Semicírculo – Arlong Park

Arlong Park é o último grande arco de One Piece antes do capítulo 100 e da entrada na Grand Line. Aqui analisarei o arco todo e, portanto, terão spoilers até o capítulo 96.

Esta fase é muito bem escrita, com um roteiro coeso, bom ritmo e traz uma parte muito importante para a história de One Piece e para os personagens. Estes, aliás, se mostram um grande atrativo do arco, tanto os recorrentes quanto os novos, formando uma galeria interessante de se conhecer e acompanhar.

Coadjuvantes

Desde o começo é bastante óbvio que a protagonista do arco é Nami, a ladra que roubou o barco de Luffy e companhia após passar algum tempo com eles, ainda durante o arco da entrada de Sanji no bando. Desde o momento que ela veleja para longe dos amigos com o barco já nos é mostrado lágrimas em seu rosto que expõem os conflitos da moça, além de deixar o leitor interessado para acompanhar o desenrolar de seu história. Mas existem outros personagens notáveis durante o arco.

O primeiro personagem novo apresentado é aquele que dá nome ao arco: Arlong. Mesmo sendo o grande vilão, é visível que como personagem ele não é tão interessante. Ele possui pouquíssimas variações ou camadas, é apenas malvado, arrogante, preconceituoso e muito forte. Tudo faz sentido no personagem, até seu discurso racista, mas isso nunca é explorado de fato e acaba tornando o personagem raso e repetitivo, apenas um animal agressivo e incontrolável. Seus companheiros são igualmente rasos e até desinteressantes, exceto Hachi que demonstra uma personalidade mais divertida e que gerava boas piadas, além de não ser um cara tão mau.

Arlong e seus comparsas aterrorizavam a vila Kokoyashi, representada basicamente por Gen, o policial. Ele é um personagem que cumpre suas funções na narrativa sem deixar de ser interessante. Sua dor por ser um oficial e não poder proteger a vila é palpável, sempre querendo lutar, ajudar de alguma forma e sentindo-se impotente diante das batalhas que ele simplesmente não podia vencer. Sua primeira cena exemplifica perfeitamente a situação da vila, a diferença de forças entre eles e os homens-peixe e o estado de dominação instaurado. Este estado, porém, é quebrado pelos heróis que chegam para libertar a vila, começando por Usopp que, na mesma cena, salva a vida de Gen.

Usopp, aliás, é um personagem importante neste arco. É nele que trava sua primeira batalha depois de entrar para o bando. Um morador da vila define bem o heroísmo dele, dizendo “Às vezes é valente, às vezes é covarde”. Depois de salvar uma vida e ser quase morto por homens-peixes, ele decide fugir e fingir-se de morto, mas lembra da coragem de seus amigos e vence um adversário muito forte usando a inteligência e truques inventivos.

A última personagem notável no arco antes da Nami é a sua irmã, Nojiko. Ela é uma personagem muito madura e inteligente desde o começo, mostrada como um porto seguro para Nami. Ela entende que precisa ser passiva quanto a situação da vila e tenta evitar mexer com os homens-peixes ou ter esperanças na subjugação deles. Porém, quando Luffy e seu bando começam sua batalha contra o bando de Arlong, ela diz que finalmente ganhou esperanças na vitória. Isso poderia ser simplesmente uma frase de efeito, mas ela mostrou estar disposta a se sacrificar por Luffy e pela revolta da vila, provando que sua esperança não era da boca pra fora.

A gama de personagens do arco é satisfatória, mas quem recebe mais desenvolvimento e pode mostrar mais seus conflitos, motivações e objetivos é a pirata ruiva.

Nami

É fácil identificar Nami como uma personagem humana, pois tudo nela é verossímil e até identificável, já que não é simplesmente uma pessoa boa ou uma pessoa ruim. Logo que chega no Arlong Park, ela é confrontada por um garoto que reflete o seu passado. O pai do garoto foi morto pelos homens-peixe e ele quer vingança. Nami bate no garoto, como uma vilã, mas depois dá dinheiro para ele, algo que ela vê como a coisa mais importante do mundo. Aí já é possível perceber uma dualidade nos pensamentos da moça. Logo depois, somos jogados na festa dos vilões onde ela entra sorrindo, familiarizada com o ambiente, exibindo sua tatuagem como um enfeite, e não como a cicatriz que é.

