Semicírculo – Missão de Repressão à Akatsuki

Naruto era bom.

É quase um fato que o final de Naruto foi muito inferior ao resto da série. Mesmo quem gostou do fanservice barato deve concordar que todo o arco final foi muito arrastado e mal escrito. Mas o fato é que Masashi Kishimoto não é um mau escritor, nem um mau quadrinista, tendo muitas passagens ótimas de Naruto para comprovar. E este arco é uma dessas passagens.

Após reencontrar Sasuke pela primeira vez depois do timeskip, Naruto decide que precisa ficar mais forte para alcançar seu amigo. Ao mesmo tempo, a Akatsuki começa a agir com mais força, capturando muitos Bijuus. Acompanhamos então o treinamento para Naruto aprender sobre a natureza de seu chakra e uma grande missão de reação dada por Tsunade a um grande grupo de ninjas, incluindo o time de Asuma e Shikamaru. Porém, a batalha contra Hidan e Kakuzu, membros da Akatsuki, deixa de ser apenas política para tornar-se pessoal.

Enquanto construía situações que tomariam grandes proporções no futuro, o mangá nos apresentou uma história pessoal de amadurecimento. O autor mostra suas habilidades como quadrinista e roteirista, mantendo uma trama com algumas nuances interessantes para uma análise. O arco vai do capítulo 312 ao 342 e, obviamente, haverão spoilers abaixo.

Akatsuki

Logo no começo do arco, podemos perceber a importância que a Akatsuki está tomando no universo e na história de Naruto. Mesmo com a Tsunade percebendo que já é hora de retaliar as ações criminosas da organização, eles continuam agindo fortemente. O conflito político é explorado de maneira simples e se torna interessante exatamente por isso. O estilo da obra combina muito bem com a abordagem da política deste arco, mostrando que os problemas são reais, mas sem exagerar nas reviravoltas e complexidades das situações. É a vila dos heróis contra a organização malvada, não há conflito moral neste momento e o que importa é a dificuldade estratégica para frear os inimigos.

A organização em si, ainda que mostre seu poder e crie mistérios sobre seus objetivos, soa um pouco desinteressante quando nos mostra alguns de seus membros. Tobi e Deidara surgem durante o arco de maneira extremamente irritantes, mesmo que cumpram o papel de mostrar o esforço crescente da Akatsuki. A relação de ódio infantil entre os dois, regada a piadas sem graça, nos faz questionar a seriedade da causa pela qual lutam, assim como os outros membros presentes no arco.

Já Hidan e Kakuzu têm uma dinâmica muito divertida e incomum por ambos serem bastante desumanos e imorais. Também são bons vilões por representarem uma ameaça real aos heróis, mas como personagens acabam sendo bastante superficiais. Kakuzu é definido simplesmente por sua ganância, com apenas mais uma característica inserida posteriormente, e Hidan define-se por sua fé psicopata. Aliás, nenhum dos dois parece ter nenhum tipo de interesse nos desejos da organização para qual trabalham. Ainda que o líder deles seja mostrado de maneira instigante, construído aos poucos como um vilão temível, seu trabalho de gestão de pessoas é bem problemático.

Independente da profundidade e lógica dos vilões, suas ações geram consequências fortes, com batalhas violentas e momentos bastante tensos. A reação dos heróis, felizmente, é igualmente forte, forçando-os a agirem de maneira violenta para vencer. Há até um furo de roteiro na violência, quando Kakuzu está fora de combate e é morto por Kakashi sem interrogatórios, sendo que havia sido estabelecida a necessidade de informações sobre a Akatsuki. De qualquer forma, é bom ver os mocinhos agindo com tal intensidade.

Direção e Ritmo

Este arco merece muitos pontos em seu desenvolvimento. Uma das principais qualidades é o modo como as diversas tramas apresentadas seguem juntas, se entrelaçando na leitura, mesmo que não se afetem. A montagem do Kishimoto tem momentos magníficos, fazendo situações desconectas conversarem entre si e, junto com bons ganchos nos finais dos capítulos, tornam o ritmo de leitura muito mais agradável.

Existem muitos exemplos de transições utilizando elementos da cena como ligação, deixando o fluxo mais natural e agradável. Acompanhamos um personagem aprendendo sobre o conceito teórico dos elementos e somos mandados para a utilização prática daquele conceito.

