Mangá Musical #2 – The Glow, Pt 2 + Omoide no Emanon

O album “Glow Pt.2”, da banda lo-fi The Microphones, é facilmente um dos meus albuns favoritos de todos tempos, mas já vi muitas das pessoas para quem tentei recomendar esse conjunto de musical, largando logo de cara porque acham que é um album muito triste ou, mais comumente dito, “muito depressivo”. Sendo direto, acho que esse tipo de justificativa não faz justiça à obra, mas é nesse mesmo sentido que acho que esse é um album que casa tão bem com o mangá: Omoide Emanon

The Glowemanon1

Antigamente, costumava encarar esse tipo de visão de “depressivo demais” com um certo ar de desprezo. Não que eu procure depressão especificamente em uma obra, mas a reflexão que certos mangás, como Oyasumi Punpun ou Bokurano, me fazem realizar em cima de momentos de dificuldade de imersão psicológica de seus personagens, simplesmente fantástica, é exatamente esse o tipo de coisa que me atrai em uma obra.

Acho que foi na tentativa de tentar encarar essa zona de conforto dos meus mangás “adultinhos e profundos” que passei a entender quem não gosta das obras anteriormente mencionadas. Apesar de achar realmente uma pena alguém largar Punpun porque achou muito triste, também acho justo, não é o tipo de experiência que a pessoa procura na mídia.  Só que o que é certo, é certo, e  da mesma forma que mandaria uma pessoa que largou Emanon, porque achou depressivo demais, ler o mangá mais uma vez, também recomendaria para uma pessoa que largou Glow Pt2 pelo mesmo motivo, ir tentar escutar mais uma vez.

Omoide Emanon é uma obra com um levantamento moral extremamente neutro, no melhor ângulo que seja possível dizer isso. É claro que a obra tem alguns momentos bem localizados de alívio cômico ou de romance-triste, mas no geral a obra não te deixa feliz ou triste, somente reflexivo. O gigante encanto e simpatia que acabamos tendo pela personagem principal da obra é reflexo desse exato sentimento, nos sentimos que nem a Emanon no final, e da forma mais vaga possível também. É aquela sensação de ficar olhando pela janela (ou pro seu próprio reflexo na tela preta do computador), pensando não só no que acabou de ler, mas em como isso reflete em você mesmo,

Poxa, é uma mangá que fala sobre suícidio, o mangá inteiro praticamente é a conversa de dois jovens sobre o qual o significado de suas existências. Aborda muitas questões existenciais, mas é um tipo de niilismo muito diferente daquele escrachado em Punpun. O próprio final mostra isso de certa forma, não é positivo, nem negativo (principalmente para a própria Emanon), somente existe como pura forma de auto-reflexão.

E até hoje, nenhum outro album me deu essa sensação tão forma tão impactante quanto Glow Pt2.

Essa é uma das obras mais sinceras e honestas, niilisticamente falando, que já presenciei. As letras da música que dá nome ao album representam isso de forma muito forte, pois quando o vocalista canta “I faced death. I went in with my arms swinging. But I heard my own breath and had to face that I’m still living. I’m still flesh. I hold on to awful feelings. I’m not dead… My chest still draws breath. I hold it. I’m buoyant. There’s no end.” é da forma mais honesta em relação à sua posição de impotência com o que ele é e com o que ele observa, ao mesmo tempo que realiza a beleza de tudo isso, até da própria impotência.

De forma muito mais única de que muitos albuns por aí, Glow Pt2 não é só um amontoado de músicas, é uma peça musical gigante, que funciona (e deve ser) escutada de uma vez só. É nesse gigante de sentimentos que variam de relaxamento, felicidade, raiva, tristeza e, por que não, depressão, tudo pra terminar em auto-realização, é que Emanon se encaixa tão bem.

