Consertando: Tetsu no Senritsu

Um conceito bastante comum nas críticas artísticas em geral é a análise do que a obra é, ao invés do que ela poderia ser. Geralmente o que importa é encontrar o erro e discutir porque ele é ou não um problema. Porém este post será uma experiência diferente, pois, além de analisar os erros, tentarei corrigi-los ao mesmo tempo que respeito e mantenho a obra nos trilhos sem atrapalhar os pontos positivos dela.

A obra escolhida é Tetsu no Senritsu, ou A Melodia de Ferro, de Osamu Tezuka, já recomendada no Mangá². Trata-se de uma obra curta e de leitura rápida, então recomendo prosseguir apenas depois de ler o mangá, pois terão muitos spoilers e a ideia de corrigir perde o sentido se este for seu primeiro contato com o mangá.

A história começa com uma ótima sequência de páginas sem diálogos e com uma quadrinização bastante dinâmica. Logo depois, somos mandados ao passado não muito distante daquele momento, com Dan, o protagonista, conversando com Eddy, seu amigo. Este momento mostra Eddy como uma pessoa muito gentil, o que muda drasticamente no final deste primeiro capítulo. Então vemos o casamento, Dan conhecendo a família do cunhado e já partimos para o momento da traição do japonês. Aqui temos um pequeno defeito de ritmo.

A cena inicial é feita para nos deixar curioso sobre como o personagem foi parar naquela situação, mas isto perde o efeito instigante quando voltamos para esta mesma cena poucas páginas depois, sem tempo para aumentarmos nossa curiosidade. A melhor meio de consertar Tetsu no Senritsu é utilizar pontas soltas sobre a vida do protagonista e resolver os problemas com isso. O início da amizade entre Dan e Eddy é o primeiro deles.

Nunca nos é contado como começou a amizade entre os dois ou o modo como Eddy conheceu a Arisa, a irmã de Dan, já que o passado dos irmãos nunca é explorado. Seria mais aceitável se os dois homens vivessem em ambientes parecidos. A mudança perfeita seria tornar Dan alguém com muito dinheiro também, tendo assim mais chances de se aproximar do rico e esnobe príncipe da máfia.

A profissão que resolveria outro problema do mangá seria neurocientista. Dan poderia ter mais um motivo para viajar para a América: Encontrar seu colega que trabalhava com telecinese, criando uma preparação maior para quando esse elemento viesse à tona no futuro.

“Dan entrou em um laboratório, familiarizado com o ambiente. Logo é abordado pelo velho cientista do lugar.

– Dan, que bom que pode vir!

– Estou muito curioso sobre esse seu estudo, parece ser incrível.

Sem falar mais nada, o cientista levou seu convidado até outra sala com pressa. Um homem estava sentado em uma cadeira, era negro e tinha próteses no lugar das duas pernas. Atrás dele, um par de muletas encostadas na parede.

– Esse é Birdy, ele perdeu as pernas no Vietnã. – O cientista fez um sinal para Birdy.

No momento em que viu as muletas ganharem vida e moverem-se sozinhas, Dan ficou impressionado.

– Telecinese, Dan. Começamos com coisas simples, como virar esse copo de água. – Ele apontou para o objeto sobre a mesa.

– E em quanto tempo ele consegue fazer isso?

– É uma variável, alguns demoram anos… – O velho logo notou a decepção de Dan – Vá, tente você.

Dan olhou para o copo com concentração esperando que algo incrível acontecesse, mas desiste após alguns segundos de inércia.

– Isso parece interessante, mas deve ser muito aprimorado. Precisaria de um esforço colossal para obter algum resultado significativo, ninguém teria tal disciplina.

Disse isso se dirigindo à saída, seguido pelo outro cientista. Birdy ficou na sala e bebeu a água do copo, notando algo quase imperceptível. O copo estava levemente trincado.”

Depois dessa apresentação e construção de expectativa, teríamos o assassinato do político, presenciado por Dan, o que gerou a delação e toda a história que se segue. Porém, alguns elementos do roteiro ficam confusos neste trecho. A situação foi muito rápida e seria difícil pra qualquer um ver com clareza o rosto do atirador, além de não ficar claro como os mafiosos descobriram que Dan era o delator.

“Dan andava pela calçada calmamente quando viu um carro em alta veocidade na outra ponta da rua vindo na direção dele. Ao passar por um homem gordo que andava sozinho, o passageiro do carro disparou algumas vezes, acertando muitos tiros no tal homem e gerando correria e gritos assustados.

Sem ter para onde correr, Dan encostou-se na parede e viu o carro se aproximar dele. Focando sua atenção na janela de onde os tiros haviam saído, ele conseguiu ver o rosto do atirador antes que este fechasse o vidro. Os dois ficaram cara a cara por um instante.”

Na punição, Eddy mostra um desprezo grande por Dan, o que não combina com sua conduta anterior. Isso acaba tornando sua personalidade dúbia e desperdiça uma possível profundidade. Este pode ser o momento de virada para o garoto bonzinho se tornar um homem que se entrega pela família.

