Primavera de 2012: Kuroko no Basket

Não, o apocalipse não está chegando. E não, eu não falarei de um anime. Então mantenham a calma.

Como muita gente sabe, de tempos em tempos estreiam novos animes no Japão. Por algum padrão estabelecido, costuma-se dividir as temporadas de estreias de acordo com as estações do ano. Assim sendo, as próximas estreias se darão na Primavera de 2012 (lembrando: primavera japonesa; no Brasil, estaremos no outono).

Muitos animes, como vocês também já sabem, são adaptações de mangás. E é perceptível que em meio ao público que acompanha majoritariamente animes há um significativo aumento de interesse em saber mais sobre as histórias dos mangás por trás desse anime. Assim, o objetivo dessa nova categoria é fisgar o interesse desse público específico e apresentá-los o mangá em questão.


Primeiramente, cabe avisar que não entraremos em méritos de animação, estúdio, dubladores, e quaisquer categorias específicas do anime que será exibido. O foco aqui é o mangá por trás desse anime. E não será exatamente um resumo; pode-se dizer que está mais para uma crítica mesmo.

É fácil você encontrar aquelas imagens clássicas de quais animes estrearão na temporada. Você pode ver, por exemplo, aqui no Nahel Argama. E olhando para esse chart, é possível ver que haverão duas estreias de séries em publicação na Shonen Jump: Kuroko no Basket e Medaka Box. Sobre Medaka Box, muita gente já falou internet afora, como o pessoal do Radix, mas pouco se fala sobre essa outra obra que conseguiu sobreviver na revista por mais tempo que era esperado. Assim, vamos começar essa sessão falando de Kuroko no Basket.

Kuroko no Basket

Estreando na edição #02 do ano fiscal de 2009, na já citada Shonen Jump, Kuroko no Basket (tradução: O Basquete de Kuroko, dã) é desenhada e escrito por Tadatoshi Fujimaki, um mangaká novato que conseguiu sobreviver com uma série de esporte num ambiente inóspito como a Shonen Jump atual (mesmo que para isso tenha sido necessário cancelar o ótimo Hoop Men, série que já falei num top 5-1). Curiosamente, Kuroko estreou no mesmo ano em que publicamos o nosso primeiro podcast piloto (com baixíssima qualidade, eu sei), e portanto podemos chamá-lo de um “sucesso” contemporâneo. As aspas no “sucesso” são para deixar claro que o mangá vende relativamente bem ao compararmos seus números com o de séries de esporte de outras revistas; mas está muito aquém de ser um bom vendedor da revista Shonen Jump (que só pelo nome já infla as vendas que qualquer obra).

A premissa do mangá é bastante interessante: no ano anterior ao que se passa o mangá, o time de basquete da escola Teikou venceu de forma esmagadora todos os seus adversários, e seus cinco astros titulares ficaram conhecidos como a “Geração dos Milagres”. Ao se formarem e irem para o ensino médio, cada um desses incríveis jogadores foi para uma escola diferente. O que pouca gente sabe é que a “Geração dos Milagres” tinha um lendário sexto membro que ninguém percebia em quadra. E assim, somos apresentados ao jovem time de basquete do Colégio Seirin (havia sido fundado no ano anterior) e seus dois mais novos membros: Kagami Taiga, um talentoso jogador que cresceu nos Estados Unidos; e Kuroko Tetsuya, o sexto membro da Geração dos Milagres. Junto com esses novatos poderosos, o objetivo é o mais óbvio possível: vencer o campeonato intercolegial, vencendo todos os membros da Geração dos Milagres no processo.

Time do Colégio Seirin

Time do Colégio Seirin

Até aí, a ideia é boa e relativamente original para uma série de esportes, mas o autor possui alguns graves problemas que podem desagradar até o mais casual dos leitores. A começar, com um problema gravíssimo: o autor sabe muito pouco sobre basquete. Isso nunca foi dito abertamente, mas é altamente perceptível quando vemos por exemplo Kuroko quebrar uma regra básica do basquete ao dar um soco na bola (erro esse que foi corrigido entre a versão da revista e a versão encadernada do capítulo).

