os problemas sem esperar o príncipe encantado (embora ele apareça mesmo assim), sem deixar de ser feminina e sensível em momentos românticos.

O par romântico dela, Príncipe Zen, ganha simpatia por não abusar de sua autoridade ou demonstrar arrogância pelo cargo que ocupa, diferente de outros nobres. Seu altruísmo e forte preocupação em fazer realmente o melhor para seu reino o transforma em um típico herói generoso e respeitoso. A relação dos dois é totalmente compreensível, por suas semelhanças claras. Ambos se mostram sempre virtuosos, humildes e honestos, trazendo em si o exemplo da moral que a obra prega, ou simplesmente demonstra.

O mangá não traz grandes reflexões ou discussões em suas páginas, apenas explora temas básicos como o preconceito entre classes sociais distintas, a integridade da mulher e o respeito que ela, como qualquer ser humano, merece. É minimamente interessante acompanhar os personagens reagindo ao preconceito ou a ignorância daquele mundo e é bom que a autora insira leves doses de moralidade básica que, mesmo hoje, muitas vezes são esquecidas por alguns.

Entretanto, esta qualidade também se revela um dos maiores problemas do mangá. Infelizmente, os personagens geralmente enfrentam as imoralidades do mundo com argumentos rasos e a visão de quem discorda deles é ignorada ou tratada de forma superficial, conferindo uma unilateralidade à história. Isto se deve ao modo leve como a autora decidiu contar sua história e, mesmo que a leveza torne a leitura mais facilmente digerível, a leitura perde impacto. Não há peso nos conflitos ou nos obstáculos, deixando a leitura pouco dinâmica e diminuindo o investimento do leitor nos dramas dos personagens, deixando boa parte do peso emocional apenas nos momentos de ternura entre os protagonistas, soando como o paralelo shoujo para o ecchi do shonen.

Alguns podem dizer que se trata de uma característica destas obras voltadas para garotas jovens no Japão. Porém, existem exemplos como Chihayafuru, Orange ou Kuragehime que conseguem explorar protagonistas femininas sem depender tanto do romance em si para criar tensão e drama. Em Akagami no Shirayukihime não há ambiguidade moral, já que a protagonista é basicamente uma santa que consegue ajudar todos com seu exemplo de humildade, e o conflito em relação aos sentimentos do casal central é puramente prático, pela conjuntura social do lugar, sem deixar dúvidas de que os dois se amam e estão destinados a ficar juntos. Tudo isto empalidece a obra e forma uma narrativa bastante básica e definida, para o bem e para o mal, por sua falta de peso.

Visualmente, a obra também não apresenta nenhum primor. Os traços finos e os efeitos com retícula mantém o padrão shoujo, mas a autora não tem um character design muito eficiente, dando poucas características únicas para os personagens. Além disso, a falta de impacto também se mostra no desenho, deixando os quadros e cenários pouco memoráveis e muito pobres, mesmo quando estes pedem por intensidade. A quadrinização também não é inventiva e algumas vezes parece sobrecarregada e apressada, com passagens de tempo e mudanças de espaço precipitadas, além de um uso confuso de fundos pretos.

A boa notícia para os fãs de anime é que o áudio-visual tem muito a acrescentar a Akagami no Shirayukishime. As cores e os sons devem trazer mais diferenciação entre os personagens e imersão nos cenários. Fora isso, existem muitos elementos do mangá que funcionariam muito melhor em anime, o que me fez pensar que a autora tinha em mente a possível adaptação. Não só o cabelo vermelho tão falado da protagonista, mas as frequentes plantas e ervas medicinais do castelo, os momentos líricos que pedem uma trilha sonora e até as páginas coloridas, que são muito mais bonitas que o resto das páginas.

O mangá traz personagens agradáveis e uma bússola moral equilibrada, dotada de uma leveza singela, mas problemática. Embora não seja tão diferente quanto poderia ser, ainda há uma pequena, mas relevante, distância dos clichês de mangás para meninas. Shirayuki, com sua carreira e suas competências, não se importa em andar de mãos dadas com o príncipe encantado, desde que o faça por suas próprias pernas.

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