Estatísticas: Autores na Shonen Jump

Dando prosseguimento a mais uma das muitas categorias criadas neste blog, este segundo post da série Estatísticas irá falar sobre a principal antologia japonesa em publicação, a Weekly Shonen Jump.

É de conhecimento comum (como já vimos em outros posts deste blog) que a Shonen Jump é uma fábrica de sucessos; porém esses sucessos tem um preço: o sacrifício de várias séries. Portante, é visível que sobreviver na Shonen Jump é uma tarefa difícil para os autores. Mas o quão difícil é essa tarefa? É mais difícil quando se é um autor estreante? Se eu fracassei uma vez, tenho chance de voltar?

O objetivo destas estatísticas é responder essas perguntas; e trazer mais algumas constatações interessantes.


Primeiramente avisando que, diferente dos primeiros posts de estatísticas, desta vez colocarei as análises das estatísticas junto com os gráficos (e desta vez, todos são gráficos “pizza”, pois ficava mais fácil observar as informações em questão).

Ao longo dessas estatísticas vocês verão falar que tal série é “bem sucedida“. Obviamente é difícil determinar o que é bem sucedido em termos de mangá; poderia ser, por exemplo, um mangá com boa média de vendas de seus volumes. Mas nesse caso ficaria subjetivo determinar a partir de que número é “bom”. E além do quê, é difícil obter dados de vendas de volumes muito antigos (2000 para trás). Assim sendo, tratando-se da Shonen Jump, onde o foco da revista é cancelar séries pouco populares e alongar séries populares, utilizarei-me do número de volumes como base pra determinar se houve sucesso ou não. Quantos volumes considerarei? 10 volumes.

É importante frisar que esse tipo de análise só funciona na Shonen Jump. Só essa revista tem esse costume de alongar séries ao máximo e, portanto, só nela que faz sentido considerar esse quesito. Mas por que 10 exatamente? 10 anos representa aproximadamente 2 anos de publicação; acaba sendo o mínimo que qualquer série mais longeva da revista dura. E também considerando 10 volumes, eliminamos aqueles títulos que sobreviveram grande parte do tempo por sorte de ter alguém pior, e não por mérito nas votações (como aconteceu recentemente com Enigma e ST&RS, por exemplo).

Também é importante ressaltar que podem ter obras com menos de 10 volumes que tenha um final satisfatório e bem planejado, e obras com mais de 10 volumes que tenham sido canceladas; esses fatos não serão relevados nesta análise, apenas o número de volumes.

Aqui foram considerados apenas autores que tiveram ao menos um trabalho publicado iniciando de 1990 em diante. Se o autor teve ao menos um trabalho nessa condição, considerei todos os trabalhos dele, incluindo obras possivelmente publicadas antes disso (obviamente, apenas da Shonen Jump). Nessa categoria, surgiram 178 autores, e todos estão listados (junto com suas obras) nesta planilha do Google Docs. Fiquem à vontade para extrair qualquer informação que acharem relevante da planilha. Agora, sem mais delongas, vamos às análises feitas.


Sucesso na Primeira Tentativa

Esta análise é auto descritiva: quantos autores conseguiram obter um sucesso na sua primeira obra lançada na Shonen Jump. O número não é nem um pouco surpreendente: menos de 1/4 dos autores obtém êxito no começo.

Em um sistema de votações como a Shonen Jump, isso não chega a ser surpreendente; nem todo mundo consegue surgir logo de cara com uma boa ideia que faça o leitor parar de votar numa série consagrada para votar na série nova. Muitas vezes o autor quebra a cara várias vezes (algumas vezes em forma de One Shot, outras vezes com séries canceladas) antes de engrenar. Claro que existem milagrosas exceções como Akira Toriyama, que logo de cara veio com Dr. Slump; e Eiichiro Oda, que publicou o maior sucesso de vendas da história do Japão na sua primeira tentativa.

Mas não se enganem: não são poucos os autores que falharam de primeira mas depois conseguiram emplacar ótimos sucessos. Dentre eles, podemos citar Takeshi Obata (que depois teve os sucessos Hikaru no Go, Death Note e Bakuman), Takehiko Inoue (autor de Slam Dunk que foi cancelado com Chameleon Jail), Ryu Fujisaki (autor de Hoshin Engi, cancelada em Psycho+), Tetsuo Hara (desenhista de Hokuto no Ken) e Tite Kubo (autor de Bleach, cancelado em Zombiepowder.).


