Outono de 2013: Daiya no Ace

A Shonen Magazine é casa de ótimas séries de esporte, que infelizmente tem menos atenção do que qualquer série da Shonen Jump. O que é uma pena, pois há muita coisa de qualidade ali.

Neste segundo post da série de posts de mangás que estão ganhando anime na temporada de Outono de 2013, irei falar sobre um mangá de um esporte pouco adorado aqui no Brasil. Falarei do ótimo Daiya no Ace.


(Clique nas imagens se quiser ampliá-las)

Há alguns anos, um amigo meu me chamou pra fazer um debate público com ele e outros convidados em um Anime Friends. O assunto eram antologias japonesas e falaríamos das três maiores revistas shonen da época: Jump, Magazine e Sunday. Eu havia sido designado para falar um pouco da Shonen Magazine, e indo pesquisar mais informação eu percebi que não conhecia tantas obras atuais (na época) da revista, e, no sentimento de obrigação de conhecer mais antes de falar sobre, resolvi ler várias séries dela.

Foi nessa época que comecei um dos meus mangás preferidos, Ahiru no Sora; também foi quando conheci Gamaran, Code:Breaker, Baby Steps, Area no Kishi e, no meio disso tudo, Daiya no Ace. Hoje sou agradecido por ter sido convidado pra esse evento (valeu, Shido!), primeiramente porque a partir dele comecei a me interessar mais em me aprofundar em mangás, e também por conhecer várias ótimas séries da Shonen Magazine (que eventualmente viria a ser minha antologia shonen preferida). O mais bacana é que Daiya no Ace acabou me surpreendendo mais de uma vez, mas já chego lá.

Escrita e desenhada por Yuji Terajima, Daiya no Ace, ou Daiya no A, ou Diamond no Ace, ou Ace of Diamond (sim, chamam de todos esses nomes, nunca padronizaram isso por aqui) está em publicação desde 2006 e já se aproxima dos 40 volumes (sim, é muita coisa).

O mangá acompanha Sawamura Eijun, um pitcher (arremessador no baseball) de uma escola de interior. Uma olheira de um colégio com forte tradição em baseball, acompanhada do catcher (apanhador) astro do colégio em questão, acabam encontrando Eijun e reconhecendo seu grande potencial ainda não lapidado. Na ocasião, o convidam para tentar entrar no dito colégio, onde ele poderia usar melhor seu talento. Relutante de início, Eijun acaba aceitando o convite. Só não contava com uma coisa: com o fato dele não tem vaga garantida no time! Eijun precisará passar por testes para tentar entrar no time e, mais do que isso, depois conseguir subir da “second string” para o time principal. E essa jornada não será nem fácil e nem curta, pois existem muitas outras pessoas tentando também.

Daiya no Ace (é o nome que me acostumei e o que mais utilizarei) tem uma vantagem ótima logo na sua concepção: é uma série da Shonen Magazine. Como já discorri várias vezes neste blog, a Magazine tem uma política de cancelamentos menos drástica que a Shonen Jump e, assim sendo, um autor pode se focar muito mais em construções a longo prazo do que na concorrência. Essa característica permite que um mangá de esporte fique sem mostrar qualquer partida por vários e vários volumes; permite que um time gigante tenha, mesmo que levemente, grande parte de seus jogadores trabalhados; permite que o protagonista não entre automaticamente como titular, que fique grande parte dos primeiros volumes amargando no banco de reservas. E sim, estou falando também de Daiya no Ace neste parágrafo.

O conceito de termos um mangá de esporte no qual o personagem principal está tentando conseguir uma vaga em um time já bastante forte (o colégio Seidou já foi para o Koshien, a final do baseball colegial, diversas vezes) por si só é bastante inovadora. Talvez por questões de facilidade de narrativa, é mais comum qualquer mangá de esporte iniciar um time do zero, ou pegar um time fraco/em ascensão para trabalhar, principalmente porque assim é muito mais fácil colocar o protagonista como titular desde o início. DnA inova em trazer esse novo prisma que possibilita outros tipos de abordagens que não estamos acostumados, como o fato dos personagens verem jogo “de fora” ou o processo de seleção interna de jogadores, com diversos cortes no elenco.

Aliás, por trabalhar com um time de baseball (que por definição já é numeroso) e ainda mais um de elite, DnA precisa trabalhar (e consegue magistralmente) um grande elenco de personagens, e justificar porque o time no qual Eijun almeja entrar é considerado de elite. E assim, temos personagens interessantíssimos trabalhados dentro do próprio time, como o citado catcher Miyuki Kazuya; Satoru Furuya, o “rival” de Eijun, um calouro que chama a atenção de todos; Tanba, o atual pitcher “ace” do time; e Chris, um catcher secundário que tem um belo arco dramático desenvolvido no mangá. E esses são só poucos exemplos, mas tenha certeza que jamais o mangá esquece de seus personagens secundários; em um ponto ou outro eles terão sua presença justificada.