A própria natureza simples, mas ao mesmo tempo impactante, do som forçadamente de baixa-qualidade, lembra a simplicidade do conceito da garota, desenvolvido de uma forma profunda, mas sem nunca tentar ser grandioso.

Omoide Emanon

O verso inicial da música “I Felt Your Shape”, diz:

“I thought I felt your shape but I was wrong
Really all I felt was falsely strong
I held on tight and closed my eyes
It was dumb I had no sense of your size”

E isso em remete muito à Emanon e à sua infinita viagem de sofrimento e alegria de registrar a história da humanidade. Forçando um pouco, tem até algumas músicas, como Headless Horseman, com um certo ar de romance indesejável, impossível e realizado que lembram o do casal do mangá.

No entanto, acredito que o que mais me fez encaixar as duas obras foi justamente a música de abertura do album, I Want Wind to Blow. A forma que o vocal harmoniza com a melodia nessa parte específica é fantástica, e o crescer e descer de tudo isso me lembra demais as páginas coloridas que iniciam e encerram o mangá. É um pouco vago isso, mas é o que senti.

Nem tudo se encaixa é claro, mesmo por Emanon ser uma obra tão curta, mas a ideia central e essencial de cada umas dessas obras, casam muito bem pra mim. Glow, pt2 e Omoide Emanon, duas obras tão simples e impactantes quanto os próprios conceitos que as formam.

Legal, vou terminar com isso mesmo. Até semana que vem.

10 Respostas para “Mangá Musical #2 – The Glow, Pt 2 + Omoide no Emanon

  1. Legal as musicas, principalmente a segunda, foi a q mais gostei.

    Porem não consigo encar elas como a trilha de enmanon, provavelmente porque a obra me passou outro sentimento na epoca que li.

    • Bom, pode ser, esse é um tipo de texto bem pessoal mesmo.

      Mas só pra constar, o objetivo não é necessariamente construir uma trilha sonora pro mangás, mas só comparar as mídias e falar sobre duas obras que se remetem, de alguma forma.

      • Algo como tentar aproximar “feelings” ao ler um mangá e ao ouvir uma música, que vão ao encontro um do outro certo? Achei a ideia sensacional. Sempre pensei em associar música ao mangá (creio que em ordem, os dois dos meus maiores gostos pessoais), embora se eu fosse fazer algo semelhante, eu utilizaria somente músicas instrumentais (acho mais apropriado, mas só coisa minha mesmo). Ainda não ouvi as músicas com calma (nem desse nem do anterior), vou tirar um dia pra interpretar bem (principalmente as letras, não é meu forte), só não podia deixar passar a oportunidade de deixar registrado o meu agrado pela ideia.

      • Não, eu entendi, e que não achei outra palavra fora “trilha”, erro meu.

        Eu achei que a segunda musica me lembra mais Watashitachi no Shiawase na Jikan. Especificando um pouco mais, o personagem masculino na fila da pena de morte. Não diria que ela “e apropiada” para o manga inteiro, mas foi o que me lembrei na hora.

  2. Uma das coisas que mais me fascina na arte (“arte” no sentido mais amplo possível) é a convergência entre mídias. É incrível pensar que um mangaká japonês e uma banda americana sentem coisas similares e expressam sentimentos similares, mesmo estando separados por mídias e mundos. Gosto de pensar que música, mangá, filme, livro, qualquer coisa, tudo são meios para um fim: a expressão de emoções. Todo o resto, por mais interessante que seja, é quase firula, quase que puramente estética. O núcleo é um pra todos nós.

    Deu pra notar que você tocou no meu ponto fraco. Continue assim, Judeu. Aproveitarei pra conhecer umas bandas (provavelmente) legais. Mas só os conceitos e os textos já valem por tudo. Muito obrigado.

    • Obrigado eu, cara. Estou muito feliz pela boa receptividade que estou tendo em cima desses post e é interessante mesmo esse conceito de compartilhamento de emoções. Até uma forma interessante de você perceber o quão todos nós somos iguais, aquela sensação que você acha que “ninguém entende”, sempre vai ter alguém sentindo ao mesmo tempo que você, acho fantástico também.

