Primavera de 2013: Shingeki No Kyojin

Neste segundo e último post relativo às estreias de anime da temporada de Primavera de 2013, iremos tratar da já famosa série Shingeki no Kyojin.

O objetivo original desta série de posts de temporada é apresentar pra quem não conhece (e discutir sobre, para quem conhece) a obra original que inspira a adaptação de algum anime da temporada em questão. Neste post específico, porém, farei algo diferente: além do post tradicional, ao final dele farei um “mini-primeira impressão” sobre o primeiro capítulo do anime, e sobre o que ele representa como adaptação. Então vamos lá.


(Clique nas imagens se quiser ampliá-las)

A publicação de Shingeki no Kyojin tem uma história bastante curiosa e difundida internet afora. O seu autor, Hajime Isayama, teve esse mesmo mangá recusado pela gigante Shonen Jump, por um editor que o orientou a retornar com uma outra história que melhor se encaixasse no estilo da revista. Para mais detalhes do ocorrido, dê uma olhada no texto mais explicadinho pelo Fábio Sakuda lá no XIL.

Não são poucas as pessoas que gostam de criticar a postura do editor em questão e da Shueisha como um todo, dizendo que lhes faltou visão e que deixaram “escapar” um sucesso tão grande quanto esse. Particularmente, acredito que Shingeki no Kyojin jamais teria dado certo na Shonen Jump se fosse publicado do jeito que o conhecemos; e a culpa é do autor, em ter sido inocente e acreditado que a obra funcionaria. A continuidade das séries nessa antologia é baseada fortemente em votação dos leitores, portanto sendo necessário trazer um conjunto de atrativos que fisgassem os leitores logo no começo. A arte pedestre e temática estranha e mais madura do que se é esperado de obras da Jump resultaria num provável cancelamento rápido desta série. Não tenho dúvidas que a melhor coisa que aconteceu para este autor e este mangá foi terem sido recusados na Shonen Jump.

Após essa dita recusa, a obra foi para a Bessatsu Shonen Magazine, um dos spin-offs mensais da Shonen Megazine, casa de outras obras relativamente conhecidas como o ótimo Doubutsu no Kuni, Aku no Hana e Sankarea, onde é publicado desde a estreia da revista, em setembro de 2009. O mangá ainda está em publicação, já passa dos 10 volumes e é um dos grandes fenômenos de venda japoneses, impulsionado fortemente por esse background “fora do mangá“.

A história do mangá se passa em um mundo onde a humanidade está sofrendo constantes ataques dos titãs, figuras humanoides gigantes (e peladas), aparentemente não-racionais, e que agem instintivamente para comer (gastronomicamente falando) os humanos. Acompanhamos a história de uma parte do mundo que hoje vive atrás de 3 grandes muralhas concêntricas, que impedem o ataque dos titãs. Eren Jaeger vive com sua irmã adotiva Mikasa dentro dessas muralhas e sonha em entrar para o exército que luta para entender e exterminar os gigantes. Mas obviamente, o caminho será muito mais complicado e trágico do que parece.

O perigo constante que permeia o mangá todo dita a grande tônica do enredo. A humanidade está acuada e cada vez mais ameaçada pelos perigos cada vez maiores que os titãs trazem. O autor é bastante competente na tarefa de não deixar o leitor relaxar, sempre temendo pelos ataques constantes e pelas iminentes mortes resultantes destes (que não são poucas).

Além disso, nota-se uma preocupação enorme do autor com a estrutura do seu roteiro, com a coesão do mundo e com a velocidade com que ocorrem revelações e acontecimentos relevantes ao enredo. A preocupação em deixar elementos como “dicas” de acontecimentos futuros tornam a leitura da obra bastante discutível e passível de análises mais profundas, convidando o leitor a desvendar todos os segredos daquele mundo. Isso é tão possível que diversos acontecimentos recentes foram previstos por leitores mais atentos, que juntaram todas as pequenas dicas que o autor deixou ao longo da obra para formar uma teoria plausível que se provou verdadeira.

Não deve-se negar também o mérito de uma ótima ideia; e não é difícil de concordar que Shingeki no Kyojin é uma ótima ideia. Desde a concepção do mundo até seu intrincado e minucioso funcionamento são grandes atrativos da obra. Inclusive existem teorias que afirmam que o mangá é uma “desconstrução(palavra da moda) do gênero mecha; e com uma forçação interpretativa, dá até para considerar. A humanidade está ameaçada por criaturas colossais, e precisa se proteger… porém com a grande diferença de que não há a tecnologia necessária pra se construir um robô gigante, resultando em uma luta desigual, e um massacre da humanidade, que precisou fugir de seus algozes da maneira mais covarde possível; é o mecha medieval, lotado de desesperos que tornam o clima bastante pesado, o que ajuda muito o leitor na imersão desse pequeno mundo criado, fazendo com que cada um de nós esteja lá também, sofrendo da mesma apreensão palpável dos personagens. E é justamente esse clima denso e depressivo que tornaria Shingeki no Kyojin impraticável de sair na Shonen Jump.