Até aqui, para o leitor, é difícil decidir o que sentir pela personagem. Mas logo é mostrado que ela possui muito mais coisas boas do que ruins dentro de si. Ela não mata seus recém-adquiridos amigos, mesmo que precise enganar seus comparsas, e nunca deixa de se importar com sua vila. Conforme as revelações vão sendo apresentadas, entendemos melhor as motivações para as ações moral e legalmente questionáveis. Uma menina pobre que nunca pôde comprar o que eu queria e se acostumou a roubar para ter, uma vítima dos verdadeiros vilões, até seu modo aproveitador de resolver as coisas foi uma herança de sua mãe. O psicológico da menina é formado por toda a sua história pessoal e resulta na Nami que conhecemos mais profundamente neste arco. Suas cicatrizes são profundas e não serão esquecidas facilmente.

A facada que ela finge dar em Usopp define muito seu modo de lidar com a situação da vila. Enquanto tenta parecer forte e perigosa, ela sangra pelos outros. As pessoas da vila tentam não pressioná-la, mas a consequência é deixá-la mais solitária. A pressão está lá da mesma forma e causa problemas sérios para a personagem, coisas até pesados para uma série shonen, como destruir a própria casa em acessos de raiva, tentar assassinar constantemente seu capataz, sofrer com trabalho escravo e até desenvolver uma Síndrome de Estocolmo. Ela possui uma forte confiança em Arlong, chegando a elogiar o pirata pela honra e comprometimento com sua palavra.

Nami era uma criança quando perdeu sua mãe e, com um vácuo sentimental, Arlong basicamente tomou o lugar de Bellemere e criou a garota, mesmo que da pior maneira possível. Se por um lado Bellemere dá um ótimo exemplo de boa mãe, sacrificando-se pelas filhas, tentando honrar o compromisso que assumiu, mesmo sendo desacreditada pelos mais velhos da vila, pelo outro, Arlong serve como contraexemplo, sendo um péssimo tutor, explorando, agredindo e direcionando a menina apenas para caminhos imorais, interessantes apenas para ele mesmo. No fim, Nami entende que Arlong não é alguém que merece confiança e quem são seus verdadeiros amigos. Sobre suas cicatrizes, ela deixa a marca de sua verdadeira família.

Porém, o que mais me agradou no arco não foram os personagens. Antes de tudo, este é um arco muito bem escrito. Oda consegue deixar as situações extremamente orgânicas, relacioná-las, reutilizá-las e deixar tudo bastante crível e coeso enquanto desenvolve os personagens e constrói o mundo de One Piece.

Roteiro

Um conceito importante e básico ao fazer um roteiro é saber apresentar de forma clara e sutil os elementos que serão utilizados no futuro da história. Isso pode ficar muito artificial se parecer uma apresentação leviana colocada durante a história apenas para não caracterizar um deus ex-machina quando for vital para o enredo depois. O jarro-transporte de Hachi foi um elemento apresentado no começo do arco, junto com o Capitão Nezumi e o próprio Arlong Park. Todos os elementos estavam ali apresentados de maneira interessante, mostrando um capitão corrupto da Marinha e sua relação com os homens-peixes, o modo de agir do bando do Arlong e um pouco das personalidades daqueles personagens. O jarro, por exemplo, está organicamente na cena de apresentação e é reutilizado depois para levar Zoro de volta para a vila e a situação, um pouco estranha, se torna bastante aceitável, já que a personalidade do homem-polvo e o veículo já eram elementos processados pelo leitor.

O flashback da Nami também é outro ponto da história muito bem escrito. Nami briga com Bellemere e foge de casa. A reação da mãe adotiva é fazer uma boa comida para se reconciliar com a filha. Porém, é exatamente a fumaça de Bellemere cozinhando que chama a atenção dos piratas de Arlong para casa, causando toda a situação que leva à morte da mulher. Ação, reação e reutilização. Esse é um ótimo caminho para se tomar com um roteiro, principalmente quando isso é feito de maneira simples e coesa. O roteiro de Oda não é perfeito, porém.

Algo bastante discutível quando se fala de roteiro são as coincidências. Neste arco, a maior delas é o encontro de todos os membros do bando de Luffy, com o barco voando e caindo exatamente onde Zoro estava. Neste caso a situação é mais cômica, o que poderia validar a conveniência, já que camufla a casualidade e não tiraria tanto o leitor da imersão na leitura.

