Rodapé: Crows e os Yankiis

Revivendo mais uma categoria quase esquecida do blog, voltamos com a série “Rodapé“, onde buscamos explicar sobre algum determinado assunto recorrente em mangás, usando um deles como pano de fundo e guia para a explicação. Atentem-se que não é necessário conhecer a obra em questão para aproveitar o post, mas é um ótimo complemento conhecer. E hoje iremos falar sobre Yankiis.

O conceito de yankiis, delinquentes e qualquer outro tipo de valentão de escola está altamente difundido em mangás, e presente em diversas obras. Esse tipo de história ou personagem desperta um certo fascínio nos japoneses; há toda uma magia por trás do submundo dos jovens violentos. E qual é a razão para o grande sucesso dessas obras, principalmente na década de 80 (e que ressoa até hoje)? Este é uma das questões que este post pretende esclarecer, usando como linha guia o mangá Crows, publicado na Monthly Shonen Champion nos anos 90.


(Clique nas imagens se quiser ampliá-las)

Mas antes é preciso explicar: por que escolher Crows como pauta? Bem, primeiro por ser uma ótima obra (e infelizmente pouco valorizada no ocidente), e segundo por trazer todos os esteriótipos, exemplos e modelos necessários para esta explanação do tema. O mundo do Colégio Suzuran, o colégio dos corvos, trás tudo o que você precisa saber sobre o mundo dos delinquentes!

Assim, vamos começar a conhecer essa subcultura e entender o que são, e porque são, yankiis!

Delinquência Japonesa

Delinquente é aquele que comete delitos, ofensas, de forma não apenas criminosa como também social. Assim, aquele adolescente que arranja briga na rua, o outro que picha muros e aquele que provoca vergonha às meninas na rua acreditando estar conquistando-as são todos delinquentes. Normalmente se associa esse termo a repetição do ato, e portanto, um delinquente está constantemente cometendo ofensas às morais, aos bons constumes, e à lei.

Da década de 60 em diante, o Japão vivenciou um enorme crescimento na quantidade dos tais delinquentes, tendo seu auge até os anos 80, quando este movimento começou a enfraquecer. Mas desde gangues femininas que buscavam se impor sobre outras meninas (as chamadas sukeban), jovens que modificavam motos e andavam perturbando o trânsito e a paz público (chamados bosozoku, que falarei mais à frente), até garotos que só queriam fumar no telhado do colégio, os delinquentes estavam se tornando presentes na sociedade japonesa, e nos anos 80 eles já chamavam bastante a a atenção.

O termo yanki (ou yankii, ou yankee) popularizou-se como forma de se referir a esse tipo de comportamento inapropriado. E é bastante curioso notar que esse termo denota o enorme patriotismo cego japonês; o Japão é um local onde a ordem, a hierarquia e as leis estão presente na vida de todo mundo, e esses jovens que não queriam seguir tais diretrizes eram considerados “contaminados” pelos estrangeiros, ou, como chamavam os americanos na Segunda Guerra, pelos yankees. É muito cômodo o Japão afastar de sua sociedade os problemas, dizendo que o culpado está lá fora. Mas curiosamente, o que os yankiis queriam era exatamente isso: ficarem de fora.

Embora existam vários objetivos que os membros dessa subcultura desejam alcançar com seus comportamentos desafiadores, podemos definir de forma genérica que o grande objetivo deles era sair do padrão. Estar fora da sociedade, não ter que agir como o esperado, buscar o seu espaço sem se vender ao sistema, viver num esquema social diferente; é isso que o delinquente (e quase todas as subculturas, principalmente japonesas) desejava.

A vida de um japonês padrão basicamente era (e ainda é): vestir um uniforme, ir para a escola todos os dias, estudar, respeitar seus professores, se formar, arranjar um(a) namorado(a), ir para uma universidade, casar, conseguir um bom emprego estável e constituir familia. O que os yankiis faziam? Modificavam seus uniformes, matavam aulas para fumar, desrespeitavam hierarquia, eram promíscuos… e todos os movimentos mais óbvios para ir contra o padrão de vida japonês.

A partir da década de 70, pequenos grupos de delinquentes começaram a nascer. No colégio, pessoas se juntavam aos outros que possuíam o mesmo objetivo e desejo, formando aqueles clássicos bandos de baderneiros em escolas; e como todo grupinho colegial, sempre um destacava-se como o líder. Esses grupos buscavam ter uma vida livre de preocupações e regras externas, e não era incomum eles passarem a pichar muros, fumar (principalmente no telhado do colégio, que é a coisa que os personagens em Crows mais fazem), matar aula para paquerar meninas e fazer diversas outras ações que os definiam como delinquentes. Muitos buscam um local para poderem chamar de seu e desfrutarem com seus amigos. Sim, amigos, pois os grupos desenvolviam laços de amizades tão ou até mais verdadeiros que qualquer outro grupo estudantil. O que é normal, visto que todo mundo busca a amizade de seus semelhantes.