O treinamento do Naruto, aliás, toma uma parte significativa do arco. Alguns momentos ele soa aborrecido, já que é uma trama mais estável, enquanto o conflito com a Akatsuki fica cada vez mais intenso. Quando é utilizado como descompressão para as batalhas, torna-se mais interessante. O fato de Kakuzu possuir habilidades relacionadas aos elementos dá relevância à apresentação didática do conceito neste momento.

A expansão do universo também é boa, explicando a base das habilidades dos ninjas, com regrinhas à la Pokémon e os materiais que absorvem chakra. Porém, no todo da série eles perdem um pouco a importância. A ideia de utilizar os clones do Naruto para um aprendizado mais rápido é boa, mas é estranho que o próprio Naruto nunca tivesse percebido que ele aprendia o que seus clones aprendiam e seus mentores nunca tivessem tido essa ideia antes. Ainda assim, o conflito com a Kyuubi que tal esforço gera, impedindo-o de usar muito do seu chakra sem ser corrompido, torna-se um bom obstáculo e trata a besta como a ameaça que de fato é, algo que infelizmente é abandonado no futuro da série.

O desenvolvimento das batalhas é um ponto importante pra qualquer battle shonen e aqui temos boas lutas. Além do já citado ritmo bem construído, as batalhas possuem estratégias relevantes e que geram consequências. A presença de Shikamaru ajuda, já que ele é um estrategista e deixa as batalhas muito mais inteligentes, não sendo apenas adversários aumentando seus poderes até que alguém ganhe. Existem acertos e erros estratégicos dos dois lados, com viradas que não soam forçadas em sua maioria. Os bons ângulos desenhados por Kishimoto ainda potencializam a imersão.

Além disso, a violência e a imortalidade dos inimigos gera uma sensação de perigo, principalmente quando eles matam Asuma, um personagem relativamente importante que havia se tornado recorrente nesse arco. Ainda que sejam apenas capangas, Hidan e Kakuzo possuem a dose certa de poder para não se tornarem nem excessivamente grandiosos nem alvos fáceis. E no fim o embate mais interessante fica entre Shikamaru e Hidan.

A carga emocional das batalhas aumenta a tensão, mas o que realmente faz delas envolventes são as restrições das habilidades, forçando os dois a explorarem a fraqueza do outro enquanto lidam com as suas. E os conflitos ganham mais uma camada por serem momentos chave para o desenvolvimento do personagem central e do tema do arco.

Maturidade

Este arco possui um tema muito claro sobre amadurecimento e juventude, tendo boa parte de seus elementos narrativos relacionados a isto. O plot do mangá progride e há expansão no universo, mas o foco mais tocante está na relação de Shikamaru com Asuma. O modo como eles convivem é muito agradável e humano, um vínculo meio paternal, meio fraternal. Ambos se admiram e se respeitam mutuamente.

Shikamaru tem uma atitude muito introspectiva, parecendo mais centrado. Ao mesmo tempo, seu espírito é cansado e seu desejo é de não precisar fazer coisas importantes em sua vida, embora faça com muita dedicação uma vez que é posto em uma posição ativa. Esse comportamento traz uma tridimensionalidade muito proveitosa, deixando-o com algumas características relaxadas de uma criança e outras responsáveis de um adulto.

Já Asuma serve mais como escada para o desenvolvimento de seu pupilo/parceiro. Sua morte é o acontecimento mais emocionante desse arco, principalmente ao mostrar que isso gera consequências nas pessoas a volta dele. Mesmo que ele não fosse um personagem tão recorrente e central no mangá, o autor consegue criar uma empatia ao mostrá-lo com um cara legal. Seu espírito jovem e divertido, seu jeito irresponsável de um adulto que não quis ficar ranzinza e sua relação amorosa com Kurenai servem para nos fazer apreciar sua vida e, assim, dar impacto à sua morte.

A partir disso, Shikamaru percebe que não pode ficar relaxando ou chorando como uma criança. Ele não vai ao enterro de seu amigo para treinar e planejar sua vingança. O pesar que sente pela perda, representado pelo cigarro, o deixa mais responsável. É interessante observar que o rapaz que antes invejava a ociosidade das nuvens, agora produz nuvens de fumaça.

