Hoshi no Samidare

Tive uma relação meio esquisita com esse mangá. Tinham me recomendado Hoshi no Samidare quase 2 anos atrás, cheguei a ler uns 6 capítulos, achei fraco e larguei. De um bom tempo pra cá, o mangá tem ganho ótimas críticas e acredito eu que já é possível considerá-lo com como um “cult” entre o nicho, assim, chuvas e chuvas de recomendações voltaram a cair em cima de mim. Estava de birra no começo e não queria ler o mangá, já tinha desistido dele, mas a encheção de saco pra ler esse negócio foi tão grande que simplesmente não podia mais ignorar a obra, tive que baixar Hoshi no Samidare.

O mais engraçado é que a minha boa vontade pra ler o mangá não era lá muito grande, fui com a missão de não gostar, queria ir contra essa corrente de elogios, no entanto, acredito que eu mesmo mudei e muito desde a época que eu tinha lido e agora, muita coisa mudou e por mais que eu tentasse, não conseguia odiar essa incrível obra, foi uma das experiências mais satisfatórias e agradáveis que tive lendo um mangá.

Hoshi no Samidare (ou Lucifer and the Biscuit Hammer como saiu na França), é um mangá de 10 volumes, publicado na Young King Ours entre 2005 e 2010 pelo mangaka Satoshi Mizukami, mesmo autor de Sengoku Youko.

A história gira em torno da vida de 13 pessoas que foram reunidas para salvar o mundo do mago Animus e seu gigante martelo que está prestes a cair na Terra. Entre estas pessoas está Amamiya Yuuhi, um jovem antissocial que ao acordar numa manhã, é informado sobre sua missão de salvar o planeta por um lagarto falante em cima de sua cama, e Samidare Asahina, a princessa líder protegida pelos 12 Cavaleiros Animais e que  sozinha talvez possua o poder de derrotar Animus e salvar a todos.

O problema é que a Samidare não é a maravilha bondosa e clichê que vemos por aí e secretamente, a menina deseja destruir o planeta com suas próprias mãos, missão para a qual Amamyia prometeu ajuda-lá a cumprir.

Numa análise particular, Hoshi no Samidare funciona e brilha em 3 grandes aspectos. Primeiramente, o mangá é uma grande paródia do “gênero” battle-shounen e aos mangás de lutas com poderes em geral. Vejo que é até possível alguém, numa batida de olho rápida na sinopse, confundir o mangá com “mais um com poderes luminosos”, afinal de contas, tem todo um cenário pronto para o clichê de sempre, 12 crianças guerreiras, mundo em perigo, resgate da princesa, vilão supremo… Mas a quantidade de brincadeiras e inversões de expectativas, sobre esse mesmo cenário, que temos no mangá é enorme.

O próprio Amamyia por exemplo, é de longe o que imaginamos quando pensamos num protagonista de Battle-Shounen, ele é fraco, antissocial, mal tem interesse pela prória missão e não é mongolóide super animado, poxa, o garoto até usa óculos. São vários pequenos detalhes, que por irem contra o que esperamos naquele tipo de situação, causam grandes surpresas no leitor, é quase um “truque barato, mas inteligente” jogado  pelo autor. Durante o mangá também temos até referências que ironizam acontecimentos padrões de shounens.

Um segundo aspectos que “Demônio e o Biscoito Martelo” executa com maestria é no desenvolvimento dos personagens, a começar pelo protagonista. O desenvolvimento lento e gradual de Amamyia, tanto no uso de seus poderes na história, quanto no desenvolvimento psicológico como pessoa é uma maravilha de se ler. O garoto se transforma de uma forma que nunca pareça forçada no roteiro, tudo é extremamente justificado e as vezes justificado de forma que o leitor não consigo ver, mas consegue muito bem sentir.

O interessante, e talvez seja isso mesmo que causa a impressão de gradualidade, é que apesar de termos grandes acontecimentos que marcam o personagem, o avanço do Cavaleiro de Lagarto nunca é dado somente por estes impactos, é tudo por etapas, nunca há uma mudança de personalidade muito marcante no personagem e isso realmente nos faz criar um certo afeto pelo garoto.

