Mangá² #41 – Intenção Autoral

Sejam novamente bem vindo ao episódio Bush do Mangá², o podcast mais entusiasta de todos os tempos.

Na Discussão Semanal deste episódio do Mangá², resolvemos atacar o tema da Intenção Autoral. Até que ponto a intenção e os objetivos do autor devem influenciar em nossas analises de obras? Esse tipo de interação autor/leitor é manifestada de alguma forma diferente nos mangás? Um mangá com o objetivo de ser ruim, é bom? Essas e muitas outras perguntas serão e não serão respondidas neste, mais do que nunca, filosófico e analítico programa.

Além disso, a recomendação da semana apresentou um mangá que é considerado por muitos um clássico-cult-terror dos mangás.

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Cronologia do episódio

(00:20) Discussão Semanal – Intenção Autoral

(25:11) Leitura de Emails

(41:30) Recomendação da Semana – Bradherley no Basha

Download (CLIQUE COM O BOTÃO DIREITO DO MOUSE E ESCOLHA A OPÇÃO “SALVAR DESTINO COMO…” OU “SALVAR LINK COMO…”)

33 Respostas para “Mangá² #41 – Intenção Autoral

  1. Duas coisa bacanas pra contribuir para a discussão:

    1. Arte tem muita – quase total – ligação com o tempo. Ou seja, mesmo que o autor tente mascarar completamente sua “marca”, há ali um diálogo com o agora. É fácil perceber isso quando lembramos que muita gente achava que o mundo acabaria depois da virada do século (e a chegada da internet também causou um certo pânico). Isso é refletido claramente em visões apocalípticas ou perturbadas em obras de arte. Nos mangás: Evangelion. Na música: Ok Computer/Kid A do Radiohead. No cinema: Matrix. Não há nada que evidencia mais a intenção do autor do que a sua inserção nos medos comuns.

    2. Vocês falaram que no cinema é fácil perceber as marcas, porque o que se coloca na tela geralmente possuí alguma semântica (ou seja, não está ali apenas para arrumar o plano, mas sim para dizer algo sobre o filme). Uma cadeira não é só uma cadeira. Isso é a base de toda a teoria autoral. E a gente pode encontrar isso por toda parte. O Judeu comentou esses dias lá no meu blog sobre os corpos femininos em Dorohedoro. Acho que isso é uma marca de autor, uma característica forçada (e as vezes irreal) dentro de uma obra, servindo para contribuir para o conceito dela como um todo.

    Muita gente reclama, inocentemente, de certas características de uma determinada obra só porque isso os incomoda. Uma reclamação famosa é a falta de maturidade de um protagonista. Acho que aí está a representação da intenção do autor. Acho que é a partir dela que temos que formular nossa crítica. Do contrário, estaremos criticando algo que não é inerente à obra.

    Daí que surgiu a ideia de co-autoria. Ou seja, o crítico como segundo autor. Praticamente tudo que se faz em crítica de cinema hoje. Você vê o que quer dentro de uma obra, você constrói a partir dos símbolos dados o significado que você quiser. E acho que isso é o interessante de mangás, filmes, livros e etc. Se tivéssemos uma verdade universal não tinha graça, haha.

  2. Eu sei que não tem nd a ver com o post, mas vcs sabem me dizer qual é a obra que trata-se da apresentação da vida de gêmeas siamesas, onde uma é denotada como realmente linda e a outra como o extremo oposto ?! Li isso a tempos e não lembro mesmo o nome. Se não me engano é um one-shot. Thnks !

  3. Bem vamos lá!!!

    Sim, podemos dizer que existe interpretações erradas de algo, um exemplo fácil é Dom Casmurro, você pode ter diversas interpretações, mas todas defendendo a inocência ou culpa da Capitu ou Bentinho, mas você não pode interpretar, sei lá que a Capitu era lésbica, pois você está saindo do contexto e forçando tudo para respaldar sua interpretação.

    Não vou lembrar o autor literário que falou isso, se foi em algum nerdcast sobre autores de livros, onde os autores falaram o que eles colocaram como easter egg, ninguém reparou e coisas que nem ele percebeu os fãs consideravam como deixas ou easter eggs.

    Em livro é muito mais fácil entender a intenção, mas no mangá é complicado, por exemplo, Bleach qual a intenção geral da obra?Não consigo ver, ou mesmo em Cavaleiros, além de vender figures, qual a intenção, puramente a mensagem de amizade?

    Aliás, Toriko chego hj nas bancas normais, um dia eu alcanço vocês!!!!

  4. Bem, ainda vou ouvir o poadcast mais algumas vezes e pensar muito sobre o assunto. Não vou chegar em conclusões tão cedo, mas queria comentar o que comentaram do meu comentário. Acho que não podemos apenas brincar com as estruturas narrativas, protagonistas e antagonistas, como podemos simplesmente ignorar as estruturas. Quando eu escrevo, por exemplo, me deparo com uma história que não possui protagonistas, não na minha interpretação, tangível ou não. O protagonista geralmente é o fio condutor da história, mas isso é vendo em uma análise com os padrões estabelecidos na mente do leitor. Por isso eu não gosto tanto dessas definições, me soam como estruturas criadas e que são seguidas de maneira padronizada demais. Um bom personagem é um bom personagem, não gosto de pensar se ele é um bom protagonista ou antagonista. Se eu quiser fazer um personagem que é fio condutor e denominar essa ferramenta como “Zé” e não “Protagonista”, acho que tudo bem. Acaba se tornando uma guerra de nomenclatura, se pensar assim, mas acho que é apenas o que essas coisas devem ser: Nomenclatura. Só queria dizer isso, que não é tão dentro do assunto dessa semana. Gostei muito do programa e me interesso muito pelo assunto, mandarei um email lo(n)go.

