1Volume – Gigantomachia

Volume único, Kentaro Miura.

Em 2013, Kentaro Miura, o autor de Berserk, um mangá que já pode ser considerado clássico antes mesmo de seu término, decidiu começar uma minissérie na própria Young Animal, revista da Hakusensha que publica Berserk, durante um hiato de sua série principal. Assim nasceu Gigantomachia, que chega agora no Brasil pela editora Panini.

Focada em Delos e Prome, uma misteriosa dupla que viaja pelo deserto, a história mostra um futuro muito distante com fortes inspirações na Grécia antiga e seus mitos. A trama começa mostrando a chegada dos protagonistas em uma aldeia de mutantes mimetizados com insetos onde terão que lutar por suas vidas enquanto tentam cumprir seus importantes objetivos.

Atualmente, o autor da obra parece estar em seu auge no quesito visual, melhorando absurdamente desde o começo de Berserk. Seu detalhismo é inquestionável e a força de seus traços dá vida aos seus mundos. Porém, nesta obra há mais a ser exaltado.

Há vários momentos ao longo do mangá que pedem uma noção de escala maior, e o desenho consegue passar a sensação de grandeza para o leitor muito bem, deixando claro o tamanho de cada elemento e tornando compreensíveis sequências absurdas em sua grandeza e impacto. Os designs também são incríveis, mesmo em elementos pouco relevantes para a trama, mostrando uma criatividade ímpar e que o visual parece agradar e interessar tanto o leitor quanto o realizador.

O desenho dos personagens ajuda muito na identificação. Mesmo os homens-inseto, com suas armaduras e mutações, mostram-se fortes e determinados, gerando empatia quando o leitor entende seus conflitos e sua raiva dos humanos não-mutantes.

O musculoso, feio e simpático Delos apresenta uma aparência conflitante com sua personalidade, já que é extremamente bondoso, pacifista e até moralista. Mesmo assim, o visual denota seus conflitos, como a necessidade de lutar e o preconceito proveniente da aparência humana. Já Prome tem um design moe e extremamente claro, destoando de todo aquele universo sujo e cheio de músculos. Podendo ser definida, em vários sentidos, como um Gandalf Moe, ela se mostra como um ruído bem-vindo na melodia visual da obra e possui uma ótima dinâmica com seu parceiro.

A interação entre os dois protagonistas é a clássica disputa entre razão e emoção, mas tratando os conceitos mais como complementares do que combatentes. Eles não se veem como rivais, Delos entende que Prome e seu pensamento lógico são importantes para o cumprimento dos objetivos, mas se mantém como o contrapeso emocional. A ligação dos dois faz até com que eles pareçam duas partes de um mesmo ser, algo literal em alguns momentos.

O experiente autor apresenta boas ideias no modo como constrói seus quadros e seus balões. Para mostrar a tal ligação entre os protagonistas, ele une os balões de fala dos dois em vários momentos, dando a impressão que as frases se complementam. Neste quesito, deve-se destacar a ótima página onde um corpo está sendo criado e os balões cobrem a página recitando cada elemento que constitui o ser. As boas cenas de ação também sabem passar a sensação de agilidade, embora uma vez ou outra o autor tente colocar elementos na página sem os limites dos quadros, deixando a cena um pouco confusa.

Entretanto, a experiência de Gigantomachia não é apenas visual, felizmente. Por ser um volume único, a trama evita enrolações e exposições longas. Assim, se você não sabe muito a respeito da obra, é provável que se surpreenda com o momento que o motivo do título fica claro. A breve história é construída com calma e com bons imprevistos, evoluindo aos poucos sem se perder em sua mudança de escala, mantendo conflitos relevantes e situações instáveis até o fim.

Algo que deixa a leitura mais agradável é o modo empolgante como o autor decide mostrar a história. Sem ser excessivamente dramática, mas também evitando ser leviana, a história tem cenas emocionantes que funcionam. Porém, o mais divertido de acompanhar são as cenas de ação, principalmente a batalha final. Com rimas referenciando os primeiros capítulos e feitos colossais, tal batalha poderia soar repetitiva ou exagerada, mas é apresentada de uma maneira tão impressionante e com quadros tão admiráveis que se mostram um entretenimento muito dedicado e bem feito. Não é apenas o traço, mas o modo como tudo aquilo é pensado.

Inteligente e relevante dentro de si, a obra ainda traz uma mensagem pacifista entre uma batalha e outra. Embora soe estranho que o autor de Berserk, uma obra conhecida por ser violenta, use aqui seu protagonista para uma mensagem pacifista, a ideologia de Delos é focada exatamente nisso. Entendendo que lutar é uma necessidade, sua filosofia é não matar o adversário e vencer de uma maneira segura para todos, mesmo que cause ferimentos e dores nele próprio. O último conflito moral da obra revela a discussão central sobre ódio e vingança e o autor consegue fazer a resposta ser a paz e a vida. Uma mensagem bonita e muito positiva que tenta não soar piegas ou moralista.

Bem desenhado e bem escrito, Gigantomachia é ótimo para quem quer a qualidade de Miura em um formato contido e completo. Pode ser muito menos denso que Berserk, mas ninguém quer viver só de sangue e violência. Nem mesmo o próprio autor.

Avaliação Final

6 Respostas para “1Volume – Gigantomachia

  1. Realmente é um bom mangá, a arte é fenomenal e enquanto estava finalizando a leitura eu tive dois pensamentos: Como eu queria que o Miura desenhasse Shingeki no Kyojin e que eu queria saber mais sobre esse mundo. Eu não me arrependi de ter comprado, mesmo os caras “do outro blog” terem falado que não era muito bom.

  2. eu acompanhei quando saiu e gostei muito ,e comprei a versão publicada aqui no brasil e não me arrependo

    na internet tem muito comentário negativo sobre o mangá,mas ao meu ver o problema é que o pessoal foi ler esperando um beserk e como o mangá não tem tripas de fora ,ficam reclamando

    • Acredita que o “moe” quase me afastou no inicio, mas rapidinho você já esta apegada a personagem.
      Gingatomachia é tão bom que nem parece manga (brincadeira, mas esta frase é muito comum a detratores de manga quando falam de obras que cairam no gosto de todos como Akira).
      Brincadeiras a parte, mas Kentaro Miura nesta história teve momentos que tive feelings da revista Metal Hurlant. Fico a imaginar que seria muito proveitoso se Miura viesse a fazer histórias curtas, quiça até mesmo para antologias como ja citada revista francesa.

      • eu acho engraçado pessoas que veem “moe” como um “genero” tipo terror ,aventura e afins
        eu não quis dar uma de chato ,mas é tipo de coisas que me imncomoda quando vejo

  3. Li e achei ok, infelizmente não me impactou, tenho certos problemas com volumes únicos, mas não tem como negar que foi bem feito.

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