Obras Bem Sucedidas

O primeiro gráfico mostra quantos dos autores que fracassaram na primeira tentativa conseguiram engatar um sucesso na revista depois de terem sido cancelados. Esses 20% são compostos por autores iguais aqueles que citei ali em cima; Takehiko Inoue, Tetsuo Hara, Tite Kubo… Mas é visível que não foram muitos.

O que esses números representam de fato? Que aqueles que fracassam uma vez, tem 1 chance em 5 de conseguir fazer um sucesso. Chances muitos semelhantes à de se fazer um sucesso de primeira (22%). Isso mostra que a proporção é democrática, mas ainda assim é difícil conseguir um sucesso na revista.

O segundo gráfico nos diz qual a proporção desses 178 autores tiveram ao menos um sucesso ao longo de suas publicações na revista. E o resultado é um número relativamente alto pra quem está acostumado com os cancelamentos da revista: 38% de autores tiveram ao menos uma obra bem sucedida.

Essa informação pode representar muitas coisas: desde a alta rotatividade da revista, sempre trazendo autores novos pra tentar fazer sucesso; até sua natureza cruel, pois queira ou não, 110 autores fracassaram miseravelmente em suas tentativas de emplacar na revista. Alguns poucos conseguiram se achar em outras revistas, mas esse número não é tão grande assim (fica aqui uma ideia pra futuros posts de Estatísticas).

Muitos pretensos mangakás brasileiros pensam em um dia publicar na Shonen Jump, e falam que vão conseguir e que é possível, é só querer e batalhar. Bom, existem 110 autores de 1990 pra cá conseguiram atingir esse sonho de entrar na Shonen Jump; o difícil foi ficar lá. Não quero acabar com o sonho de ninguém, mas os números não mentem: não é fácil publicar e permanecer em publicação na Shonen Jump (e muita gente deve perguntar por que alguém iria querer publicar lá, se é tão difícil; a resposta você vê no número de vendas do ranking semanal da Oricon).


Obras Bem Sucedidas por Autor

Vimos no gráfico anterior a este que 38% dos autores conseguem ao menos um sucesso, mas quantos sucessos cada um consegue no total? Pois bem, esse gráfico nos diz exatamente isso: dos 38% de autores que conseguem ao menos um sucesso, mais de 76% deles consegue apenas uma obra bem sucedida! Alguns poucos conseguem 2; e pouquíssimos (apenas 3 autores, na verdade, mas o gráfico arredondou a porcentagem) conseguiram 3 sucessos. Obviamente nenhum conseguiu mais que isso.

Conhece aquela história de One-Hit Wonder das músicas? Bandas ou artistas que fazem um sucesso e depois nunca mais? Pois isso é bem comum na Shonen Jump. 29% dos autores que passam na revista são desse tipo. Claro, é um número baixo comparado com os 62% que são Zero-Hit Losers, mas é um número curioso. Isso apenas mostra o quanto a revista não liga para o retorno de autores com um sucesso, como vimos no outro post de estatísticas.

E para quem ficou curioso, os 3 autores com 3 sucessos são Masakazu Katsura, Takeshi Obata e Masaya Tokuhiro (autor de Jungle no Oja Tar-chan, e mestre de Eiichiro Oda).


Total de Obras Bem Sucedidas

Pra finalizar, somei todas as séries publicadas de 1990 para cá e calculei quantas delas era bem sucedida. Surpreendentemente, um número até que alto: 25% das obras publicadas na revista são bem sucedidas (ou seja, com mais de 10 volumes). Pra quem não acompanha a Shonen Jump, deve parecer que o surpreendente nisso é o fato de 3 a cada 4 séries serem canceladas. No entanto, pra quem acompanha semanalmente há algum tempo (quanto mais tempo, melhor sentirá isso), há uma impressão contrária: de que 1 série de cada 4 sobreviver é um número alto.

No final isso é questão de ponto de vista e conhecimento prévio, mas é um fato bastante interessante.


Concluindo

Há uma conclusão simples e paradoxal: a Shonen Jump é tão cruel quanto a gente imaginava, mas no entanto não era tão cruel quanto imaginávamos. Todos que acompanham ela poderão ficar surpresos ao ver esses números de forma estatística; quando a informação é subjetiva e analisada separadamente, não percebemos a relevância do acontecimento. Por exemplo, acompanhar cancelamentos periódicos da revista nos ajuda a perceber que ela é bastante rígida, mas ver isso no quadro geral deixa muito mais explícito essa rigidez.