Problemática também é a lógica que o autor utiliza ao longo da série. Para nos trazer o impacto de que os jogadores da Geração dos Milagres são fortes, ele extrapola o senso comum. Por exemplo, o primeiro membro da geração que nos é apresentado é o Kise e sua habilidade especial é conseguir “copiar qualquer jogada”, qualquer uma mesmo. Até aí, é uma extrapolada aceitável. Mas aí surge o segundo membro, Midorima, que é capaz de acertar a cesta de qualquer lugar da quadra. Sim, de qualquer lugar da quadra! E ele nem precisa pular para isso! E a ausência de conhecimento do autor vai tão longe que ele tenta justificar esse “poder” do personagem ao citar a capacidade de LeBron James (um dos astros da atualidade) de fazer igual, o que é de um desconhecimento absurdo! Há vídeos do jogador de fato acertando cestas à distância, mas nenhuma delas é com um movimento de arremesso tão simples quanto o do Midorima; e todos os vídeos são fora de jogo, num ambiente controlado, não no calor da partida. Explicação mega falha do autor.

Passe irreal de Kuroko (antes ele dava um soco)

Por outro lado, um ponto forte da série é o protagonista. Kuroko é um personagem bastante original, interessante e carismático, e todo o conceito do “basquete de Kuroko” é bem original pra uma série de basquete. O “poder” de Kuroko é sua falta de presença; Kuroko tem uma presença tão fraca que as pessoas mal o notam na rua, e essa habilidade é levada para as quadras também, onde sua principal característica é o chamado “misdirection“, apoiado pelos seus passes rápidos e precisos. E o mais curioso é que, tirando dessa habilidade, Kuroko é um jogador medíocre, não consegue correr direito, driblar e tampouco fazer uma cesta; e isso, pra um protagonista de série de esporte, é genial. E é louvável o autor colocar o personagem conhecendo sua verdadeira posição de ser apenas uma “sombra“, que está lá só para auxiliar os jogadores a vencer, sem atrair o mérito pra si; o que explica tanto seu anonimato, mesmo fazendo parte da Geração dos Milagres, como também é uma brincadeira com seu nome (Kuroko, Kuro – Preto; essa lógica aliás, se aplica pros nomes dos outros jogadores da Geração dos Milagres, cada um relacionado com uma cor). Todas essas as características de Kuroko também são migradas pros poucos momentos de slice-of-life do mangá, onde sua falta de presença vira uma ferramenta cômica sempre eficaz.

Falta de Presença de Kuroko

Falta de Presença de Kuroko

Infelizmente, o mesmo não podemos dizer do resto de seu time. Com personagens pouco carismáticas, os veteranos do time acabam formando apenas um “elenco de apoio”. Embora em um dos jogos o autor tenha tentado dar características marcantes para cada jogador (inclusive o armador ganha um “poderzinho” menor), o próprio autor logo se esquece disso, e novamente se perde na lógica interna da série. O armador que tinha uma habilidade “especialé superado no jogo seguinte por um jogador com a mesma habilidade, porém muito melhor. O que era pra ser uma habilidade especial, vira algo comum no segundo jogo em que aparece! E logo se esquece desse poder do armador. Fora ele, o outro único personagem relevante do time é o capitão, Hyuga, que é igualmente pouco explorado e sub-aproveitado. Único membro mais relevante e melhor utilizado dos veteranos só nos é apresentado bem tardiamente na série.

E isso tudo sem entrar no mérito do Kagami. Da forma que é explorado pelo autor, ele deve ser considerado quase um protagonista; ele é a “luz” que Kuroko escolheu para ser a “sombra“, mas a ausência de carisma no personagem é gritante; ele é tão sem personalidade que isso se reflete no traço do personagem, que é altamente confundível com diversos outros jogadores. Suas “habilidades” são sem graça e pouco empolgam, bem como vemos um crescimento bem pequeno ao longo de todos os capítulos que a série teve até agora, o que enfraquece um pouco a relação do leitor com o personagem. E toda essa fraqueza vinda de um quase protagonista poderia facilmente afastar qualquer um. Não culpo ninguém que parou de ler por causa disso.

"Geração dos Milagres" reunida

Felizmente, o autor consegue suprir a falta de carisma do time principal com personagens bem interessantes de outros times. Embora não dê para chamá-los de carismáticos, são mais interessantes que boa parte do time de Kuroko, como por exemplo o amigo de infância de Kagami, apresentado mais adiante na série; ou mesmo o arremessador que pede desculpa para tudo que faz. Não são personagens muito profundos, mas quando estão em cena são bem divertidos. Talvez seja essa a verdadeira capacidade do autor: ter algumas ideias boas e usá-las de cara; o problema é que ele não sabe evoluí-las a partir disso, e portanto esses personagens passageiros (que não exigem muita evolução) pareçam mais interessantes que os personagens principais.