Ainda em demografias, embora seja um shonen, não há elementos clássicos do “battle shonen” na obra; como as escalas de poder, a subdivisão do enredo em arcos bem definidos e delimitados, ou a sequência progressiva de vilões cada vez mais forte. Não há nada disso. O que há é uma grande trama contínua que nos guia a diversas revelações, sempre com um único objetivo: entender o que diabos está acontecendo com aquele mundo.

Inclusive essa seriedade tão atípica em shonen é o que talvez faça as atitudes do protagonista (Eren) destoarem tanto do clima do mangá. Eren é tipicamente um protagonista shonen, que é pró-ativo, empolgado, com um passado triste e com um destino inesperado, alguém que destoa da melancolia daquele mundo sem esperança. Porém, embora seja tão alheio ao clima do mangá, ainda assim Eren é um protagonista competente, e possui as características necessárias para justificar que vejamos o avanço do enredo de seu ponto de vista. O mais interessante é que essas mesmas características de Eren só fazem destacar o quão interessante e relevante é a existência de Mikasa, sua principal coadjuvante, que incorpora em si muito do clima da obra, com sua melancolia e desejo de proteção. Não é de admirar que ela seja a personagem preferida de grande parte dos leitores.

Embora possua esse mundo tão interessante, o mangá não é isento de problemas. O primeiro grande problema de Shingeki no Kyojin é seu ritmo. Embora em leituras longas e contínuas ela seja extramente proveitosa e bem executada, a obra sofre, e muito, com a leitura mensal, que é bastante penosa e acaba desmotivando muitas pessoas. Não são poucas as vezes que já ouvi elogiarem a obra enquanto “maratonavam” a leitura e, depois de começarem a acompanhar mensalmente, passaram a desgostar da mesma. Embora não seja um problema grave e que seja facilmente aceitável, dado o ritmo competente resultante nos volumes fechados, ainda assim é um problema. Porém este fica completamente empalecido diante do segundo grande problema da obra: a arte.

É notável que a arte do autor possui diversos problemas que são tão gritantes que podem afastar o leitor mais casual. Primeiramente, seu character design é bastante simples e pouco expressivo; por utilizarem uniformes militares, é triste perceber como a maioria dos personagens só diferem entre si pelo corte e cor dos cabelos, uma vez que os rostos são idênticos. Some isso ao fato do autor conseguir desenhar apenas três posições diferentes de rosto (frente, perfil e um “meio termo”) e temos personagens pouco emblemáticos visualmente, o que pode resultar em confusão na identificação de quem é quem.

Também é bastante perceptível os problemas anatômicos da arte do autor, o que torna muitas cenas de ação pouco dinâmicas e bem confusas; e estranhas, acima de tudo. Mas é honesta a forma com que o autor mascara sua incapacidade anatômica nas proporções intencionalmente não humanas dos titãs. No design desses, o autor abusa de ângulos que seriam duvidosos e mal executados em um humano anatomicamente correto, mas que tornam-se pouco evidentes pelo formato atípico dos titãs. Embora apresente melhora com o decorrer da obra e vez ou outra possua execuções minimamente inovadoras, a arte do autor está muito aquém do que se espera de uma obra de tanto sucesso.

Mas superando-se essa barreira bastante incômoda da arte, é possível extrair muita coisa interessante deste mangá. A execução torna a obra não só aceitável, como justifica o sucesso que tem. Afinal, o hype inicial de “clássico-rejeitado-da-Jump” não sustentaria vendas sólidas se não tivesse competência, e essa competência existe.

Tá, mas e o anime?

Os trailers já apontavam uma produção bastante interessante por parte do estúdio. Parecia que as cenas de ação seriam bem executadas e bem coreografadas, compensando a inépcia do autor nesse quesito. Esses trailers também passavam a ideia de que grande parte do clima da obra provavelmente seria mantido. A qualidade visual da animação inclusive chamou a atenção de muita gente fora do público típico deste mangá, o que deixou as expectativas da estreia lá no alto.

Felizmente o primeiro capítulo do anime fez-se valer a pena. As cenas de ação e o design dos personagens estavam realmente melhorados (o que não era tão difícil, dado a origem desses) e houve uma sensível preocupação na estruturação do primeiro capítulo, para criar logo de cara o clima que provavelmente permeará a animação toda. A trilha sonora e a utilização pontual de cenas mais lentas colaboraram positivamente com isso.

