Primavera de 2014: Baby Steps

BabyStepsThumbChegou aquela época do ano onde o que mais se fala no mundo manganimístico é sobre os animes da próxima temporada. A cada estação do ano, uma nova leva de animações são lançadas no Japão, e os blogs e sites sempre se preparam arduamente para essa estreia, seja fazendo guias ou posts de apostas.

Tradicionalmente, este blog faz um post que aproveita a onda de atenção que algumas obras recebem nessa época para apresentar a mídia original de algum desses próximos animes. Portanto, aqui temos o primeiro (e espero que não o último) post de um mangá que terá uma animação estreando na temporada de Primavera de 2014: o shonen de tênis Baby Steps.


(Clique nas imagens se quiser ampliá-las)

No post sobre Daiya no Ace de algumas temporadas atrás, eu citei a ocasião que fez eu começar a ler vários mangás da Shonen Magazine. Além do já citado Daiya no Ace, dentre os outros eu descobriria outra ótima pérola dos shonens de esporte atuais.

Baby Steps, mangá de Hikaru Kachiki, iniciado em 2007 na citada Shonen Magazine, acompanha Maruo Eiichirou (chamado carinhosamente de Ei-chan pela maioria dos personagens), um ótimo estudante no colégio, super aplicado e dedicado, que um dia decide precisar se exercitar mais. Sua mãe lhe entrega um folheto do clube de tênis do bairro e ele decide dar uma chance para esse esporte que nunca teve interesse. E estamos aqui, quase 30 volumes depois, acompanhando essa longa jornada de Maruo no mundo do tênis.

Na época que comecei a acompanhar o mangá, até então não havia lido nenhum outro mangá de algum esporte completamente individual. Mangás como P2! – Let’s Play Ping Pong, Hikaru no Go, Yowamushi Pedal, Hanzasky e muitos outros acabam sendo na verdade esportes coletivos disputados individualmente; você majoritariamente compete defendendo uma equipe, e sua atuação individual acaba sendo voltada para um bem coletivo. Posteriormente acabei encontrando outros mangás com esse aspecto individualista, mas Baby Steps abriu esse caminho na minha mente.

Esta foi, sem dúvidas, uma experiência totalmente diferente. Ver uma história com personagens com pensamentos individualistas, com competições individuais, treinos individuais e sonhos individuais era algo novo pra mim. Por exemplo, não existem competições pelos clubes de colégio; Maruo compete por um clube independente de tênis do bairro, e mesmo os companheiros de clube são vistos como potenciais adversários.

Esse tipo de abordagem resulta em uma questão importante que o autor precisa lidar logo de cara para conseguir fazer o mangá funcionar: o personagem principal tem que ser agradável. Por ser de um tema tão individualista, o foco da leitura estará 90% do tempo direcionado para um único personagem, e se o leitor não se sentir minimamente convencido por ele, por suas características, sua personalidade e sua trajetória, o mangá será efetivamente uma bomba; a força do mangá é a força do seu personagem principal. E o autor merece apenas elogios por não só ter conseguido tornar o Maruo um bom protagonista, como também por fazê-lo de uma forma não ortodoxa.

Se eu pedir para você fechar o olho agora e pensar na personalidade dos protagonistas de shonen de esporte que você conhece, tenho certeza que conseguirá achar uma dúzia de personagens com um estilo bastante utilizada no gênero, o novato/inexperiente com um talento não lapidado. Slam Dunk, Eyeshield 21, todos os da lista que citei dois parágrafos atrás… até Kokou no Hito segue essa clássica fórmula, e temi que Baby Steps fosse seguir esse caminho. E eu não poderia estar mais enganado.

Maruo é um japonês tradicional, no sentido antiquado da palavra. Em contraste com seus companheiros de colégio (e com a juventude atual do Japão) lotados de sonhos e energia para desafiar as estruturas da sociedade, Maruo inicialmente é uma representação do pensamente japonês de que esforço e dedicação são recompensados pelo sucesso, e que tudo na vida precisa ser metódico e rotineiro. As anotações precisas e organizadas nos cadernos de Maruo são um espelho de seu pensamento “de velho”, algo que destoa tanto da realidade moderna que os próprios personagens do mangá fazem questão de salientar.

Porém, o que o autor fez foi pegar essa personalidade tão marcante e diferente do protagonistas e pensar “como isso se refletiria na sua relação com o esporte?”. Nesse processo gradual, vamos descobrindo (junto com o Maruo) o estilo de tênis que melhor se encaixa na sua personalidade, que apenas o Maruo que conhecemos no começo do mangá poderia ser capaz de chegar. E esse caminho é exatamente o que citei na frase anterior, gradual. Em Baby Steps não existe talento oculto ou atalho; com exceção dos olhos atentos de Maruo (algo abandonado rapidamente pelo mangá), o personagem não tem nada que o faça particularmente especial no esporte, que o torne diferente de quem o próprio leitor é. Ele é apenas alguém que se dedicou muito a uma atividade que gosta, algo que qualquer um de nós poderia muito bem fazer, e é por isso que conseguimos nos conectar com o protagonista.

