Inverno de 2014: Nisekoi

Como já é costume aqui no blog, no início de cada temporada de animes do Japão fazemos um post sobre algum mangá que ganhará anime nesta temporada em questão. Esse post tenta aproveitar a atenção maior que a série está recebendo nessa época e tem por objetivo apresentar a mídia impressa original pra quem tiver interesse ou gostar da versão animada da obra.

Mas dessa vez farei diferente, pois será uma contra-recomendação. Para a primeira obra que falarei em uma temporada de inverno (curiosidade interessante de não ter nenhuma obra que achei válido comentar nos invernos dos últimos dois anos), falarei da série amada por alguns, mas odiada por mim, Nisekoi!


(Clique nas imagens se quiser ampliá-las)

Naoshi Komi foi outrora um autor amado pelos fãs da internet; primeiro por sua prematuramente cancelada série da Shonen Jump Double Arts e depois por sua infinidade de one-shots (histórias de capítulo único, normalmente feitas como tentativas de serialização) que atraíram a atenção e o coração de muitos leitores, principalmente pela qualidade e originalidade de suas obras. Dentre esses one-shots, vale citar como bons exemplos Williams e Island, que já comentamos em um Mangá².

Double Arts

Double Arts

No período entre seu cancelamento em Double Arts e seu retorno na atual série (período preenchido pelos citados one-shots), o público estava bastante esperançoso, torcendo para que algum dos seus melhores one-shots virassem logo uma série, e que fosse tão boa quanto foi Double Arts. Não quero entrar no mérito da qualidade dessa falecida série, que particularmente considero interessante porém bastante problemática, mas admito que também esperava o retorno do autor que, para minha decepção, ressurgiu com um mangá originado de um de seus one-shots mais sem-graça. Assim, em 2011 iniciava-se na Shonen Jump a serialização daquela que viria ser a obra de maior aceitação até então do autor, Nisekoi (em português, Falso Amor, um bom nome pra novela).

Com um enredo bastante modificado de sua versão one-shot, o mangá agora contava a história de Raku Ichijou, herdeiro de uma família da yakuza que, para criar e manter uma aliança entre sua família e uma gangue de mafiosos americanos, precisa fingir estar em um relacionamento sério com a herdeira do líder desses mafioso, Chitoge Kirisaki. Raku, mesmo a contra-gosto, precisa aceitar a tarefa enquanto trabalha para que sua verdadeira amada, Kosaki Onodera, não descubra/se importe com seu relacionamento fictício e continue com sua relação quase platônica regada a muitas coincidências e bastante não-caga-nem-sai-da-moita.

Outro “tempero” que o autor coloca nessa salada é a existência de uma garota de identidade desconhecida da infância de Raku, a qual ele precisou se separar mas prometeu amor eterno e futuro casamento na forma de um colar com uma chave que abre uma fechadura que ele possui em outro colar, fadando assim a menina a uma eterna castidade até eles possivelmente se encontrarem novamente no futuro e ele poder então de fato abrir seu fecho (do colar, no caso). Qualquer semelhança com Love Hina não parece ser mera coincidência.

Inicialmente, a existência da garota com o colar era um conceito que poderia sim expandir o enredo imaginado originalmente pelo autor no one-shot, não só acrescentando um mistério como também criando uma nova garota para disputar o coração de Raku. E admito que enquanto acompanhava o começo do mangá e vi o desfecho (ou quase isso) bastante rápido que o autor parecia dar para a questão dos colares, por uma semana acreditei que Naoshi Komi tinha corrigido seu maior problema como autor em Double Arts: o ritmo lento. Porém, mal sabia eu que ele estava apenas começando.