  5. Desculpa estranhow, mas vc falou merda sobre Shaman King.

    Tipo, na historia o Hao e o centro de tudo, e os outros personagens tentam de tudo para poder superalo e salvar o mundo antes que ele vire shaman king. So no final que tem aquilo de “Ha, ele e forte d+, vai perder na base do arrependimento” que foi o que o autor resolveu fazer para fechar a historia.

    Em momento algum (com exeção do final) usaram aquilo de “poder da amizade” (afinal ninguem era amigo dele).

    Fora isso…sim, o final e uma merdaaaaaaaaaaaaa. Mas ainda gosto do manga. Na minha cabeça coloquei que o final ficou assim so pq o Hao era forte d+ e não tinha saida kkkkkkkkkk apesar q no fundo acredito que foi sim uma falha do autor.

    • Discordo.
      Próximo dos últimos volumes, o autor claramente quantifica os poderes (coisa que odeio em obras) e deixa mais do que claro que nem unindo todos os personagens eles chegariam próximos dos poderes do Hao. Era inevitável que ele seria o Shaman King, e o que eles tinham que tentar fazer era convencê-lo a não fazer merda quando o fosse. Inclusive por que tem aquela analogia forçada do final original do mangá com uma princesa precisando de resgate; precisavam resgatar seu “coração” das trevas, pra impedir que ele fosse um Shaman King porra louca.

      • Sim, proximo do final deixa bem claro que o personagem e forte d+. Mas ele poderia muito bem ter escolhido outro caminho e feito os personagens vencerem se unindo, ou ganhando um boost de poder com algum treino. Provavelmente naquilo de superar a morte que todos passaram. Se o autor quisese poderia ate ter feito o grande espirito recusar o Hao…

        Mas no fim, pelomenos concordamos que o final foi e bem ruinzinho. Eu adoro o manga, ainda acho um dos melhores shounens da jump, mas poderiam fazer algo bem melhor.

        • Mas aí que está o problema porque depois dele apresentar o nível de poder, ficou claro que não tinha como MESMO. O Hao tem incontáveis vidas de poder acumulados, vencê-lo na força ia quebrar a lógica do mundo.

          E sim, o final original é ruim. Mas até que gostei do final do Kanzenban.

      • Será que eu fui a única pessoa que gostou daquela droga de final…? Pra mim Shaman King sempre foi um manga sobre os “meios”, e não sobre os “fins”, por isso aquilo não chegou a me chatear.

        Quanto a parte de derrotar Hao através da força, eu concordo com o estranhow, seria no minimo, estranho (!?). Provavelmente iria contra toda a logica do universo criada por Hiroyuki Takei. Até por que, em algum momento, algum personagem chega a comentar que mesmo que ele fosse derrotado, isso iria apenas adiar a vitoria dele pro próximo torneio, onde ele se tornaria ainda mais forte do que já era, e que por isso eles precisavam encontrar uma maneira de fazer ele mudar de opinião naquele momento.

        Mas quanto “aquela analogia forçada do final original do mangá com uma princesa precisando de resgate”, eu discordo do estranhow. Aqui a gente entra um pouco na discussão da Intenção Autoral, por que talvez nem tenha sido de caso pensado, pode ter sido só alguma coisa que o autor colocou de ultima hora. No entanto, na minha visão da obra, e acredito que o autor tenha deixado espaço pra isso, o Hao é mesmo uma princesinha mimada e teimosa, pois ele é tão ridiculamente forte, que poderia ter matado todos os shamans fora do torneio. Não teria historia se ele fizesse isso, mas ficou parecendo que todo o tempo ele só estava querendo que alguém desse algum motivo pra ele parar, ou o impedisse de alguma forma.

        Se não me engano, não foi exatamente perto do final que o autor colocou o Hao em um patamar totalmente diferente de força, e ele também já vinha “quantificando” o poder há algum tempo.

        De maneira que a analogia com a princesa, e o final com ele sendo convencido, fizeram sentido, pelo menos pra mim. Por isso quando o manga acabou sem fim, e depois mostraram que o Hao se tornou o Shaman King, e mesmo assim o mundo ainda continuo seguindo normalmente, eu pensei, “ah ta”. Não me pareceu uma coisa totalmente sem sentido.