Outra coincidência, aliás, é o número de generais no bando do Arlong, exatamente igualado com os membros do bando do Luffy. Mas isso não se torna um problema, pois as batalhas não ficam burocráticas ou lineares demais, uma interfere na outra criando um combate mais interessante e orgânico.

Todo o combate final do arco é natural e eficiente pelos elementos preestabelecidos e reutilizados, algumas vezes mais forçadamente que outras. A piscina, a estrutura do prédio, a sala de trabalho da Nami e até os companheiros caídos do Arlong são usados. Assim como a maioria das coisas no arco, tudo tem uma utilidade narrativa, temática ou dramática.

Um elemento que pode ser citado como mal utilizado é a água. Os personagens humanos praticamente conversam debaixo d’água, com pensamentos expositivos e desnecessários. Oda perdeu a chance de mostrar sua habilidade como quadrinista e expor todas as ações apenas com o visual.

Mas, ao final do arco, é notável que tudo foi muito bem planejado, quase todos os elementos são vitais para o desenvolvimento da trama e dos personagens. O Capitão Nezumi que foi apresentado no começo, voltou com um papel significativo no meio do arco e exerceu uma função muito importante para o grande plot de One Piece após a resolução dos conflitos no Arlong Park. Yosaku e Jhonny também foram personagens importantes até o fim, mostrando que a história mudaria muito sem eles, assim como quase todos ali, o que é importantíssimo para uma boa história.

Até mesmo detalhes visuais que pareciam apenas enfeite como as tatuagens de Nojiko ou o catavento no chapéu do oficial Gen se mostraram relevantes de alguma forma. One Piece possui um universo cheio de exageros e absurdos, mas é ótimo ler um arco onde tudo possui uma necessidade, seja narrativa ou temática. Oda geralmente sabe o que está fazendo e roteiriza bem seu mangá, tanto no plot geral quanto nos arcos isolados.

Após este ótimo momento do mangá, nossos heróis vão para aventuras maiores e mais perigosas, podendo nos fazer esquecer deste ótimos arco. Eles salvaram o East Blue, venceram inimigos muito fortes, criaram problemas com a Marinha e, no processo, viveram o melhor arco de One Piece até aquele momento.

5 Respostas para “Semicírculo – Arlong Park

  1. Ótimo post, no aguardo pelo próximos do tipo e pelos próximos por você. Realmente Arlong Park é um ótimo arco que acaba sendo “esquecido” quando se costuma falar dos grandes arcos de OP, mesmo ele sendo de vital importância pro mangá (tanto pra desenvolvimento dos personagens e tals quanto pra cativa o leitor, pois tenho a impressão que foi nessa saga que OP conquistou de vez os leitores. ).

    • Obrigado.

      Concordo plenamente, acredito que esse arco pega muito do espírito de One Piece e quem gostar dele vai querer ler o mangá até o fim.

  2. Arco do Arlong S2 S2 S2 ❤ ❤ ❤ ❤

    Nunca pensei que veria um post de One Piece por aqui, uma surpresa muitíssimo agradável (afinal, amo OP do fundo do meu kokoro).

    Gosto muito desse arco, tem alguns dos momentos mais inesquecíveis de One Piece pra mim, como fã da série.

  3. Parabéns pelo post. Sem dúvida o Arlong Park é uma das melhores arcos da série e talvez o meu favorito. Apesar do arco do Kuro ser muito bom e termos um ótimo desenvolvimento do Usopp e os demais arcos até então são só ok, em Arlong Park tudo é muito bem construído para dar a sensação de clímax da série até ali, sem dúvida esse é o primeiro momento que você entende por que One Pice foi um shonen acima da média.
    E ainda ele criou a expectativa alimentada por anos e por sagas de como seria a Ilha dos tritões (mesmo q o “fraco” o Arlong acaba sendo o tritão mais foda da série, comparado ao que vem depois).
    E tem duas cenas que definem bem o que é a série e acontecem nessa saga. O Luffy confiando o chapéu para a Nami, que dita o que o drama na obra e durante a luta com o Arlong, quando o Luffy pega os dentes do Arlong e coloca na boca, uma cena clássica de o que é o humor em One Piece.

  4. Arlong Park para mim definiu tudo que One Piece seria dali para frente, épico e detalhado, sempre que recomendo a obra falo “se você ler até Arlong Park e não gostar pode largar mão.”

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