Como todo mangá de esportes da Shonen Magazine, Baby Steps é lento (também, olha o nome do mangá), e vemos todas as etapas do processo de transformação de um personagem sem nenhuma preparação física para um jogador de nível nacional. Transformação essa que se estende por anos na obra, refletindo outra característica marcante dos mangás de esporte da revista: o realismo. A força de vontade de um personagem não o fará aguentar correr 2 horas durante um jogo; para isso é necessário uma transformação física com treinos específicos, algo que o autor faz questão de nos mostrar minuciosamente.

E são todos esses passos (desculpa o trocadilho) que fazem Baby Steps acertar em despertar senão nossa simpatia, ao menos nosso interesse na trajetória do esforçado e improvável herói Maruo. E a importância dessa conexão com o leitor é tão grande que eu tive obrigatoriamente que dedicar tantos parágrafos só para expor esse ponto.

Como é de se esperar, um autor que consegue construir tão bem um protagonista também é capaz de fazer outros personagens tão bons quanto (embora, claro, com menos tempo para desenvolvimento). O mangá consegue construir gradativamente um extenso elenco de personalidades e estilos de jogo bem distintos entre si, resultando em partidas empolgantes que são sempre empolgantes e imprevisíveis. O tênis é um esporte que por sua natureza acaba sendo um grande duelo entre as personalidades dos jogadores, e a atenção especial que o autor dá a como cada jogador encara a partida é não apenas fundamental como um dos pontos altos da série.

As partidas acabam tomando um grande tempo do mangá, principalmente porque as partidas de tênis são demoradas mesmo, porém a característica “episódica” da mecânica do jogo (disputa-se ponto a ponto separadamente) não deixa a leitura cansativa. Demonstrando um grande controle do pacing, o autor acelera ou estica a velocidade de cada “game”, fazendo com que os longuíssimos sets das partidas passem sem jamais olharmos para o relógio (ou a contagem de capítulos). Esse controle, aliás, é uma característica essencial para qualquer mangá de esporte, mas ainda assim é sempre bom citar quando encontra-se algo bem feito.

No aspecto visual, de uma forma geral a arte de Baby Steps é competente. Embora o design de personagens possa parecer estranho inicialmente (sério, aquele cabelo do Ei-chan jamais fez sentido), é questão de tempo para nos adaptarmos a esse estilo e logo vermos que a dedicação do autor em deixar bem claro o que cada jogada representa é única. A dinâmica, a movimentação dos personagens, qual movimento foi executado… tudo é feito de forma tão fluida que você nem precisa entender exatamente como funciona o esporte para entender exatamente o que cada jogador fez no último game.

E embora flerte com alguns assuntos extra-quadra (um pequeno plot romântico aqui, um slice of life ali), é importante deixar claro que Baby Steps é um mangá sobre tênis, ponto. Ele não se propõe e nem faz nada além disso, e é honesto dessa forma. Aliás, esse provavelmente é o melhor adjetivo para o mangá: honesto. É essa honestidade que nos faz aceitar e acompanhar o Maruo e que nos mantém retornando nessa longa e lenta jornada do protagonista. Uma jornada a passos de bebê.

9 Respostas para “Primavera de 2014: Baby Steps

  1. muito bom! depois de daiya no ace fiquei animado pra ir atras de mais series de esporte da magazine.valeu pela dica

  2. O grande problema é que a burrice do Studio Pierrot vão fazer um anime de história original, e não seguirão o mangá.

  3. Pingback: Temporada de Primavera 2014 - Apostas | Gyabbo!·

  4. vi o primeiro episodio do anime e sinceramente não achei grande coisa,vou ver mais uns episodios pra ver se melhora

  5. Eu gostei tanto do primeiro episódio que já comecei a ler o manga. ^_^ Já vou no volume dois e tou a gostar muito.
    Reparei que na adaptação cortaram algumas coisas aqui e ali, sem muita importância, mas mesmo assim gostei mais do manga.

    Eu gostei muito, mas sou meio suspeito, pratico ténis. <,<

  6. Belo texto. Em termos do esporte abordado, Baby Steps é um dos mais técnicos nesse aspecto. Traduzo baby steps para português e sei da dificuldade que é explicitar de forma competente a mentalidade e minuciosidade das análises do Maruo.

    Sobre o anime. Essa fluidez e forma detalhada de mostrar como o jogo se desenrola no mangá será bem difícil de ser da mesma forma no anime. Ainda mais sendo o estúdio pierrot, o que desanima ainda mais.

    Então, para aqueles que até gostaram do primeiro episódio, recomendo ir para o mangá, até porque o anime vai ter a tal “parte original” e se a opening for indício de algo dessa parte original, então Maruo vai disputar wimbledon. O que está bem longe de acontecer no momento, juniores ou não.

  7. Saudações

    O primeiro episódio de Baby Steps foi bem interessante.

    E após ler este post, e tendo ainda uma opinião muito interessante do Hajimee sobre o mangá (via Twitter), começo a crer que a obra (animada) poderá trazer mesmo grandes surpresas positivas.

    Até mais!

  8. Vendo esse post fiquei curioso.

    Daiya no Ace tem alguma diferença entre o manga e o anime?

    Ví o primeiro episódio do anime e não curti muito o personagem principal. Tava pensando em ver de novo e ver se eu mudo de opinião.

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