        Ou pode ser só eu que tenha me auto sugestionado a pensar que um final daqueles não foi ruim…

  6. tema interesante,,pelo menos pra min a intenção do autor é algo importante pra comprender melhor o mangá um exemplo
    fairy tail ,odiado por muitos esse mangá por toda sua falha narrativa e protagonismo ecesivo e afins, mas tem uma entrevista do hiro mashima que diz o seguinte “meu objetivo como mangaka é fazer historias divertidas para meus leitores”
    isso me fez olhar fairy tail de uma maneira diferente ,e hoje consigo aproveitar a obra de uma maneira melhor

  7. Maioria das pessoas falam que o Oda quando desenhou a parte que o Shanks encara um rei dos mares, no inicio do manga, ele usou Haki. Muitos ”genealisão”(gênio) por achar que ele pensou no haki desde o primeiro volume. Mas com certeza absoluta que ele não tinha pensado em haki ainda, aquilo que o shanks fez foi simplesmente o ato de fazer cara feia para o monstro e ele se assustar. Só depois, no futuro, Oda inventou o Haki pra explicar várias coisa, inclusive essa parte do Shanks. Oda não teve intenção de fazer aquilo.

    • Olha discordo um pouco do seu ponto. Sou fã de OP, mas de uma forma imparcial, acho que ele pensou sim no Haki, não com o nome e tds os conceitos em mente, mas penso que o Oda já tinha em mente que talvez, ao decorrer da série acrescentar um up nos poderes da história, seria algo fundamental (o que não é nada incomum em battle shonens) e com base nisso, foi moldando determinados acontecimentos relevantes pra série (como o encontro com Rayleigh, que nos apresentou, mesmo que minimamente um pouco do mesmo). Penso sim, que o autor sabia da necessidade de algo como o haki, mas não o vejo como um gênio por isso. Não tenho uma base tão sólida para construir um argumento que seja totalmente válido, porque como comentaram em casts passados, não tem como saber o que o autor pensa exatamente, porém em alguns casos é possível deduzir aproximadamente o que ele tentou trazer (mesmo quase fugindo do assunto), isto é, de uma forma quase que totalmente pessoal, gosto de acreditar (e acho que foi) que tal poder foi pensado anteriormente a série .

      E Por favor gente, ignorem o final de Shaman King, tentem relevar apenas a versão do Kanzenban . XD

      • não acha que no arco de alabasta, quando o luffy foi lutar contra o Crocodile, em alguma parte do decorrer do arco deveria ter mencionado o haki?
        Tipo alguém perguntando se o luffy tinha haki suficiente pra batalhar com crocodile ou algo do tipo?
        Com esse arco, para mim ficou claro que o Oda não tinha pensado, ele foi pensar nisso depois desse arco, por que ele viu que não era toda logia que tinha uma fraqueza, tipo areia(crocodile) e água(barril de aguá que o luffy usou).
        Por que pela lógica, água é fraqueza do fogo, se o luffy tentasse socar o Ace com a mão molhada, logicamente não conseguiria rela-lo.
        Por que só depois de alabasta veio esse papo de Haki? pessoas usando haki e tudo.Antes de alabasta não teve nenhum personagem que demonstrasse o uso do haki.

      • falar que o oda planejou o haki desde o primeiro capitulo é coisa de fanboy,como o carinha citou acima se ja fosse pranejado pelo oda,isso seria citado na saga de alabasta

      • Entendo. Ele realmente não apresentou nada (mesmo) a respeito na saga. Mas como citei, acho que ele não tinha o conceito de haki pronto, de uma forma palpável, mas pelo menos a ideia de um futuro twist nos poderes(obviamente) ele possuía. Realmente, seria certeza o que eu disse, se ele tentasse demonstrar, nem que fosse da maneira mais escrachada possível, porém ele não fez. Sei que isso vai ser bem esquisito, mas (whatever)talvez ele tenha se empolgado tanto com o ritmo de determinadas sagas que acabou sem saber onde ou como utilizar o haki antes. Por que não?!. Ok, ok, sei que forcei BASTANTE a barra, mas tbm não deixa de ser um (inconcebível) ponto. Contudo, como eu disse, gosto de pensar dessa forma, (talvez seja, pq isso me dá vontade de pesquisar algumas teorias sobre mundo de OP, sei lá) mesmo sendo bem improvável. Existiam inúmeros battle shonens antes de OP, talvez ele tenha pensado em algo do gênero antes da série espelhando-se em mangakas mais conceituados na área, qm sabe ?! Sendo assim, ainda penso que ele sabia sim, da necessidade de algo alá haki pra aumentar a escala de força da história, só não tinha ideia de como conceber isso. Apesar de gostar bastante da série, ainda tento ser o mais neutro possível ao apresentar o que penso, só tô tentando encontrar uma linha de raciocínio um pouco (forçada, talvez) torta [?!]. 😀

  8. Eu acho que não há problema em dizer que a visão de alguém sobre alguma obra está “errada”. Vai tudo do bom senso do rapazinho que tá interpretando. Costumo dizer que se, em uma situação hipotética, algum negro tenta interpretar “rabiscos feitos a lápis num papel representando um porco na lama” como “um cavaleiro montado em um dragão sobrevoando um planalto escandinavo”, há algo de muito errado. Na semiótica costuma-se dizer que todo signo tem um interpretante imediato, isto é, um potencial de interpretabilidade, uma porção de significados que podem ser interpretados ali.

    Trecho do livro Semiótica Aplicada, da Lúcia Santaella, que eu acho que exemplifica muito bem o que eu estou querendo dizer:

    “Uma comédia no teatro ou cinema, por exemplo, não está apta a levar seus espectadores ao choro, pois há nela determinadas características que delineiam o perfil de sua interpretabilidade.”