E quando dois grupos desejavam chamar o mesmo local de “seu”? Bom, aí eles resolviam esse conflito de duas formas: ou se juntavam, ou subjugavam um ao outro. Assim não demorou muito para começar a se formar um padrão e surgirem alianças, guerras, brigas dentro de grupos de um colégio, briga entre colégios distintos… e seguindo a lógica cultural japonesa que é bastante regrada e correta, uma certa “organização” começou a aparecer no meio nessa rebeldia. Curiosamente o que se experimentou-se nos anos seguintes (já na década de 80) foi uma organização cada vez maior em como se dava o relacionamento entre os delinquentes, começando a despontar regras, códigos de honra e costumes específicos para essa subcultura. Inclusive foi mais ou menos nessa época que surgiu os conceitos de bancho (espécie de líder dos delinquentes) e sukeban (equivalente feminino).

No contexto escolar, os delinquentes não necessariamente representam os bullys arrumadores de confusão com os alunos “normais” que vemos em algumas histórias. Na verdade, grande parte da cultura yankii é pautada pela busca pelo seu espaço próprio (o Ryu da Espada de Madeira, em Shaman King, sempre dizia que buscava seu “best place“), e muitos nem se importam com os outros alunos comuns da escola; a atenção só é dada aos outros delinquentes que ameaçam seu território. E para comandar tudo isso, não é incomum que existam nas escolas um grande líder, que é respeitado por todos os outros delinquentes da mesma.

Bouya sobre a violência dos yankiis

A disputa pelo posto de “bancho” ou líder da escola é bem comum nos mangás. O mais interessante é que além da sua própria capacidade de briga, um fator importantíssimo para determinar o sucesso do pretenso líder é sua capacidade de motivar aliados a lhe ajudarem na conquista, seja por carisma (como o Bouya Harumichi, em Crows) ou pelo medo (como o Hideto Bandou, que inspirava medo por ter um gangue de bosozoku lhe dando suporte fora da escola). Essa delinquência escolar é pautada, como dito anteriormente, por hierarquia e diversas regras e lógicas próprias. A hierarquia do mais novo respeitando o  mais velho (por isso os tais líderes costumam estar no último ano da escola), as alianças mantidas pela honra, a honestidade de lutar com as mãos limpas… são vários os preceitos que essa subcultura segue.

Esse ultimo quesito é até interessante: dentro dos próprios delinquentes, aqueles que utilizam-se de armas brancas ou de fogo (embora bastões e pedaços de pau eles aceitem sem problemas) são considerados alguém “fora” da honra desse grupo; para eles é um absurdo esfaquear alguém, por exemplo (para nós também). Em uma passagem bastante exclarecedora, o protagonista de Crows encontra um cara que havia levado uma katana para uma briga, e Bouya lhe pergunta por que havia levado uma arma de verdade para uma briga de crianças. Bouya ainda completa dizendo que eles tinham todo um futuro pela frente! E resumidamente, as brigas de delinquentes são isso mesmo: brigas de crianças. A violência dos yankiis não busca a morte dos adversários, e sim somente a derrota do inimigo (sempre há exceções, claro).

Vale ressaltar também que existem diversos indivíduos considerados yankiis, ou delinquentes, que optam por não se juntarem a grupos grandes e a essas intrigas do submundo, e preferem aproveitar sua vida solitariamente dormindo no topo do colégio, ou só agindo como um mal encarado. Yusuke Urameshi (Yu Yu Hakusho) e Hanamichi Sakuragi  (Slam Dunk) são exemplos de delinquentes que não se importam com disputas e intrigas e só querem aproveitar a vida do jeito deles. Bouya Harumichi também era assim, até entrar numa escola onde não havia a opção de ficar neutro.

Fora do Colégio

Não é incomum os jovens delinquentes tornarem-se adultos normais e constituírem família após se formarem ou abandonarem a escola. A maioria deles acabam trabalhando em serviços braçais, como construção (inclusive Crows tem um ex-aluno que trabalha na área), ou acabam herdando negócios da família. Porém, alguns poucos abraçam o sub-mundo violento, e resolvem ir um nível acima; assim, alguns acabam se juntando à alguma gangue ou a um grupo de bosozokus.

Bosozokus são fanáticos por motos, que se reúnem em grupos semelhante a “moto-clubes“, mas com uma atitude mais rebelde; é uma espécie de “delinquente fora do colégio“, que espalham o caos no trânsito e o medo na população, embora também pouco liguem pra cidadãos comuns e se importem mais em derrotar seu grupo rival. Embora normalmente composto por pessoas que já pararam de estudar, muitos alunos se juntam a eles, seja para proteção pessoal, ou em busca de fazer um nome (a eterna busca por seu lugar). Em Crows, temos o grupo de bosozoku The Front of  Armament, que é exatamente isso: uma gangue motorizada. Bandou Hideto, um aluno do colégio Suzuran, faz parte do grupo e utiliza-o como “suporte” para tentar alcançar o topo da hierarquia do colégio.

Pode-se dizer que os bosozokus e as gangues de rua não motorizadas são uma escala intermediária de violência entre os delinquêntes de colégio e os gangsters mafiosos. Enquanto alguns bosozokus só querem curtir a vida, outros usam o grupo como base para alcançar um poder no submundo do crime, e posteriormente tentar entrar na yakuza ou em qualquer organização criminosa.