O amadurecimento atinge o Naruto também, tendo um momento onde decide que resolverá um problema sozinho e mostra uma leve evolução em seu pensamento estratégico. Seu desenvolvimento, porém, é muito mais brando, tendo como motivação alcançar o nível do Sasuke. Naruto tem uma visão muito mais infantil de crescimento e seu poder de luta evolui muito mais que seu caráter.

Tematicamente, o arco possui mais uma camada. Além de exaltar a maturidade dos jovens, Kishimoto expõe sua visão sobre os mais velhos, relacionando as duas perspectivas, e não é estranho que os grandes vilões deste arco sejam imortais, seres que perderam a noção do conceito de envelhecer. Kakuzu fica surpreso ao ser derrotado por oponentes tão novos, ignorando o fato que os jovens tendem a ser a evolução de seus antepassados, e expõe uma competição entre a longevidade e a juventude que não é apenas contraproducente, mas também revela uma luta contra o processo natural de torna-se obsoleto.

Asuma enxerga muito bem o papel da juventude no mundo, deixando claro que o conhecimento e as responsabilidades dos adultos precisam ser passadas para frente em algum momento. Sua morte representa esse momento para Shikamaru, onde ele percebe que a chama precisa continuar queimando. Responsabilidades, conhecimentos, desejos, entenda a chama como quiser. O fato é que se ela for compartilhada pelas gerações, nunca se apagará.

11 Respostas para “Semicírculo – Missão de Repressão à Akatsuki

  1. Meu arco favorito. Texto muito bem escrito.
    Me fez querer reler o Naruto inteiro de novo só para esse arco.

  2. Muito bom! 😀 Análise perfeita. E isso me lembrou que mesmo após o final, o Hidan continua debaixo da terra, tentando sair usando os dentes heheh

  3. Otimo texto. Naruto pode ter sido uma obra meio insastifatória no final, mas teve sim suas doses de bons momentos.

  4. Eu estou vendo maruto do zero pelo mangá(antes so vi o anime e cai no meio do mangá perto do arco de pain) e pra minha surpresa o manga realmente é bom e dinamico com lutas curtas e ate um pouco de sutileza como o Quarto Hokage cujo design so é mostrado no 11° volume.

    Quanto a esse arco você citou duas coisas que me incomodam: os clones e o conceito pokemon. Primeiro os clones eu ate entendo o novo poder(ou ele copiou ou foi copiado da mini Madrox da marvel) mas todo esse tempo que ele passou com o Jiraiya ele não aprendeu isso? Tudo o que ele aprendeu com o velho foi uma versão overpower do rasengan? Segundo o lance dos elementos foi, para mim inventado sem planejamento algum, basta lembra que no começo kakashi é capturado por zabuza(alias kakashi aumentou o chackra umas 500 vezes no timeskip) ou que ate ali a maioria dos ninjas dominavam mais de um elemento cagando pro conceito que ele acabou de criar.

    Ja os Akatsuki meio que sofrem do mesmo mal, eles são uma organização criminosa que… faz a mesma coisa que os ninjas, exceto que são freelancers. Então no arco de Jiraiya começam a desenvolve-la e é a parte que eu mais gosto, mas novamente da a impressão de que ele foi inventando em cima da hora para chocar, pois nenhum do personagens anteriores tinham alguma ideologia igual a pain e konan so era mostrado que eles eram fodões o bastante pra peitar kages e só.

    • Concordo que a ideia dos elementos não fui muito bem planejada, mas não dá pra dizer que é um grande furo. Ele explica que os ninjas possuem elementos que são mais compatíveis, mas isso não impede que usem outros elementos, apenas não terão tal facilidade. Claro, essa informação veio para corrigir um possível furo, o que a torna mais forçada, mas está lá.

  5. Que bela análise!

    Uma pena o mangá ter desviado tanto do caminho que percorria. Lembro que quando lia esse arco sentia a vasta dimensão que era o universo de Naruto, e o quão interessante aquilo era. Na época, ver uma história que tratasse sobre política, mesmo que superficialmente, era algo novo pra mim, e isso me fez gostar ainda mais da obra. Eu imaginava que as coisas não seriam resolvidas apenas em batalhas físicas e que o foreshadowing que se montava ali traria novos desfechos que os já esperados, como o Naruto vencer o inimigo apenas com um golpe novo, por exemplo. Infelizmente, foi isso mesmo que aconteceu!