Só pra deixar claro, estou falando aqui de “desenvolvimento” vagamente, mas o foque principal do mangá é o desenvolvimento psicológico. Questões como amadurecimento, chegada da vida adulta, o que é ser um adulto e as vezes até um pouco de niilismo, são aprofundadas em cada personagem de forma fantástica e realmente única.

Esse tipo de desenvolvimento super-gradual acontece mais claramente com o Amamyia, mas os outros personagens nunca são deixados de lado, alias, este é o terceiro ponto no qual acredito que Hoshi no Samidare mais brilhou: o uso e aproveitamento de todos os seus personagens. Porque se antigamente usava Dorohedoro ou FullMetal Alchemist para exemplificar o bom desenvolvimento e uso interligado de vários personagens, à partir de hoje usarei Hoshi no Samidare.

Como se não fosse o bastante o autor criar, desenvolver e apresentar na trama 13 ou mais personagens extremamente carismáticos e profundos, Satoshi Mizukami ainda consegue fazer com que todos interajam com o plot maior e entre eles de forma coesa, lógica e sem perder a emoção da trama.

Samidare sofre muitas comparações com o mangá Bokurano e os dois são de fato bem parecidos: dois mangás que subvertem gêneros (apesar de que o primeiro tende mais ao humor), desenvolvem uma grande gama de personagem, possuem grande foque no desenvolvimento psicológico e que são simplesmente de extrema qualidade. No entanto, apesar de eu gostar MUITO (muito mesmo) de Bokurano, tenho que admitir que o o “concorrente” vai um passo além.

Bokurano desenvolve muito bem todos os seus personagens, mas o autor meio que “se safa” pois nunca mais tem que tocar em cada um depois do desenvolvimento. Hoshi no Samidare vai uma passo além, porque desenvolve os seus personagens e depois usa cada um de forma muito coesa e precisa durante a obra inteira. Não estou dizendo que algum é melhor, mas a impressão (e é impressão mesmo) que tive foi que Samidare teve um trabalho bem mais complicado neste aspecto.

A arte do mangá costuma ser simplista na maior parte do tempo, mas o autor sabe muito bem quando é preciso parar e trabalhar a página pra valer. Talvez um ponto negativo que posso citar seria que o começo é um pouco lento e isso poderia afastar algumas pessoas depois uns 3 capítulos, incluindo a mim mesmo. Mas com a obra ganhando renome e “hype” em cima, o começo lento só tende a se transformar mais em algo positivo do que negativo.

Pra terminar, gostaria de comentar (sem spoilers) que o final da obra é incrível. A sensação que temos nos últimos capítulos e volumes é que absolutamente tudo foi pensado e planejado desde o começo, uma obra redonda e fechada como não via há tempos. E pra quem já terminou e está lendo a review mesmo assim, aquele epilogo não deixou vocês com um sorriso bobo na frente do monitor bom um bom tempo? Se alguém entrasse no quarto quando eu tinha terminado de ler o mangá acharia que eu tinha acabado de me masturbar. Satisfação verdadeira em ler uma ótimo obra, é isso aí.

Enfim, é isso, uma inteligente sátira ao battle-shounen, um sofisticado e gradual desenvolvimento psicológico de personagens e exploração e interligação destes personagens que é de bater palmas. Se estamos lançando obras não-tão-pops como Monster e Mago, não vejo motivo nenhum para que Samidare não seja lançado também, por tudo isso e muito mais que…

Eu recomendo: Hoshi no Samidare.

Online // Download Bakabt // PT-BR

Ps.: Quando terminei de ler o mangá, parece que todos que tinham me recomendado ressurgiram das cinzas pra esfregar na minha cara que eles tinham me recomendado, foi até assustador, me senti violentado, nunca mais esfrego na cara de ninguém uma recomendação. Also, o projeto em português está estagnado desde 2011. O scan que retomar o projeto terá um anuncio garantido no Checklist Underground

22 Respostas para “Hoshi no Samidare

  1. Eu considero Samidare algo como a “second coming” do battle shonen. Você (você = pessoas em geral) começa a ler mangá com os battle shonens, você acaba se cansando, mergulha para os seinens e “psychological” da vida, começa a achar os battle shonens um saco, genéricos, overrateds, normalfaggotismo, etc. Aí você encontra Samidare e ele te mostra porque tudo aquilo ali só precisava de um autor fantástico para ser amado.