A impressão de uma melhora no ritmo do autor foi uma enganação momentânea que mascarou por pouco tempo o pior: o fato do ritmo ter ficado mais lento, piorado bastante e ser o atributo que mais afeta negativamente a história, jogando sua qualidade para níveis baixíssimos! Enquanto em Double Arts demoramos mais de 20 capítulos para ele justificar o nome do mangá, em Nisekoi temos a falsa impressão que a trama avança rapidamente pra uma solução quando na verdade o autor está apenas tirando o mistério inicial da jogada apenas para poder partir sem bagagem prévia para uma trama de vai-não-vai altamente repetitiva que está garantindo o fanservice (que não é necessariamente sexual, lembrem-se) do público que gosta da obra e, em consequência, garantindo também a longevidade da série.

Ainda hoje temos de fato dúvida quanto a resolução da trama da fechadura/chave, mas conforme avança a história, isso se torna mais e mais irrelevante. Hoje não fará diferença alguma sabermos quem é a garota que possui a chave que abre o cadeado de Ichijou; provavelmente essa informação só servirá para, no final da série, o autor forçar-nos a aceitar qualquer decisão que tomar (“ah, mas ela era a garota da promessa, então faz todo o sentido os dois ficarem juntos no final, independente de todo o resto”) ou para, caso o autor seja mais aventureiro e tente subverter a expectativa, fazer Raku ficar com a garota que NÃO era a escolhida. Seria mais interessante mas não salvaria o caminho cagado que tivemos até essa possível resolução.

O problema de ritmo do autor é perceptível quando vemos que a trama avança de um lado e estagna totalmente do outro. Enquanto a resolução da chave jamais avança pra valer (mesmo todos sabendo da existência da chave/fechadura, ninguém experimenta pra ver se funciona ou não), por outro lado a trama “avança” na inclusão de mais e mais personagens, apenas para aumentar o harém do protagonista. Para ajudar, qualquer personagem incluído dessa forma é normalmente tola, unidimensional, lotado de coincidências forçadas (a irmã de Onodera que o diga), com pouquíssimo desenvolvimento e relevância efetiva para a trama. Sério, ninguém que lê o mangá acha mesmo que a Marika tem alguma chance, não é?!

Aliás, desenvolvimento de personagem é um assunto interessante de abordar, porque já ouvi muita gente defendendo esse ritmo lentíssimo da história argumentando que, em teoria, o autor prefere se focar em “desenvolvimento de personagem“. Aceitaria isso se conseguisse localizar tal desenvolvimento. Tirando a Chitoge que possui uma pequena evolução desde o começo do mangá, o resto dos personagens são estáticos, jamais tomam alguma atitude para mudar seu status quo, jamais buscam crescimento, e jamais utilizam os conhecimentos prévios adquiridos em capítulos anteriores para qualquer coisa. O que vemos são apenas personagens que repetem as mesmas ações em situações diferentes, fazendo com que quase todas as tramas que o mangá apresenta sejam previsíveis em seu desfecho.

Tramas essas, aliás, que são bobas, com conflitos que seriam facilmente resolvidos com uma conversa honesta (que normalmente ocorre apenas no final do capítulo/arco, claro) e que jamais precisariam ter acontecido. Todos os conflitos que aparecem no mangá são irritantemente baseados apenas em duas situações: tentativa de manter as aparências, e mal entendidos. O que por si só não seria problema, se não ocorresse das aparências jamais serem de fato afetadas com qualquer acontecimento e todo mal entendido contradizer todo o conhecimento que os personagens deviam possuir sobre a personalidade de seus amigos. Aliás, a insistência do autor em fingir que nenhum personagem sabe que o outro está apaixonado por ele, mesmo já tendo dado um milhão de pistas em falas e situações diferentes, é algo que desafia qualquer leitor em continuar acompanhando o mangá sem sentir uma raiva tremenda de tudo e de todos.