Alie todas essas características isso ao belíssimo character design de Terajima, que consegue conferir personalidade a todos os personagens em suas expressões e trejeitos, e temos um mangá de alta qualidade. A arte do autor, aliás, é belíssima para uma revista semanal, possuindo uma competente e excitante demonstração de movimentação durante as partidas e um traço bem firme e constante. Visualmente DnA é, no mínimo, agradável aos olhos de qualquer um.

Mas temos um aspecto que precisamos abordar: o baseball, por si só, é um esporte complicado para o público brasileiro; apresentado em um mangá então, nem se fala. O grande problema é que, tal qual o futebol é para o brasileiro, o baseball é uma paixão japonesa e está enraizada na sua cultura. Dessa forma, os conceitos mais básicos do esporte já são de conhecimento comum pa, e a maioria dos mangás de baseball podem se dar ao luxo de não explicar nada.

Isso acaba sendo um problema para nós daqui pois não estamos acostumados nem com as regras, nem com as estratégias comuns do esporte. Talvez o baseball seja a única contra-indicação do mangá. Porém, particularmente, acredito que obtendo um mínimo de conhecimento no esporte (o que cada posição faz e como se faz pontos, por exemplo) já é possível apreciar Daiya no Ace, uma vez que sua temática acaba excedendo o baseball em si e extrapola para um conceito diferenciado mais amplo de mangás de esporte em geral. Então uma rápida lida na wikipedia deve contornar esse porém.

Mas o baseball não faz só mal à série; duas características intrínsecas do esporte são demonstrações claras da capacidade de controle de narrativa do autor e ajudam a elevar a qualidade da obra como um tudo. A primeira delas é a já citada grande quantidade de jogadores em um time e a forma como o autor lida com eles, e a segunda são as dinâmicas das partidas.

Baseball é um esporte lento em que um jogo pode demorar mais de 3 horas facilmente, e é impossível mostrar momento a momento da partida para o leitor. O que Terajima faz com bastante elegência é um exercício constante de compressão e descompressão da passagem de tempo dentro da partida, nos levando rapidamente por momentos irrelevantes e trabalhando com minúcias os instantes mais cruciais da partida. Na teoria todo mangá de baseball (até mesmo de outros esportes, talvez) deveria ser assim, mas não sou um grande conhecedor dessa categoria, então não posso opinar pelas outras, mas ao menos Daiya no Ace consegue tornar uma partida de baseball assistível (e isso é um elogio!) e excitante.

Pra finalizar, vale citar que o mangá já foi premiado duas vezes, primeiramente pelo Shogakukan Manga Awards de 2008 na categoria shonen (um prêmio que veio de outra editora, veja só), e o Kodansha Manga Award 2010 também na mesma categoria (agora sim, sendo reconhecido pela “casa”). O mangá é reconhecidamente de qualidade e embora se foque 100% no aspecto do esporte, ainda assim é bem complexo, bem completo e bastante divertido. Daiya no Ace é um mangá bom que merecia ser mais conhecido, e espero que o anime faça isso pela obra.

9 Respostas para “Outono de 2013: Daiya no Ace

  1. Fala, Estranho! Parabéns pelo ótimo post.

    Como não é segredo pra ninguém, gosto muito de Daiya justamente por ser um mangá de Beisebol (esporte que pratico desde os 12 anos), então essa barreira não existe para mim.

    Como você disse, o autor consegue passar toda a “mágica” do esporte num traço limpo e bonito. Fico na torcida para que o anime consiga transmitir essa sensação e com isso, consiga popularizar um pouco do esporte fora do eixo Japão-EUA, principalmente aqui no Brasil, lugar em que o esporte tem crescido a cada ano.

    Enfim, para os companheiros que não tem contato com esse esporte, comecem por Daiya. Aposto que a experiência será satisfatória.

  2. Ótimo texto, Estranho !

    Daiya no Ace é um dos meus mangás favoritos de esporte, e só vim a conhece-lo graças aos casts do Mangatologia (obrigado !).
    Na minha mente, traço DnA (ficou ambíguo) e Ahiru no Sora como opostos em relação a arte, por assim dizer. O último traz uns contrastes interessantes na hora dos jogos e em contrapartida o primeiro mantem-se límpido, quase que constantemente. Cada um a sua maneira contribui ao ótimo ritmo dos jogos.

    Adoro o mangá e também espero que o animê ajude a divulgar um pouco mais a série aqui no ocidente.

  3. Eu sou a prova viva que não precisa entender quase nada de Baseball pra poder gostar desse manga

  4. minha ultima esperiencia com mangá de baseball foi com smokei B.B ,e foi uma grande decepeção mas acho que vou dar uma chanse pra esse mangá

  5. Pingback: Primavera de 2014: Baby Steps | AoQuadrado²·

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