Capa de Novel de Kuroko

Capa de Novel de Kuroko

Assim sendo, ficou mais do que claro que Kuroko no Basket é uma série de “esporte fantástico”, pois os elementos apresentados não se pautam no mundo real; embora muitas habilidades sejam aceitas em menor escala, na escala que são apresentadas, fica impossível acreditarmos. Pode-se dizer que ela se assemelha bastante nesse quesito com outras séries de esporte mais fantasiosas, como Eyeshield 21 e Prince of Tennis, porém carece de tanta força, carisma e carinho do público quanto essas citadas tinham.

Mas a série é ruim? Não, não é uma série ruim. Ela tem um ritmo bastante rápido e fácil de acompanhar, e pode ser muito divertida se você souber relevar várias coisas (algumas partes, você terá que relevar demais, como o caso do Midorima). Mas se espera algo mais pautado na realidade, ou uma história de esporte+vida escolar, não é em Kuroko que você achará o que procura. Aqui, você encontrará basicamente um basquete de super-poderes, cujo seu poder maior é sua inexplicável capacidade de sobreviver na Shonen Jump.

9 Respostas para “Primavera de 2012: Kuroko no Basket

  1. Eu acompanho Kuroko no Basket, axo que os scans estão até um pouco atrasados, realmente o manga não é la essas coisas porém é uma leitura rapida e agradável

  2. Muito bom o post, a crítica pegou nos pontos falhos precisamente.

    Acompanho a série e gosto muito, justamente porque relevei algumas coisas.

  3. tipo, realmente tem algumas coisas extrapolantes, mas como diria Ashirogi Muto, é um manga e pode ter coisas que só um manga pode ter!

    tipo, não sei se alguns de voces jogam basket, mas se voce assistir ou ler kuroko da uma vontade enorme de jogar, ele pode não saber regras basicas mas afinal é um torneio intercolegial e não uma liga super-profissional, e discordo quando dizem que o Kagami não tem personalidade, ele tem sim, até o carisma dele é bom, mas é uma coisa sentida apenas pelos que compreendem o que é amar o basket e não querer perder!

  4. mais uma coisa…
    concordo na parte qe ele não sabe aproveitar os bons personagens que cria, um grande exemplo é a tecnica, que é uma estudante que nem eles, tem um “poder” de analise, mas não tem liderança e carisma pra liderar uma equipe como por exemplo Hiruma de Eyeshield 21

  5. pod crer parei de assistir o anime quando os cara começaram a dar soco na bola,
    SLAM DUNK insuperavel

  6. Não podemos comparar Kuroko no Basuke, na vida real , o autor pode conhecer pouco a respeito de basket, mais temos que ver que se trata de um anime. Na verdade um excelente anime um dos melhores que ja assisti, e realmente ver o anime da vonta sim de jogar basket, acho que é isso que o autor quer transmetir nesse anime a vontade de poder fazer algo, bom em fim, to tao viciado nesse anime que ja vi ele 5 vezes e mais de 20 vezes os eps 23-24-25, e to acompanhando o manga, a historia ta muito boa, Recomendo

  7. Gostei da Post mais achei sua forma de Analise meio “não curti muito o Anime então não vou ser imparcial”, eu li o mangá e assisto o Anime até o episódio e capítulo atual, você foi precipitado em dizer algumas coisas como por exemplo que os personagens não tem carisma, Kagami é pouco carismático, Izuki o Armador da Seirin tem seu poder esquecido, Kuroko no Basket é baseado em 7 personagens, os 5 da geração dos milagres e os dois protagonistas (Kuroko e Kagami), cada um tem o seu carisma e se você notar nos outros times também temos, como o Wakamatsu do time do Aomine que ao mesmo tempo que é entusiasmado é muito irritado e não suporta a arrogância do Ace do time dele, também temos os 5 reis destronados que agora foram revelados totalmente na terceira temporada do Anime, outra coisa, tem personagens que você diz serem apresentados tardiamente no Anime, um personagem que aparece no final da primeira temporada considerando que o Anime já tem 3 é tão tardio assim? que graça tem um Anime em que todos os personagens legais são jogados no começo e nunca aparecem novos…

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