Vale ressaltar que não há problema algum no fato do mangá ser episódico e focar-se em tramas leves e que não levam a lugar algum. Essa característica por si só não é problemática; inclusive é base de muitas outras histórias boas. O problema é que especificamente Nisekoi torna difícil aceitar que o enredo só cresça para o lado de “trás” (incluindo mais e mais personagens) e não cresça para a frente. É contraditório e é desagradável. E também não adianta argumentar que o mangá é de comédia e que isso é comum desse gênero, pois ele não é apenas voltado pra comédia, e portanto não pode usufruir dos privilégios desse gênero.

Acredito ser irrelevante abordar a arte do mangá neste ponto. Pode ser que Naoshi Komi desenhe personagens como ninguém, que todos os designs sejam bem feitos e sua composição de cenário seja impecável. Mas honestamente? Não me importa. Nisekoi consegue a proeza de ser tão prolixo e tão chato que não consigo me importar com mais nada. Ele serve apenas para existir um mangá na minha lista de leituras que eu odeie honestamente, e que me faça valorizar mais obras de comédia romântica que sejam de fato de qualidade. Porque Nisekoi não é.

Se você ainda não tiver lido o mangá e estiver pensando em ver o anime, posso te dar um conselho honesto de alguém que costuma evitar impedir pessoas de lerem/verem algo: você vai odiar. Ou vai amar porque adora fantasiar waifus. São só essas as opções.

11 Respostas para “Inverno de 2014: Nisekoi

  1. Juro que ouvi o locutor da Globo falando “Falso Amor”. Ótimo post. Parei nos primeiros capítulos de Nisekoi, mas por preguiça, mas conseguiu me passar o ódio. Se der vontade de ler comédia romântica, deve-se ler os poucos capítulos de Orange.

  2. Post excelente, conseguiu sintetizar bem a opinião que eu também tenho sobre Nisekoi. Nem sei porque ainda leio, talvez seja só pra ver onde tudo isso vai dar. O mais curioso disso é que teve uma época de Nisekoi que o mangá aloprava nos cliffhangers, dando a falsa ideia de que algo ia acontecer e de repente, isso parou, e aparentemente não teve muito impacto na TOC. Os japoneses simplesmente aceitaram que agora o mangá vai mostrar um personagem (com um problema aleatório) por capítulo e dane-se a “história principal” ?
    Enfim, nunca entenderei os japoneses.

    • Caralho, esses cliffhangers irritavam DEMAIS! Toda semana parecia que ia ter algo no capítulo seguinte e nunca saía das mesmisse! Pelo menos ele parou com essa mania escrota!

  3. Gostei, Estranho.
    Comecei a ler um tempo atrás, tava empolgado, mas de repente encheu o saco e larguei. Acho que foi por tudo isso que você comentou. Assino embaixo.

  4. Gostei desse post. Acompanho esse mangá desde o início (agora apenas pelo ódio, e apenas em português), e comecei a ler por causa de Island que tinha uma arte e história bem melhor que Nisekoi. Tinha uma época que ficava na seca para ver Nisekoi, pois nos primeiros capítulos o mangá conseguia me divertir bem. Só que quando o mangá alcançou a linha de segurança de 25 capítulos e se assegurou na Shonen Jump, parece que o autor pensou: Ufa, não vai ser cancelado, então já posso jogar toda a premissa no lixo. Tudo sumiu, a comédia (para quem fala que isso é comédia romântica, Nisekoi já deixou de ter comédia há muito tempo) o Claude e as “máfias” como background, aquela situação em que os dois personagens se odiavam e tinham que fingir que namoravam, tudo para o Claude (stalker) e os outros membros das “máfias” não notassem a verdade (algo que de início era bem engraçado) tudo isso foi para o saco.