    Enfim, é muito difícil expressar o que é Hoshi no Samidare. É quase impossível, eu diria. Merece meus parabéns nem que seja apenas por tentar.

    Sobre a scan, ME AGUARDEM.

    • Acabo de notar que falar que pessoas em geral mergulham em seinens e “psychologicals” é uma puta superestimação, pra não dizer mentira. “Pessoas que, considerando onde esse texto está publicado, poderão ler esse comentário” seria um termo mais preciso.

  2. Sem duvida é uma master piece que deve ser lida por todo.

    É legal ver que o autor não quer parar sua desconstrução do battle shounen por ai. Em Sengoku Youko ele aborda outros elementos do gênero que não foram abordados em martelo, sem duvida é um mangaka para se ficar de olho.

    • Os one-shots que li do cara também são bem legais, pena que a maioria não existe nem em ingrish.

  3. Li o começo de Hoshi no Samidare e devo confessar que não me agradou tanto assim, mas como vejo pessoas de todo canto da internet arrotando elogios sobre a obra, sabia que esse começo não era nada que a prejudicasse. Bem, lerei pra ter minha própria opinião.

    Boa review, Judeu.

  4. Eu gostei do mangá, é melhor do que muito manga que tem por ai, só não achei que é uma masterpiece, achei algumas partes bem previsíveis e já to cansado de niilismo.

  5. Leia isso daqui depois de ter terminado o mangá, porque vai ter muitos spoilers.

    Depois de ver esse post,eu fui ler e devorei em dois dias o mangá, e sinceramente, é muito bom.

    O mangá faz um uso da morte que por si só já daria muitos pontos no meu conceito, talvez seja costume de battle shonens, mas a morte de um personagem costuma ter impacto repentino e extremo, para depois ser esqueçida. É só ver Naruto pra ver se alguem lembra de cada personagem que morreu. Um bom mangá, como Hishi no Samidare, além de levar a morte pelo que é, sem intensificar a tragédia ou ignora-la tambem a utiliza como um degrau que não é forçado para o desenvolvimento dos que sobraram.

    A pergunta que te faço agora é se você reparou que o Cavaleiro do peixe-espada é na verdade a reencarnação que o magus pediu antes de morrer.

  6. Escrevo aqui para agradecer aos responsáveis pelo Mangás Underground por mais uma indicação excelente. Hoshi no Samidare é excepcional. Deliciosa leitura. Por essa e outras indicações, é que sou um leitor assíduo deste blog.
    Muito obrigado mesmo.

  7. Acabei de terminar a leitura do mangá, e realmente, ótima série.
    Obrigado pela recomendação.
    Partirei agora para Bokurano. Lembro de ter assistido o piloto da série animada, mas o resto ficou perdido na montanha de dvds.
    Mangás são mais faceis de acompanhar.

    • Além do que, acompanhar anime de Bokurano é tempo perdido, é drasticamente diferente do mangá, perde-se praticamente toda a mensagem.

      Tão diferente que o autor teve sérias brigas com o diretor do anime. Mas e isso aí, fico feliz que a recomendação tenha sido útil.

      • O mangá de Bokurano é tão diferente assim do anime? Que eu saiba só o final da série de TV que é ligeiramente diferente. Acho que vou procurar saber do mangá pra ver como é.

      • É bem diferente sim, pelo que sei.
        Vários desfechos e desenvolvimento de algumas personagens sofrem mudanças significativas.
        De qualquer forma, só o final já muda tanto o sentido da obra que já é mudança o suficiente pra dizer que é “tão diferente”.

  8. Aew, eu acompanhava os mangas undergrounds pelo blog do Gyabbo e há muito tempo mandei um email pra lá sugerindo a review desse mangá. Como as publicações lá pararam, eu fiquei meio triste e talz, mas ai hoje eu achei esse blog!

    Que satisfação ler essa review! Agora posso enviar o link para todos os meu amigos que duvidam de minha palavra quando falo desse manga ^^

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