    • Ah, e tenho que dizer que a recomendação da semana é ótima. Peguei Bradherley meio às cegas só por ser do Samura e no primeiro capítulo já veio o choque. Lindo, lindo, lindo. Mas não concordo em classificar como terror, não. É mais drama histórico (história fictícia, por motivos óbvios) do que qualquer outra coisa. Se bem que tem um feeling bem similar a alguns contos de terror por aí, então, é, talvez dê para classificar assim, afinal.

      P. S.: O Samura não faz só coisas macabrosas. Dos que eu li, Ohikkoshi era bem leve. Comédiazinha romântica e tal.

      P. S. 2: Deixar só uma recomendaçãozinha que acho válida: Há um artbook do Samura graficamente bem similar. Se chama Hitodenashi no Koi e, como o nome diz, tem como tema “as formas de amor ‘depravado'”. S&M, etc, etc. Ah, recomendação para quem eventualmente gostar de Bradherley, obviamente. Hitodenashi no Koi chega a ser ainda mais gráfico e perturbador.

  9. olha cara eu ate entendi seu ponto de vista,mas no minimo o crocodile podia ter dito algo do tipo “é inultil me atacar sem ter conhecimento sobre haki” ou algo do tipo ,mas em nenhum momento foi citado ,era como se as lgias fossem virtualmente invenciveis ,e a unica fraquesa era o elemento oposto, depois o oda percebeu a merda que ele fez ,e criou o haki pra poder derrotar as logias ,pra min essa é a espicação mais plausivel
    tipo seria a mesma coisa que dizer que o kishimoto planejou o senin modo desde o inicio

    • haha Exatamente. Se ele pelo menos tivesse soltado qualquer coisinha a respeito, seria certeza. Você disse : ” … a unica fraquesa era o elemento oposto, depois o oda percebeu a merda que ele fez ,e criou o haki pra poder derrotar as logias … ” . Olha, verdade, boa. Mas o que ainda me faz pensar é : Em que ponto posso concluir que isso foi SÓ pra tapar esse furo ?! Pra mim, pensar como um furo ou como uma “estratégia” dele tá no mesmo patamar, uma mais subjetiva que a outra. Sakas ?! Acredito que foi a forma que ele encontrou pra enfiar o haki entrar na história
      Mas de qualquer forma, o q vc disse é bem possível tbm.

  10. Ok, o bom daqui que o foco é a discussão, sendo aberto as argumentações, então na minha, a intenção do autor é, junto com o contexto, essencial, imprescindível para compreender a obra, e deste modo, a obra não tem valia alguma sem contexto e a intenção do autor.
    Esta coisa de ‘uma vez que a obra foi lançado ela não é mais do autor’ e portanto aberta a múltiplas interpretações é algo perigoso, que possibilita eu dizer que Bleach é uma obra de inúmeras interpretações sendo que estas inúmeras interpretações não existe, mesmo a cabeça do maior gênio da humanidade há um número limitado de idéias. Ou pior, dependendo da interpretação você pode enfiar palavras não ditas na boca de um autor. Por exemplo, eu possuo um fraco por mulheres fortes, afinal sou tímido, num conto meu criei uma militar, alta, loira, simples, depois, passei para uma amiga, no final ela chega achando que eu tinha tara por lésbicas, que a militar era lésbica etc. Agora imagine o quão ofendido eu me sentiria se eu tivesse lançado um manga com esta personagem e na manha seguinte encontrasse minha personagem deturpada numa fanfic. Ou como eu me sentiria se escrevesse uma obra com uma metáfora sobre o prazer de gostar de algo que ninguém gosta, como jiló, e visse saindo por ai que escrevi uma obra sobre o homossexualismo. Nota – sou muito a favor dos gays, mas não é um dos meus assuntos de escrita.
    Sou, muito a favor das fanfics, mas fico preocupado que há uma gama de escritores que tem a tara de deturpar a obra de seus amados escritores.
    Embora obras continuas, e aqui vou alem do manga, J.K. Rowling com o seu Harry Porter um abraço, possa haver influencia do público, quem bate no martelo e o escritor. Se o Oda quisesse ignorar a opinião do público ele pode, sim um escritor quer fazer algo na sua obra que talvez o grande público não goste, ou o contrario, ele pode fazer, pois a obra é dele, e não do leitor, se o leitor quiser dar pitaco ou inserir a simbologia que ele quer ou acha correto, que o leitor escreva.
    Embora seja difícil consultar o autor, e mesmo assim obter a verdade dele, é possível notar muita coisa pela bagagem histórica do autor, seja pela bibliografia, seja por obras anteriores, seja pelo modus operandi em obras posteriores.
    Por exemplo Orson Scott Carde é um mórmon e um ativista antigays, logo nunca teremos gays em obras como Jogo do Exterminador, por mais que eu queira fazer uma fic yaoi com o Ender.
    Você não terá, mesmo que busque, epifania religiosa vindo de um autor ateu.
    Sobre fazer a melhor obra ruim – PLan 9 from outerspace de Ed Wood é um filme conhecido exatamente por sido feito propositalmente ruim. Há também o muito odiado Dark Knight Strike Agains, continuação de do Dark Knight Returns, no qual o Miller fez, e deixa claro, de muita ma vontade por que os ‘galerinha’ ficava enchendo o saco do escritor pedindo continuação, e fica claro a intenção do autor pelas criticas inseridas na obra e outras coisas como a opiniao dele durante palestras. E claro, novamente, só podemos esperar o ruim de propósito de autores que já se provaram capazes ou que dominam pelo menos o básico, afinal, Picasso pinta pessoas quadradas por que quer, como fica evidenciado por ele saber desenhar hiperrealismo.

