Vertical – Distant Sky

Buscando obras interessantes no webtoon.com, segui a recomendação feita no Mangá² pelo ouvinte Nathan Castro, e dei uma chance para Distant Sky. O quadrinho é dividido em temporadas e atualmente está prestes a começar sua terceira. Diferente da obra anterior desta categoria, ainda não há tradução para o português na plataforma.

A história de Distant Sky se passa em uma cidade destruída e tomada por uma inexplicável escuridão. O céu é negro e não há mais sol visível, a maioria dos prédios se tornou destroços e não se sabe qual a causa ou o significado de tudo isso. O protagonista acorda neste mundo apenas com seu celular, sua fonte de luz que o ajudará a explorar este lugar cheio de perigos e dificuldades.

Para começar, devo dizer que eu estava disposto a ler apenas a primeira temporada deste webtoon, o que seria suficiente para uma análise básica da qualidade geral da obra. Porém, a leitura me prendeu de maneira tão poderosa que acabei os capítulos disponíveis, ávido pela vindoura temporada. E muito disto se deve aos mistérios da série.

Boa parte da construção narrativa está focada em criar e fomentar mistérios. Existem muitas pistas espalhadas durante a leitura, mas são extremamente confusas e acabam criando uma sensação de obscuridade no leitor, como se estivéssemos na mesma escuridão daquele mundo. Tal confusão cria grande curiosidade, o maior motivador de ir de um capítulo para o outro sem parar. Há, porém, um potencial problema nestas pistas desconexas, pois as revelações futuras precisarão unir e fechar as dúvidas para que elas se mostrem mais do que simples ferramentas de roteiro para criar curiosidade.

O clima bem construído e o universo ameaçador também contribuem com o envolvimento emocional. Um ponto importante para sentirmos a tensão das situações é a escolha dos perigos enfrentados pelos personagens, sempre exageros de elementos reais. Sem fantasmas ou demônios, este mundo pós-apocalíptico é recheado de elementos naturais que tornam-se ameaças, como lama, insetos, cães, tigres, lava, e outros que são mais exagerados, como canibais ou lunáticos, mas sempre mantendo um nível de realismo. Estes elementos situam o universo da obra como algo factível e, somando-se ao clima claustrofóbico, assustadoramente relacionável.

Entretanto, a imersão depende muito da narrativa e pouco envolve o protagonista. Como se fosse um personagem principal de um jogo, Hanuel possui uma personalidade rasa e serve basicamente para explorar o cenário e enfrentar os conflitos. Em momentos ele é tomado pelo medo, em outros torna-se extremamente determinado, mas sem aprofundar em suas questões emocionais. Ele é definido por sua confusão compartilhada com o leitor e sua evidente relevância para o plot e mistérios da obra.

Felizmente, até aqui existem duas personagens muito mais interessantes e profundas que o garoto, como Heyool, a garota que acompanha o protagonista. Ela possui traumas fortes por causa deste mundo obscuro e intercala de maneira natural e tridimensional sua rigidez, usada para manter distância das pessoas e evitar conexões sentimentais, e seu altruísmo incontrolável.

Nara, que surge na segunda temporada, é a segunda personagem realmente explorada com alguma profundidade. Além de seu passado, sua situação durante a história é forte e transformadora. Antes do desastre que trouxe a escuridão, ela era uma garota fútil e tola, mas precisou amadurecer e ganhar força para proteger sua irmã, uma evolução tocante que precisa apenas de alguns flashbacks para ser compreendida.

Os flashbacks, a propósito, são um exemplo de como Distant Sky brinca com as cores, tanto para fixar cores símbolos para os protagonistas, quanto para diferenciar os momentos da história. Usando tons escuros de azul, preto, branco e vermelho para sangue na maior parte do tempo, as cores menos frequentes trazem sensações ou informações novas, como um tom amarelado para flashbacks, a lava com um laranja forte para expor o perigo ou acrescentando um filtro verde quando um personagem vê o mundo através de um aparelho de visão noturna.

O traço, uma mistura de Tsutomu Nihei e Junji Ito, é outro grande responsável pela construção do clima. Acertadamente sobrecarregado e sujo, as cenas ainda conseguem ser, ironicamente, muito claras para o leitor. Não é possível passar o olho com pressa e compreender o que está acontecendo, mas uma atenção mínima já é suficiente para visualizar todos os elementos importantes das cenas.

A compreensão, infelizmente, não é perfeita em todos os momentos. Mais de uma vez, é possível notar uma dificuldade da quadrinização em nos mostrar os movimentos de um quadro para o outro. Embora algumas vezes isto seja proposital, mais uma contribuição para a confusão da narrativa no escuro, outras ficam apenas apressadas, como se o autor quisesse mostrar uma ação importante e pulasse quadros da cena em si.

Felizmente, algumas outras cenas são inspiradas em sua construção, principalmente quando utiliza do formato próprio dos webtoons. Pela falta de limite de quadros, há uma liberdade no formato que cada um deles pode ter, permitindo que a quadrinização experimente com luz e escuridão, transformando fachos de luz de lanternas e celulares em quadros, brincando com elementos e personagens saindo da escuridão e até concebendo uma cena digna de pesadelos com quadros que imitam frames de filme.

Além disso, alguns momentos e cenários são projetados para funcionar perfeitamente na leitura vertical, em especial uma escada vertical inacreditavelmente longa, gerando uma sensação fascinante, e imersiva, ao percorrermos toda sua extensão e lermos a fala do personagem a respeito do quão longe o chão está do topo da escada.

A luz no fim do túnel parece representar o possível tema que a história constrói até aqui. Olhando para seus personagens, seus conflitos e suas tramas, vemos algumas relações com o tema da esperança. Não é algo muito inovador, visto que histórias pós-apocalípticas geralmente trazem a fé na sobrevivência e o otimismo como motivadores para os personagens continuarem enfrentando suas dificuldades. Porém, as situações de Distant Sky passam uma tensão muito única e as incertezas e mistérios causam uma curiosidade arrebatadora. Devemos esperar que uma luz seja lançada sobre tais mistérios, enquanto vagamos pela escuridão nesta experiência perturbadora, intensa e muito envolvente.

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