  6. Antes de mais nada, parabéns pelo ótimo texto Leonardo Souza.
    Só queria fazer um complemento a sua análise:
    Sobre Hidan e Kakuzu, acho que eles funcionam, também pelo fato de serem personagens simples e superficiais. Digo isto porque, como capangas e vilões não ligados diretamente ao plot principal do mangá, eles não pedem um desenvolvimento mais aprofundado. Kishimoto acertou em moldá-los com características simples, com isso deu maior dinamismo so arco e pode focar na preparação da morte do Asuma e no desenvolvimento do Shikamaru, além do tema principal do arco.
    No mais, parabéns novamente pelo ótimo texto, e fica aqui esse complemento 🙂

  7. Bom texto! Concordo plenamente com análise, só discordo um pouco quando comenta sobre a suposta personalidade rasa dos personagens vilões.

    Digo, talvez esteja até certo em dizer que não há profundidade, não tem mesmo nenhum conflito moral, mas o quero dizer, é que o aspecto capitalista do Kakuzu e a fé do Hidan, trazem à mesa uma segunda camada pro arco.

    A dinâmica entre os dois funcionou, pra mim pelo menos, justamente porque há uma sútil crítica aos extremos nesses personagens. Kakuzu quer o extremo da completude material e Hidan o extremo da completude etérea. A crítica está em ambos estrarem eternamente por essa busca e a dinâmica funciona pois são esses dois lados forçados a interagir um com o outro. E talvez seja forçar um pouco aqui, mas isso é refletido até nos poderes, um tem o poder interior adquirido pela reza e o outro teve que roubar fisicamente o poder dos outros pra se tornar o que é.

    Essa na verdade é uma rima temática que acontece com outra dupla de vilões em Naruto: Deidara e Sasori. Sendo que um busca a apreciação extrema do que é instantâneo e o outro do que é eterno. Neste caso, a filosofia é retratada no poder também, um se tornando eterno com os bonecos e o outro literalmente explodindo e virando a manifestação do momentâneo.

    É claro que a interação acaba se tornando mais um alívio cômico mais do que qualquer outra coisa, mas tudo isso acaba criando camadas mais sutis de profundidade que ajudam a tornar esse arco tão bom.

    Pena que o Kishimoto bagunçou completamente a Akatsuki e teve que abandonar essa rima entre os vilões, adoraria poder ver quais outras duplas ele poderia criar com essa ideia.

    • Acho uma interpretação muito válida e até intencional. Essas dinâmicas conflitantes são bem visíveis na construção dos personagens, mas acabo desvalorizando um pouco no todo do arco por não se encaixaram com o resto. Ainda que seja uma ideia e uma crítica interessante, são características chapadas e não são tão relevantes para o arco em si. Poderia ser outra dupla que matasse o Asuma, como Sasori e Deidara, e não haveria grande diferença. Me lembra o Arlong em seu arco de One Piece, com o tema do racismo aparecendo de maneira bem sutil. Acho uma pena que seja tão sutil que se torna um enfeite.

      Ainda assim, não acho que isso tire pontos do arco, até ajuda ao deixar os holofotes para os personagens mais importantes.

      • Pois é, entendendo essa desvalorização. Mesmo eu aqui enquanto escrevia o comentário, fiquei pensando em como encaixar o Shikamaru nessa dinâmica dos vilões, talvez colocar uma visão mais niilista de mundo nele, mas aí seria mesmo forçar demais. Toda essa temática realmente seria mais interessante se os personagens principais tivessem alguma relação com isso.

        Mesmo no caso do Deidara e do Sasori, ambos são derrotados por personagens que não tem relação nenhuma com o conceito deles, o autor até teve que forçar um complexo de inferioridade no Deidara quando foi derrotado pelo Sasuke.

        Ainda assim, acho que é um detalhe que enriquece o arco, mesmo porque, como você mesmo disse, é algo tratado muito levianamente e que não tira o foco dos personagens que importam de verdade.

        • Mas o sasori foi derrotado pela avó(e um pouco da inutilidade da sakura) ali tava mais para uma luta pessoal do que ideologica, o mesmo valendo pro hidan e shikamaru. Já kakuzu e deidara foram muito subaproveitados, e discordo sobre o lance de extremos, claro que não é exatamente isso o ruim, o verdadeiro problema é que os personagens soam monotematicos demais.

          O que vc quer comer? DINHEIRO
          Vai comprar alguma coisa? DINHEIRO
          Vc pisou no cocô de vaca! Dinheiro

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