    Enfim, quando eu escrevo, é por que quero contar algo para alguém, algo vindo de min, e não algo vindo do leitor, imagina que todo artista que expressar algo, logo a intenção do autor é vital, o que ele quer expressar.
    Se o leitores que interpretarem o que vier na cabecinha deles, que eles parem de ler, e passem a escrever [e aqui incluo uma penca de estudantes/professores da Letras].

  11. Para quem seguiu a recomendação do Judeu e/ou queira entrar em contacto com a obra de Hiroaki Samura, a Dark Horse publicou recentemente Emerald and Other Stories (http://www.animenewsnetwork.com/review/hiroaki-samura-emerald-and-other-stories/gn), uma compilação de one-shots inéditos do autor – a scanlation de Emerald, em particular, um pseudo-western que dá o nome ao livro e que se constrói muito na base de um jogo de enganos e traições, circula por aí, e seria uma introdução mais “leve” ao trabalho do autor (não gosto particularmente desse tom perverso e sexual, que quando é levado ao extremo, francamente, me enoja – caso do tal artbook, que considero doentio e do qual nem me quero aproximar). Ou têm Ohikkoshi também, uma espécie de comédia romântica universitária (como se encontra out of print: http://www.mangatraders.com/manga/series/1920). Sobre Blade of the Immortal, já o li há muitos anos (foi logo uma das minhas primeiras mangas), mas do que me recordo os scans americanos são de qualidade. E o grupo já está mesmo a terminar a tradução, já que só falta um capítulo para o final, portanto terão logo a série inteira disponível para leitura. Fui colecionando a edição da Dark Horse (invertida e cara…) ao longo dos anos, e embora o gore e o sadismo se encontrem ligados ao estilo do autor, Blade modifica-se enormemente ao longo dos vinte anos que levou a ser escrito – a nível de estilo, então é só comparar uma imagem do primeiro volume com o mais recente e terão uma evolução tipo Berserk –, e se mantém um lado macabro (logo no vilão do primeiro volume – não dou spoiler –, ou no Shira, que não tem qualquer redenção possível…), isso é também sustentado com inteligência pela exploração de outros temas e no estudo de personagens, por isso poderão ficar com uma impressão errada do primeiro volume mas continuem a ler porque ela sofre grandes transformações. Fica a recomendação.

    Passando agora ao comentário do tema, como sou estudante de Literatura, lembrei-me imediatamente de Fernando Pessoa, sobre o qual tenho de escrever agora um ensaio. Ora Fernando Pessoa, como muitos saberão, desdobrou-se em mais de 70 heterónimos, que se diferenciam de um simples pseudónimo pelo seu estatuto de personagens-pessoas, entes “vivos” com uma biografia, estilo e filosofia própria que tinham uma existência ficcional que transbordava para o lado da realidade: Fernando Pessoa chegou a escrever, enquanto Álvaro de Campos, críticas a textos de Fernando Pessoa ele-próprio (o ortónimo) e a escrever cartas à namorada assinadas também pelo mesmo Álvaro de Campos. Se Pessoa sofria também de doença mental ou não (ele auto-diagnosticava-se como histero-neurastênico – http://arquivopessoa.net/textos/404 -, com sintomas de esquizofrenia: sentava-se à mesa e conversava com os heterónimos como se fossem pessoas reais, creio, não era apenas num sentido metafórico que ele usava a expressão), nunca aprofundámos verdadeiramente esse lado na nossa análise e discussões em aulas, mas o que dele ficou foi um génio literário absoluto: costuma dizer-se que foi não apenas um mas sim cinco génios (os principais heterónimos), e que é não apenas um autor mas uma Literatura inteira. Ainda hoje se discute a teoria da heteronímia (com um livro de um especialista recentemente publicado) no meio académico, e nunca poderá haver consenso, já que Pessoa, após a sua morte, deixou uma arca enorme com imensos manuscritos, vários dos quais ainda se encontram inéditos: o Livro do Desassossego, uma das suas obras maiores, só foi publicado cerca de cinquentas anos após a sua morte, sendo “escrito” pelo semi-heterónimo Bernardo Soares. Ora a publicação deste livro veio permitir a releitura da obra inteira de Pessoa: quem sabe se não teremos outras surpresas no futuro? E por vezes enganava-se a escrever o nome do “autor” de um texto e metia outro, revendo-o depois, às vezes anos mais tarde; e ficcionava sobre o próprio ato da escrita: há cartas a amigos em que diz que escreveu certo texto num determinado dia e que depois não batem certo com as datas dos manuscritos. E chega a escrever no nome de heterónimos que já havia “morto” – tendo determinado uma data para a morte delas na sua cabeça e na sua “biografia” –, ele que se considerava uma espécie de “médium de si mesmo”. Fará isto algum sentido ou será a ficção que por natureza se presta a estes jogos de espelhos? E onde está o leitor no meio de tudo isto? Como ler Pessoa, afinal – ele que está morto há quase cem anos mas que continua bem vivo na sua obra, que é de enorme importância para o Século XX?