“Dan está na sala com vários membros da família Albani, todos parecendo estressados. Eddy está desconfortável e questiona seu amigo.

– Um membro da família Bianchi falou que um asiático deve ter ajudado a polícia. Era você, Dan?

– Eu só falei o que eu vi!

Um homem se aproximou lentamente do japonês olhando para o decepcionado Eddy, esperando algum sinal. Um movimento positivo com a cabeça fez com que o homem atingisse Dan com um forte soco. Logo outros membros da família seguiram o exemplo do primeiro. Eddy tentava desviar o olhar, mas notou que era observado por seu pai. Reprimindo sua insatisfação com a situação, ele respirou fundo e assumiu uma nova postura, mais fria.”

A partir do segundo capítulo começamos a conhecer um Eddy muito mais agressivo. Com a mudança menos abrupta sugerida no parágrafo acima, essa personalidade poderia ser mais tridimensional, principalmente no futuro quando ele deixa seu lado mais frágil aparecer de novo. No momento que leva os cachorros para assustar sua esposa, por exemplo, poderia representar uma tentativa exagerada de provar-se como um homem forte.

Originalmente, temos a apresentação do cientista neste segundo capítulo, mas isto já estaria estabelecido. Dan reencontraria seu colega após sair do hospital e aceitaria ser cobaia dos experimentos.

No terceiro capítulo temos uma mulher que trabalha para Eddy dando uma volta pelas ruas da cidade com Arisa para libertá-la brevemente do cárcere privado. A moça é envolta em uma aura de mistério, mas nunca é desenvolvida. Se fosse substituída por algum membro mais recorrente da família, que tivesse contato anterior com Arisa, poderia ser criada alguma relação mais forte entre a irmã de Dan e este novo personagem, acrescentando na história alguém com quem a moça pudesse ter um diálogo sobre seus problemas. Este membro seria alguém geralmente usado pela máfia para proteger, mas que também faz trabalhos de campo.

Neste mesmo capítulo temos um problema bem simples de roteiro, resolvido facilmente sem mudar muito a história. Dan possui um informante nunca citado no hotel que conta sobre a saída de Arisa, o que é desnecessário, pois já havia sido estabelecido que ele estava instalado em um prédio com visão direta para o hotel, podendo notar a saída de sua irmã em uma de suas observações.

Há uma cena onde Eddy revela um pouco de seu passado e fala sobre sua personalidade possessiva. Arisa poderia ser uma escada para o desenvolvimento do marido, dando uma lição de moral que se refletiria nas decisões futuras do personagem.

Arisa se levanta e pega o guardanapo que o marido segura.

– Eddy, você não pode ser tão possessivo. Ninguém pode controlar tudo sozinho, seria enlouquecedor.

– É por isso que tenho minha família.

– Nem a sua família pode controlar tudo. Achar que algo te pertence só torna mais doloroso o momento em que o perde. Apenas aceite que as coisas são livres e independentes… – Arisa solta o guardanapo perto da janela e deixa-o voar para fora.”

E enfim vamos para o capítulo derradeiro. Fomos apresentados aos assassinos profissionais que são descritos como infalíveis, mas o que mais fazem é errar, pois não conseguem matar uma pessoa sequer, além de surgirem na história sem construção alguma. A solução seria usar o tal personagem que criou uma relação com Arisa, pois este seria um membro da família já apresentado ao mesmo tempo que geraria um conflito mais interessante por haver uma relação com os personagens principais.

Este último capítulo é muito bem escrito, com boas viradas no plot e conflitos fortes. Na cena final, porém, as mudanças já propostas aqui se encontram e se chocam.

O atirador seria como Eddy, alguém que obedece a família ignorando seus sentimentos, tornando mais forte e libertador o momento em que Eddy protege sua amada matando um membro da família, sem a necessidade do diálogo óbvio e expositivo que há originalmente sobre a traição.

“O atirador sai de seu esconderijo, nervoso.

– Me desculpe, Senhora Arisa. Sou apenas um homem seguindo ordens. – Ele treme diante da moça caída.

Eddy está entre sua esposa e o outro Albani. Ele observa a situação por poucos segundos e dispara. O antigo segurança de Arisa cai. Eddy solta sua arma e deixa-a no chão.”

Acabaria assim o ciclo do ódio, com Eddy representando tudo que o mangá trata. A família ou o país, nada disso define uma pessoa ou as relações das pessoas. Guerras e mortes surgem desse ódio estabelecido pelo preconceito ou pela aceitação de padrões antigos impostos por pessoas que foram corrompidas por esta raiva ilógica e inexplicável. Não importa o que lhe é determinado, nem os conceitos ordinários do nosso mundo, mas o que você sente pelas pessoas. E é esse sentimento natural e espontâneo que deve ser internalizado, pois uma linda melodia pode vir de qualquer lugar, não importam fronteiras ou origens. É a mensagem brega e bela de Osamu Tezuka.

Uma resposta para “Consertando: Tetsu no Senritsu

  1. Que legal.!!! Fico imaginando como vocês consertariam “Metropolis” (embora tenha já o filme que fez isto) e Kimba (que tem uma boa ideia, mas é recheada de momentos horríveis).

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