No entanto, analisando-se a última estatística, ela acaba não sendo tão cruel como pareceu em primeiro momento, então esse último quadro foi quase um “pano quente” na nossa aceitação da cultura da revista.

O que os números de vendas semanais dos sucessos da revista nos mostram é um sistema que funciona para eles, e há retorno financeiro. Mas o que esses números de vendas nunca nos mostram são quantos sonhos de sucesso jamais foram concretizados na revista. E é exatamente isso que estas estatísticas nos mostram.

13 Respostas para “Estatísticas: Autores na Shonen Jump

  1. Ótimo post, ficou bem explicativo (Cadê meus créditos pela escolha de 10 volumes? NOT). E realmente, 1 a cada 4 é um numero que parece relativamente alto para quem acompanha

    Agora, o Katsura pode ter sido uma exceção. DNA², que teve 5 volumes, não foi considerado, certo? Mas o mangá foi (ou pareceu ter sido) planejado, então poderia ser considerado bem sucedido?

    • É o que comentei, que não consideraria histórias curtas que “pareciam” ter um final planejado.
      No entanto, particularmente, eu acho que DNA² foi cancelado sim e, nesse contexto, não considerado bem sucedido. Mas novamente, é ponto de vista. Da mesma forma que muitas pessoas vão dizer que Harisugawa foi bem sucedido por ter um final aceitável, enquanto estava claro que ia mal nas votações.

      • Harisugawa tem bem mais cara de ter sido cancelado… DNA² me parece não ter sido porque… bem, foi um dos primeiros mangás a ser publicado aqui, não? Se fosse um fracasso lá acho que não ia conseguir isso…

        Mas sim, é questão de ponto de vista. Não temos acesso as vendas dessa época, então fica a incerteza…

        • DNA² não é tão antigo no Brasil assim não, deve ter uns 3, 4 anos, no máximo. Muita coisa foi lançada antes.

          E vir pro Brasil não diz muita coisa desde que aquele lixo atômico de Blue Dragon Ral Grad veio também, lol!

          • lol, verdade, esqueci de Ral Grad.
            Bem, tem alguns fatores que fazem parecer que não foi cancelado, mas não dá pra saber mesmo…

        • Procura os tocs antigos da jump da epoca desse manga e vc sabera rapidamente se foi ou não cancelado.

  2. Muito bom o post!
    O que mais curioso são os brasileiros que têm o sonho de publicar na Jump. É improbabilíssimo, se não impossível, pelo simples fato de serem estrangeiros (lá vêm os japoneses e sua xenofobia -q). Se eles têm tantos autores nacionais que mal conseguem entrar e se aguentar na revista, por que eles iriam se dar o trabalho de serializar um autor de fora? Então eu acho que estrangeiros (que não sejam sul-coreanos né) publicando na Jump vão ficar só no sonho mesmo.

  3. Akira Toriyama também fez alguns One Shots antes de Dr. Slump =P
    No mais, post bem interessante 🙂

    • Ah sim, esqueci de especificar que eram apenas séries que estava me baseando.
      Até porque, de forma geral, a maioria dos autores lança vários one-shots antes de conseguir ser serializado na Shonen Jump.

      (Aliás, é um exercício legal pegar esses one-shots e ver o quando mudaram desde então. Ler Kaede Purple do Takehiko Inoue é algo muito estranho!)

  4. Muito bom post. Queria ler os mangás mal-sucedidos dos autores, pra ver se são tão ruins assim. XD

    Xcution Team -xtremedivider.wordpress.com

  5. Mto bom! Deixo a sugestão para analisarem se o número de series de sucesso vem aumentando ou diminuindo com os anos.

  6. seria interressante outro post,mas sobre os zero hit losers,mostrando como eles foram em outras revistas(logico considerando que quiseram continuar sendo mangakas),pq a periodicidade,exigencias ou as competições internas podem ter interferido de forma negativa e pode ter sido o que causou o “fracasso”,é importante lembrar tbm q a jump é uma das melhores revistas para trabalhar pela assistencia que oferece ao autor,outras dão 0 de ajuda ao autor

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