    E depois também há autores, como António Lobo Antunes, que escrevem romances polifónicos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Polifonia_(lingu%C3%ADstica)), e que para além disso não gostam de aparecer em público, dar entrevistas ou discutir a sua obra – Lobo Antunes, como Cormac McCarthy, aparece ocasionalmente, ainda que contra a sua vontade e mais por imposições editoriais, mas há casos extremos, como os de Herberto Helder (que chegou a ameaçar cortar relações com amigos dele que prestassem depoimentos a uma estação de televisão, que preparava um documentário sobre a sua pessoa), J. D. Salinger ou Thomas Pynchon – ou Terence Malick, no cinema –, dos quais mal se encontra uma fotografia…

    Para quem se interesse por esta questão, ficam aqui dois poemas de Pessoa e uma intervenção de Rubem Fonseca sobre a loucura dos escritores:

    Todo autor é louco: http://www.youtube.com/watch?v=QqjLOOs8h5k
    Autopsicografia: http://www.tanto.com.br/fernandopessoa-autopsicografia.htm
    Tabacaria: http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/456.php

    E sobre as escolas de crítica literária que vocês comentaram (desconhecia a maior parte), o tipo de ensaísta, leitor e crítico de que gosto pessoalmente e particularmente é alguém como Eduardo Lourenço, que é um intelectual respeitadíssimo no meio (Prémio Camões, inclusive), e que escreveu, entre outros, vários livros sobre Pessoa: o que se nota no estilo de Eduardo Lourenço é uma incapacidade de o encaixar em qualquer escola de crítica, servindo-se antes da sua enorme erudição para escrever livremente e fazer ligações de vários géneros às questões que aborda nos seus livros (sobretudo filosóficas), sendo uma escrita densa e estimulante sem necessidade de usar o jargão académico (isto nos ensaios sobre Pessoa que li), e tornou-se para mim um modelo que tento aplicar nos comentários que faço sobre qualquer forma de Arte – manga incluída, evidentemente. A Literatura é importante para pensar sobre outros meios porque ela é a arte da linguagem, está intimamente ligada à forma como pensamos e nos exprimimos, e é inerente também à banda desenhada, que é essa espécie de protótipo de cinema ou romance, sempre oscilando entre um lado e outro.

    O que me leva ao ponto seguinte: a questão da tradução e do (pouco) conhecimento que temos sobre mangakas. Se o Inio Asano, por exemplo, revela que tem o desejo de mudar de sexo (http://www.animenewsnetwork.com/news/2013-01-19/solanin-creator-inio-asano-reveals-desire-for-sex-change), e se quisermos fazer um estudo de género sobre a sua obra, isso, duma perspectiva autoral, poderia agora levar a uma releitura profunda daquilo que ele/ela já escreveu. E se alguém já tiver feito algo do género, será a sua leitura agora “inválida”? Afinal, Solanin e boa parte de Oyasumi Punpun foram escritos enquanto por Asano enquanto homem (estão fixadas no tempo), e se não tivermos contato direto com o autor como saberemos o que ele pensa acerca do seu próprio corpo e da sua identidade sexual e de que forma isso o influencia na escrita? Como podemos inferir isso apenas a partir da obra se quisermos ir por esse lado?

    E a questão da tradução dá-se também num plano cultural, uma vez que, pelos meus conhecimentos praticamente inexistentes sobre japonês, sei que é uma língua bastante complexa, onde uma palavra pode ter imensos significados de acordo com a disposição dos caracteres, e tem também um impacto visual diferente do nosso estilo de escrita – o haiku é afinal a arte da disposição gráfica de palavras também, por exemplo. E já deste lado, que é complexo e sobre o qual não tenho capacidade para tecer grandes considerações, sendo leigo na matéria e querendo agora terminar o texto, podemos ainda pensar que as traduções que nos chegam dos scanlators são, afinal, feitas por entusiastas – não querendo sequer entrar na questão da pirataria, o trabalho de divulgação é sempre importante, e acredito que cada um o fará da forma que o entender e tentando aproveitar ao máximo as suas capacidades –, e que a sua qualidade varia muito de grupo para grupo: até que ponto o Oyasumi Punpun que lemos será verdadeiramente aquele que Inio Asano escreveu?

  12. Olá senhores amantes de mangás, mais um ótimo cast! Gostei do assunto e acho que ele rende boas discussões.

    Sim, acredito que é válido se levar em conta a intenção de um autor e seu contexto ao avaliar uma obra, porém acredito que atualmente, com o advento do pós-modernismos nos movimentos artísticos, obras abertas a uma maior interpretação e com alto teor de semiótica se tornaram em boa parte das vezes mais conceituadas. Lógico, você deve considerar o uso das referências e semiótico quando estes empregados de forma consciente e planejada, algo que acredito não acontecer em Bleach, onde Kubo simplesmente joga uma sopa de elementos aleatórios com múltiplos significados apenas para tentar dar um teor profundo a seu trabalho, o que demonstra um design pobre.

