Primavera de 2012: Zetman

Seguindo os posts sobre os mangás que terão animes estreando na próxima temporada (Primavera japonesa de 2012), vamos tratar sobre esse jovem clássico e talvez a obra máxima de Masakazu Katsura.

Famoso pelas séries de comédia romântica I”s, Video Girl Ai e DNA² (esses dois últimos licenciados no Brasil), Katsura retorna ao gênero dos “super-heróis” quase 20 anos depois de lançar Wingman (seu primeiro mangá de sucesso, em 1983). Porém muita coisa mudou nesse tempo, e agora o autor troca o modelo clássico de herói “heróico” e entra na mentalidade moderna que questiona a moralidade, o conceito de justiça e as motivações de cada um. Esse estudo do herói moderno é a obra Zetman.


Páginas Iniciais de Zetman

Páginas Iniciais de Zetman

Zetman começa com o uma imagem do embate entre dois personagens: um “herói” de branco armado, e uma criatura com aparência demoníaca. Na página seguinte, o autor nos transporta para 13 anos no passado, onde seremos apresentados a quais motivos levaram os dois personagens à estarem nessa situação. Assim, conhecemos primeiramente Jin Kanzaki, um jovem criado por um velho que chama de avô e que possui capacidades físicas sobre-humanas (mas nada de muito exagerado). Diversos acontecimentos nos levam a entender que Jin é o tal ser de aparência demoníaca, conhecido como Zet. Por outro lado, conhecemos Kouga Amagi, herdeiro de uma companhia gigantesca criada pelo avô e atualmente administrada pelo pai, que está mais interessado em seguir os passos do herói de anime do qual ele é fã e se tornar um defensor da justiça. Numa trama envolvendo criaturas artificiais com habilidades monstruosas e mega-corporações com fins escusos, conheceremos o que fará Jin se tornar Zet e Kouga assumir o alter-ego de Alphas, e como eles se relacionarão entre si. Lançado de forma serializada desde 2002, na Weekly Young Jump, este seinen conta atualmente com 16 volumes.

Embora bastante vago, esse resumo tem um motivo para ser assim: uma dos grandes trunfos do mangá é nos apresentar vários mistérios e ir nos explicando aos poucos, e qualquer pequena explicação por minha parte pode estragar alguma das muitas surpresas (já estraguei algumas, inclusive). Esse artifício de deixar várias dúvidas no ar funciona quando o autor faz um bom planejamento, e vemos que Katsura tem um ótimo planejamento de para onde pretender levar a história; todos os fatos, reações, personagens e acontecimentos tem alguma influência no desenvolvimento dos personagens, e regem aquilo que nos levará até o ocorrido na primeira página do mangá.

As duas faces de um Herói

As duas faces de um "Herói"

Mas talvez o melhor ponto da obra é toda a “desconstrução” do conceito de herói que ela nos apresenta. Com uma ideia base que nos remete à Watchmen (porém executado de maneira totalmente diferente), Zetman trás “heróis” para um mundo crível, no qual vemos personagens humanos tendo que lidar com problemas e dilemas tipicamente humanos, algo bastante deixado de lado nas histórias convencionais de “heróis”. E insisto nas aspas quando falo “heróis” pois é o que eles são; embora pratiquem o bem (na maioria das vezes), suas motivações não são meramente altruístas. Aliás, é um reflexo da vida real: não é apenas um acontecimento (seus pais serem mortos na saída do cinema, por exemplo) que vai determinar seu destino e sua motivação de tentar ajudar as pessoas; são diversos fatos, pequenos pontos, pessoas com quem você convive e conversa, que determinarão quem você é e quais serão suas reais motivações, e é extremamente interessante esse trabalho promovido em Zetman.

E o autor vai além, e resolve nos mostrar todo esse processo em duas visões antagônicas: aquele que tenta ser “herói” por insistência, e aquele que vira herói pelas circunstâncias. Essa dualidade do puro com o maculado, do violento com o idealista, do preto com o branco, é usada à exaustão em outras obras, mas aqui não é um demérito, pelo contrário, permite uma discussão diferenciada. O autor inclusive trabalha bem com a dualidade de cores entre os personagens; Kouga, por exemplo, que representa uma pureza destoante do resto do mundo ranzinza onde vive, sempre se encontra vestindo branco em meio a cenários e personagens cobertos de cinza. E não coincidentemente, quando ele assume seu alter-ego, veste uma roupa semelhante ao Wingman (personagem de uma obra anterior do autor que era um exemplo “clássico” de herói), demonstrando o desejo de ser um herói na sua forma mais convencional, porém com uma adaptação mais moderna e levemente sombria, evidenciando a diferença entre o mundo das duas obras.

Alphas e Wingman

Alphas e Wingman

Outra discussão clássica que o mangá também propõe é na dualidade da justiça, em como ela depende de inúmeros fatores e do ponto de vista de cada um. E conforme somos apresentados a diversos acontecimentos, não é incomum nos solidarizarmos com os personagens e acabarmos por relevar certas escolhas que eles tomam ao longo da trama; tudo porque passamos a entender o lado deles. E a trama carregada de mistérios, mesmo com alguns exageros de diálogos expositivos (coisa comum em obras de revistas “Jump”, mesmo as seinens), torna o ritmo de leitura frenético e instigante, nos fazendo desejar mais e mais imergir na vida desses personagens.

Isso tudo sem entrar no mérito do belíssimo traço do autor; nesses 20 anos entre Wingman e Zetman, muita coisa mudou, e a evolução do traço é a que mais notável, mas nem de perto a mais profunda. E por isso Zetman é uma leitura extremamente válida.

4 Respostas para “Primavera de 2012: Zetman

  1. Muito legal esses posts sobre os Animes da Primavera! Realmente Zetman é espetacular e merece muito ser lido, tenho altas expectativas para o Anime, espero que não decepcione!

  2. Se vc queria que eu deixasse de fazer meus afazeres para me interessar neste mangá, só precisou de meio post!
    já to baixando!

  3. Pingback: Verão de 2012: Kingdom | Ao Quadrado²·

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