Não tenho ressalvas à esse primeiro episódio; ele foi simplesmente bom. Tão bom que já conquistou diversos fãs internet afora, e provavelmente será a grande sensação desse ano do público ocidental. Talvez esse seja um daqueles raros casos em que um mangá ganha algo além de popularidade com sua animação; nesse caso, ganha melhores acabamentos visuais, que tanto fazem falta no mangá.

A grande questão que ficará suspensa é sobre o final da série. Diferente de Aku no Hana, o mangá não possui nenhum ponto onde poderia ser logicamente encerrado, não há um meio de caminho válido que possa ser desenvolvido em um final exclusivo do anime. Isso deve ser motivo de preocupação, principalmente dado que a grande qualidade do mangá provém de um cuidado de roteiro, uma preocupação em fazer tudo funcionar e tudo se encaixar, e um final improvisado pode matar essa qualidade. Mas aguardemos.

Por ora, de forma inédita, não só recomendo o mangá, como também recomendo o anime. Se tiver tempo, vá atrás de ambos e junte-se a esse ataque aos titãs.

9 Respostas para “Primavera de 2013: Shingeki No Kyojin

  1. Eu só li um pouco do mangá e confesso q a arte me deixou um pouco desapontado, mas do que eu li eu gostei bastante. Porem como ja disse em outro comentario, to lendo muita coisa e vo ter q deixar o mangá pra depois. Enquanto isso vou acompanhar o anime, já q é só 20 minutinhos por semana!

  2. Nossa recomendação de anime no Mangatologia o fim do mundo veio atrasado. rs rs
    Agora sobre Shingeki no Kyojin não tenho nada a discordar do texto, a obra apresenta boas ideias sustentando o hype inicial de recusado na Jump, mas não é a melhor obra da atualidade como alguns na internet dão a impressão.

  3. Ótimo texto, como sempre. Posts com apenas textos estão perdendo um pouco da força, ao menos pelo que eu vejo, a “moda” é fazer poadcast e vídeos, que são mais fáceis de absorver, mas textos como esses me lembram como existem bons escritores nas internetz, texto que muitos diriam serem vistos apenas em grandes revistas.

    Toda vez que tentava começar a leitura de Shingeki no Kyojin, não conseguia passar das primeiras páginas. Não gostava de artes muito sujas e nunca me interessei o suficiente. Agora, tenho muitas recomendações, e estou tentando começar há algum tempo. Vou assistir o anime, que parece estar bom, e ler o mangá se me interessar. Torço para que o final do anime seja inconclusivo, para não danificar o roteiro com um fim ruim, como já aconteceu com alguns animes.

    • Pois é, percebo isso também. Raramente há textos, e quando há, é reduzido ao máximo porque ninguém gosta de parar e ler.
      O Mangatologia tá sofrendo um pouco em termos de textos por questão de tempo hábil, mas queria realmente poder escrever mais. Pelo menos a cada 3 meses surge um post desse tipo que eu me obrigo a fazer!

      E obrigado pelo elogio!

  4. > não há elementos clássicos do “battle shonen” na obra; como as escalas de poder. Não tinha né, atualmente ele é um battle shounen clássico como eles veem.

    Concordo muito que o grande problema da obra é seu ritmo, eu já cheguei a acompanhar mensalmente, e simplesmente não da vontade de ir ler o próximo. Juntando isso com os horrendos flash backs que o autor tem, vira um campo minado se tiver que acompanhar ele mensalmente.

    Nunca achei a arte um problema, tem horas que ela realmente não é boa, mas em cenas grandes sempre se saiu bem.

    Outro problema que vejo é a entrega de certos plot points, que são simplesmente amadores as vezes, o grande recentemente é um exemplo, para que sabe do que estou falando.

    O bom desse anime é que ele tem a grande chance de corrigir todos esses problemas, agora vai faze-lo? Não da para saber visto como ele foi fiel no seu primeiro episódio.

  5. Ooohh, atípica recomendação de anime hein? hahha me lembra alguém…
    Eu comecei acompanhar agora então não tenho muito o que dizer mas até onde li já vi a desproporção em algumas, tá, muitas partes e achei feio mas não é uma coisa que me faça parar de ler.A história que é o que conta e parece promissora, então vou continuar.
    Agora, gigantes degustando humanos me lembrou Gantz, nada a ver a história mas piscou na minha mente aqui.
    E sobre o anime eu tive a impressão que foi levemente mais dramático que o mangá ou não talvez tenha sido só a voz do principal que causou um disturbio aqui. Eu não sou fã daquele dublador….
    Também ficou bem mais bonito que no mangá , apesar de tanto brilho e luz, tipo, eu tinha imaginado uma coisa mais dark e tal ( se bem que ultimamente a maioria das últimas animações tem esses efeitos). Enfim.eu gostei.

  6. Pingback: 1Volume: MangaBox #01 | Ao Quadrado ²·

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