  3. Judeu Ateu,

    desconhecia tanto o mangá quanto o grupo e geralmente tenho um que contra contra sugestões musicais (prefiro algo como acaso musical).

    Porém assim que conclui a leitura do texto, acompanhando por ‘I felt your shap’, concordei imensamente com o sugerido e minhas listas de manga e álbuns futuros ganharam a adição de ambas obras.

    King Buddy Holly Eternamente ITs ALIVE, do Blog Filmes do Pato Morto.

  4. Esta coluna está muito interessante, de verdade. É até engraçado, pela segunda vez, eu vi o post, achei a ideia de cruzar música e mangá legal, mas sem muita relevância, dai eu comecei a ler e acabei percebendo que as músicas são boas, o texto é bom e a relação é bem válida.

    Emanon é uma obra incrível e as músicas são tão boas quanto. Uma das muitas barreiras que precisamos passar para aproveitar a arte ao máximo é a barreira do “conforto”. Percebo que muitas pessoas que ficam apenas na superfície das obras, que não mergulha fundo nelas e, por isso, não aproveitam a arte por completo (ou mais próximo de sua máxima experiência) são pessoas que veem a arte apenas como “diversão”. Se aquilo te diverte, te faz bem, te conforta e é agradável, gostar é natural. Mas quando a obra faz o oposto disso, o mais óbvio seria não gostar. Teoricamente, isso não é errado. Muitas pessoas acreditam que o sentido da vida é buscar a felicidade, por que alguém buscaria a tristeza, a depressão e o desconforto? Principalmente em mídia que deveriam, teoricamente, ser entretenimento. Se o sentido da vida fosse, de fato, ser feliz e buscássemos isso a todo o instante, isso faria um pouco de sentido. Mas essas pessoas “felizes” perdem essas reflexões que apenas momentos proporcionam. As músicas do post são mais triste que Emanon, de fato, mas sinto um aspecto muito mais realista do que pessimista no mangá, o problema é que a realidade parece triste. Emanon não é tão triste, nem tão feliz, ela apenas é, não possui um lado certo. O que é interessante, pois, ao meu ver, ela não apenas é testemunha da história da humanidade, ela é A própria história e o rapaz que ela encontra conseguiu algo que talvez seja o verdadeira sentido da vida: Ficou marcado na história.

    Acabei pendendo pra outro lado, mas o post está ótimo. Agradeço pelas músicas, são muito boas. Ajuda-me a passar a “barreira de conforto” em relação a música. Espero que consiga manter a coluna e que toda vez ele me surpreenda assim.

  5. Gostei bastante do texto e, como alguém disse acima, achei a relação bem válida. Quando eu li Emanon pela primeira vez, assim que terminei eu me deitei no sofá e comecei a escutar música enquanto pensava no que eu havia acabado de ler e assistir (havia acabado de ver Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças antes de ler Emanon) e a minha cabeça estava a mil. Mesmo não tendo relacionado com as letras, apenas a melodia das músicas do The Glow pt2 combinam perfeitamente com o sentimento de Emanon, na minha opinião. É o tipo de música que te faz ir longe, assim como Emanon.
    E tá aí uma coisa que eu gosto muito, relacionar mídias. É como o Rauzi disse, é incrível conseguir relacionar sentimentos e elementos entre mídias diferentes.
    Parabéns pelo texto, Judeu.

  6. Passando aqui pra disser que ouvi recentemente o álbum e digo que é realmente fantástico, ele realmente lhe leva a refletir, tanto que as vezes esquecia que estava ouvindo o disco enquanto pensava.

    Vim aqui comentar pra ver se dava uma animada pra voltar a fazer os posts, aguardando ansiosamente e continuem com o bom trabalho.

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