Estilo

Agora que ficou bem claro que os yankiis são em sua maioria brigões (mesmo que seja só entre eles mesmos), sendo essa a primeira característica que é mais marcante, vamos falar da outra característica que costuma ser associadas a ele: seu estilo de vestimenta. Dentre os delinquentes escolares, muitos acabam se recusando a usar o uniforme do colégio; Bouya, por exemplo, está sempre com uma jaquetinha que não tem nenhuma relação com o uniforme. No entanto, aqueles que optam por usar, quase sempre dão uma “customizada” no visual, usando a blusa aberta, correntes e acessórios que façam aflorar o senso de individualismo que tanto buscavam; Pon usa uma característica máscara de rosto, bastante popular entre os delinquentes da época, chamada de gauze mask.

E claro, os cabelos não poderiam ficar de fora da caracterização: cabelos espetados, tingidos, descoloridos, carecas, toda a sorte de opções de penteados fora do comum que os japoneses conseguem fazer pela favorecida genética do “cabelo bom’. Mas acredito que não seja necessário explanar muito sobre essa característica, pois ela é a mais visível e facilmente identificada pelos leitores.

Mas por que o sucesso nos mangás?

Chegamos então na grande pergunta por trás deste post: tudo bem, sabemos quem são os yankiis agora, mas por que o tamanho sucesso das personificações desses personagens em mangás a partir da década de 80? Para entender isso, basta destacar duas coisas que estavam em alta no Japão (e no mundo) no meio da década de 80: filmes de brucutus e o visual kei.

Os filmes de brucutus são exatamente o que você está pensando: Stallone, Van Damme, Schwarzenegger… nos anos 80 o que bombava eram homens fortes que batiam em todo mundo. Não coincidentemente que nesse período que começou-se a despontar as mangas com personagens extremamente fortes fisicamente, como Hokuto no Ken (claramente com influências de Mad Max 2, um clássico do começo da década) e Sakigake!! Otokojuku. E paralelo a isso, há o nascimento das bandas com visual chocante e extremamente contestador, como X Japan e Buck-Tick; o chamado visual kei.

Tipo isso…

Os delinquentes tinham em seu modo de vida duas das características mais desejadas daquela época: a atitude durona e o visual marcante. Logo, não é de se surpreender que os “vilões” da vida real logo passassem a ser caracterizados como heróis e anti-heróis que podiam ser explorado em um mundo mais próximo da realidade do leitor, e ainda assim manter a magia de um personagem diferente do comum na sociedade (curiosamente era justo o que os yankiis desejavam ser). Fora, claro, os próprios delinquentes gostarem de ler as obras que falam do seu estilo de vida; e nem adianta discordar, pois a Shonen Champion vive disso até hoje.

E então, ao final da década de 80, Hiroshi Takahashi criou o seu legendário Colégio Suzuran, palco do mangá Crows e início de toda uma franquia ainda em publicação, com todos os esteriótipos e características típicas desse universo, e que conta hoje diversos spin-offs e até dois filmes live-action. Filmes esses lançados no final dos anos 2000 e que levou muita gente ao cinema, mostrando que embora esteja mais fraco do que antes, o fascínio pelos delinquentes ainda está bem vivo dentro dos japoneses.

4 Respostas para “Rodapé: Crows e os Yankiis

  1. Poxa, post muito massa, me identifiquei pq é o meu estilo favorito de mangá.
    Acho que esse fascínio não vem só por parte dos japas, como vc mesmo disse, mas sim de todo o mundo, pq apesar de todos os aspectos culturais que se restringem a regiao/país, a essência de tudo isso é universal. O ser humano é muito parecido em qualquer lugar.

    Só pra constar, meu mangá favorito do estilo é o Rokudenashi BLUES. E curioso que além do cabelo, o visual do Maeda (o principal) é bem normal.
    Já Crows só li o começo, assim como o Worst, mas achei muito foda, tenho q voltar a ler logo

    Achei legal a aprofundada no tema, aprendi umas coisas que não sabia. Valeu aí!

  2. Curti teu post, Estranhow, curto muito a cultura yankii e tenho planos de uma história ambientada no meio. Tive amigos japas que viveram isso. Ah, e Crows é um dos top da casa, tenho em kanzenban aqui. Parabéns! Ah, tem otakubar esse fim de semana, se quiser, twitter, ok?

  3. Parabéns por mais um excelente post! Como de costume, é perceptível a pesquisa aprofundada que fez. É sempre bom conhecer um pouco mais sobre a cultura e costumes existentes em uma obra para apreciá-la ainda mais, com uma imersão ainda mais real. Eu, por exemplo, já havia visto Bosozokus em algumas obras que li e, por menores que fossem as aparições delas, teria lido a história de uma forma diferente se soubesse exatamente o que eram (até procurei pelo significado do termo, mas a explicação era muito rasa, se comparada à que temos aqui).

  4. Pingback: Rodapé: Yokokuhan e a Internet | Ao Quadrado ²·

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