    Acredito que o contexto histórico, na maioria das vezes, é mais válido na hora de ser avaliado em obras do passado, pois essas se encontram em um período histórico diferentes do nosso, assim é possível não apenas avaliar como o período foi influente naquela obra, mas como a obra em si foi influente para as próximas que vieram. Isso acontece de forma que muitos trabalhos são considerados ruins em sua época, porém passam a ser muito importantes no decorrer do tempo pois influenciaram os seus sucessores.

    É isso galera, ótimo cast, continuem assim o

  13. Olá Judeu, Estranho, muito bom o podcast dessa semana.
    Caras, acho que intenção autoral, em relação a mangás pode ser dividida, de modo simples, em 2 vertentes: ser maneiro ou ser pensante.
    Ser maneiro seria, de modo simplista, os battle shonen da vida que tem um tema de fundo, com alguns personagens maneiros, golpes maneiros, frases de efeitos maneiras e uma mensagem BEM superficial de amizade, confiança ou algo do tipo.
    Ser pensante seria, de modo simplista também, nos moldes dos mangás seinen, com um tema muito óbvio(muito “besta”, simples) ou temas undergrounds(exemplo Kokou no Hito),com uma narrativa um pouco confusa ou muito simples, visando a reflexão do leitor, seja igual ao ponto de vista proposto pelo autor ou não.
    O autor de um mangá, creio eu, tem a intenção de ter um mangá maneiro ou um mangá pensante.
    Abraços

    ps: virou modinha agora falar mal de Bleach né? hehehe

  14. Para quem seguiu a recomendação do Judeu e/ou queira entrar em contacto com a obra de Hiroaki Samura, a Dark Horse publicou recentemente Emerald and Other Stories (http://www.animenewsnetwork.com/review/hiroaki-samura-emerald-and-other-stories/gn), uma compilação de one-shots inéditos do autor – Emerald, em particular, um pseudo-western que dá o nome ao livro e que se constrói muito na base de um jogo de enganos e traições, seria uma introdução mais “leve” ao trabalho do autor (não gosto particularmente desse tom perverso e sexual, que quando é levado ao extremo, francamente, me enoja – caso do tal artbook, que considero doentio e do qual nem me quero aproximar). Ou têm Ohikkoshi também, uma espécie de comédia romântica universitária.

    Sobre Blade of the Immortal, já o li há muitos anos (foi logo uma das minhas primeiras mangas), mas do que me recordo os scans americanos são de qualidade. E o grupo já está mesmo a terminar a tradução, já que só falta um capítulo para o final, portanto terão logo a série inteira disponível para leitura. Fui colecionando a edição da Dark Horse (invertida e cara…) ao longo dos anos, e embora o gore e o sadismo se encontrem ligados ao estilo do autor, Blade modifica-se enormemente ao longo dos vinte anos que levou a ser escrito – a nível de estilo, então é só comparar uma imagem do primeiro volume com o mais recente e terão uma evolução tipo Berserk –, e se mantém um lado macabro (logo no vilão do primeiro volume – não dou spoiler –, ou no Shira, que não tem qualquer redenção possível…), isso é também sustentado com inteligência pela exploração de outros temas e no estudo de personagens, por isso poderão ficar com uma impressão errada do primeiro volume mas continuem a ler porque ela sofre grandes transformações. Fica a recomendação.

    Passando agora ao comentário do tema, como sou estudante de Literatura, lembrei-me imediatamente de Fernando Pessoa, sobre o qual tenho de escrever agora um ensaio. Ora Fernando Pessoa, como muitos saberão, desdobrou-se em mais de 70 heterónimos, que se diferenciam de um simples pseudónimo pelo seu estatuto de personagens-pessoas, entes “vivos” com uma biografia, estilo e filosofia própria que tinham uma existência ficcional que transbordava para o lado da realidade: Fernando Pessoa chegou a escrever, enquanto Álvaro de Campos, críticas a textos de Fernando Pessoa ele-próprio (o ortónimo) e a escrever cartas à namorada assinadas também pelo mesmo Álvaro de Campos. Se Pessoa sofria também de doença mental ou não (ele auto-diagnosticava-se como histero-neurastênico –http://arquivopessoa.net/textos/404 -, com sintomas de esquizofrenia: sentava-se à mesa e conversava com os heterónimos como se fossem pessoas reais, creio, não era apenas num sentido metafórico que ele usava a expressão), nunca aprofundámos verdadeiramente esse lado na nossa análise e discussões em aulas, mas o que dele ficou foi um génio literário absoluto: costuma dizer-se que foi não apenas um mas sim cinco génios (os principais heterónimos), e que é não apenas um autor mas uma Literatura inteira. Ainda hoje se discute a teoria da heteronímia (com um livro de um especialista recentemente publicado) no meio académico, e nunca poderá haver consenso, já que Pessoa, após a sua morte, deixou uma arca enorme com imensos manuscritos, vários dos quais ainda se encontram inéditos: o Livro do Desassossego, uma das suas obras maiores, só foi publicado cerca de cinquentas anos após a sua morte, sendo “escrito” pelo semi-heterónimo Bernardo Soares. Ora a publicação deste livro veio permitir a releitura da obra inteira de Pessoa: quem sabe se não teremos outras surpresas no futuro? E por vezes enganava-se a escrever o nome do “autor” de um texto e metia outro, revendo-o depois, às vezes anos mais tarde; e ficcionava sobre o próprio ato da escrita: há cartas a amigos em que diz que escreveu certo texto num determinado dia e que depois não batem certo com as datas dos manuscritos. E chega a escrever no nome de heterónimos que já havia “morto” – tendo determinado uma data para a morte delas na sua cabeça e na sua “biografia” –, ele que se considerava uma espécie de “médium de si mesmo”. Fará isto algum sentido ou será a ficção que por natureza se presta a estes jogos de espelhos? E onde está o leitor no meio de tudo isto? Como ler Pessoa, afinal – ele que está morto há quase cem anos mas que continua bem vivo na sua obra, que é de enorme importância para o Século XX?