    Atualmente, a Chitoge e o Raku nem se odeiam mais, a Tsugumi que era uma personagem empolgante perdeu totalmente a graça e mudou seu comportamento para ser uma mera membro do harém, além da Marika que é uma personagem inútil e as irmãs Onodera: a insossa Kisaki e a irmãzinha chata tsundere padrão Haru. E ninguém mais se importa com o mistério das chaves e do livro ilustrado da infância deles. Ah, e a arte do mangá é horrível, o mangá tem trocentos balões por páginas tornando assim uma leitura pesada mesmo sendo um capítulo curso semanal com direito até a balão corado (quando uma das personagens fica corada de vergonha e fala), não sei como o Estranho se esqueceu de comentar isso.

    Assim, todos os capítulos do mangá se resumiram em um harém clichê com um personagem babaca (e com sério problema de amnésia) e várias garotas no pé dele, fazendo vários capítulos só com situações aleatórias para deixarem as personagens coradas de vergonha (pelo menos não tem ecchi). A melhor personagem até agora foi a mãe da Chitoge e ela apareceu em apenas alguns capítulos.

    Tinha visto um tempo atrás aqui ( http://shonenmania.wordpress.com/2013/03/24/trajetoria-naoshi-komi-antes-de-nisekoi/ ) que o cancelamento de Double Arts foi bem traumático para o autor, pois ele planejava essa história desde a adolescência. Por isso o autor faz a história só para fazer waifus e enrolação desnecessária para conseguir se manter na revista invés de tentar ousar. Para quem viu o one-shot, muita gente ficou na expectativa do mangá virar Reborn, por causa dos olhos de fogo do Raku no one-shot.

    Lançaram até um aplicativo (com o link aqui: http://youtu.be/BmtjT1hlbyk) que você pode exibir qualquer personagem feminina do mangá e colocar várias roupas disponíveis no aplicativo.

    Mas como o anime será feito pela SHAFT com o Akiyuki Shinbo como diretor, talvez dê uma olhada para fazer um post. Eu recomendo Bonnouji (fofo) e Yanki-kun to Megane-chan (engraçado) como comédias românticas de boa qualidade. E para mim, o único personagem que conheco que tem harém e faz por merecer é o Murakami de Brynhildr.

    • LOL, essa dos olhos do Raku nunca tinha ouvido falar! Que viagem!

      E nem sabia que tinha sido tão traumático assim pro autor o cancelamento de Double Arts. Mas, bem, a culpa foi dele. O mangá começou bem e ganhou até capa, aí ele deve ter pensado que tava seguro o suficiente pra enrolar e enrolou por 10 capítulos até morrer.

  5. sinceramente nem o propio autor deve saber a resolução do misterio das chaves ,provavelmente no final do mangá ele vai fazer uma enqute”qual garota deveria terminar com o haru” e a que tiver mais votos ele deixa como sendo a garota da promessa
    eu parei de ler o mangá quando começaram com os capitulos episodicos que não acrescentavam nada a historia , nem to sabendo desse negocio da irmã da onodera(nem sabia que ela tinha irmã)mesmo assim vou dar uma olhada no anime vai que por milagre o diretor consiga fazer algo pra melhorar a historia

  6. o anime vai pegar a melhor parte do manga o inicio então vou dar uma olhada,nunca li Double Arts mais olvi falar de seu cancelamento q muitos acham q foi injusto ele realmente erolava tanto em Double Arts quanto enrola em Nisekoi?

  7. Eu pelo menos droppei, tenho pena de quem se esforça toda semana para continuar. Você e essas pessoas mereciam um prêmio XD

    Mas estava realmente dessa maneira quando parei e só ouço escutar que continua assim para pior, então um dos mangás mais bem dropados para mim. Espero só continuar com o simpático Gin no saji nessa temporada.

  8. Super concordo com você O manga começa super divertido e animado, alem de que a Chiose eh super cativante e divertida. Porém em algum momento a história se perde e fica repetitiva, chata e previsivel. Hoje em dia nem acompanho mais o maga.

  9. Parei de ler Nisekoi no momento em que a Chitoge passou a gostar do Ichijou, eu tinha aquela pequena esperança de que esse anime não fosse um harém.

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