    E depois também há autores, como António Lobo Antunes, que escrevem romances polifónicos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Polifonia_(lingu%C3%ADstica)), e que para além disso não gostam de aparecer em público, dar entrevistas ou discutir a sua obra – Lobo Antunes, como Cormac McCarthy, aparece ocasionalmente, ainda que contra a sua vontade e mais por imposições editoriais, mas há casos extremos, como os de Herberto Helder (que chegou a ameaçar cortar relações com amigos dele que prestassem depoimentos a uma estação de televisão, que preparava um documentário sobre a sua pessoa), J. D. Salinger ou Thomas Pynchon – ou Terence Malick, no cinema –, dos quais mal se encontra uma fotografia…

    Para quem se interesse por esta questão, ficam aqui dois poemas de Pessoa e uma intervenção de Rubem Fonseca sobre a loucura dos escritores:

    Todo autor é louco: http://www.youtube.com/watch?v=QqjLOOs8h5k
    Autopsicografia: http://www.tanto.com.br/fernandopessoa-autopsicografia.htm
    Tabacaria: http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/456.php

    E sobre as escolas de crítica literária que vocês comentaram (desconhecia a maior parte), o tipo de ensaísta, leitor e crítico de que gosto pessoalmente e particularmente é alguém como Eduardo Lourenço, que é um intelectual respeitadíssimo no meio (Prémio Camões, inclusive), e que escreveu, entre outros, vários livros sobre Pessoa: o que se nota no estilo de Eduardo Lourenço é uma incapacidade de o encaixar em qualquer escola de crítica, servindo-se antes da sua enorme erudição para escrever livremente e fazer ligações de vários géneros às questões que aborda nos seus livros (sobretudo filosóficas), sendo uma escrita densa e estimulante sem necessidade de usar o jargão académico (isto nos ensaios sobre Pessoa que li), e tornou-se para mim um modelo que tento aplicar nos comentários que faço sobre qualquer forma de Arte – manga incluída, evidentemente. A Literatura é importante para pensar sobre outros meios porque ela é a arte da linguagem, está intimamente ligada à forma como pensamos e nos exprimimos, e é inerente também à banda desenhada, que é essa espécie de protótipo de cinema ou romance, sempre oscilando entre um lado e outro.
    O que me leva ao ponto seguinte: a questão da tradução e do (pouco) conhecimento que temos sobre mangakas. Se o Inio Asano, por exemplo, revela que tem o desejo de mudar de sexo (http://www.animenewsnetwork.com/news/2013-01-19/solanin-creator-inio-asano-reveals-desire-for-sex-change), e se quisermos fazer um estudo de género sobre a sua obra, isso, duma perspectiva autoral, poderia agora levar a uma releitura profunda daquilo que ele/ela já escreveu. E se alguém já tiver feito algo do género, será a sua leitura agora “inválida”? Afinal, Solanin e boa parte de Oyasumi Punpun foram escritos por Asano enquanto homem (estão fixadas no tempo), e se não tivermos contato direto com o autor como saberemos o que ele pensa acerca do seu próprio corpo e da sua identidade sexual e de que forma isso o influencia na escrita? Como podemos inferir isso apenas a partir da obra se quisermos ir por esse lado?

    E a questão da tradução dá-se também num plano cultural, uma vez que, pelos meus conhecimentos praticamente inexistentes sobre japonês, sei que é uma língua bastante complexa, onde uma palavra pode ter imensos significados de acordo com a disposição dos caracteres, e tem também um impacto visual diferente do nosso estilo de escrita – o haiku é afinal a arte da disposição gráfica de palavras também, por exemplo. E já deste lado, que é complexo e sobre o qual não tenho capacidade para tecer grandes considerações, sendo leigo na matéria e querendo agora terminar o texto, podemos ainda pensar que as traduções que nos chegam dos scanlators são, afinal, feitas por entusiastas – não querendo sequer entrar na questão da pirataria, o trabalho de divulgação é sempre importante, e acredito que cada um o fará da forma que o entender e tentando aproveitar ao máximo as suas capacidades –, e que a sua qualidade varia muito de grupo para grupo: até que ponto o Oyasumi Punpun que lemos será verdadeiramente aquele que Inio Asano escreveu?

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