Shigurui

O belo e o grotesco nunca estiveram tão unidos: Shigurui.

É o começo da Era Edo, um grande Senhor resolve realizar o primeiro troneio entre gurreiros, disputado com espadas de verdade, na história. Um torneio no qual sairá somente um vencedor, um torneio brutal e sangrento, feito somente pra satisfazer a curiosidade de um adulto infantil, vários tentam convencer o Senhor de parar com tal imprudência, mas todas as tentativas são em vão…

Somos então apresentados à primeira luta, uma homem sem seu braço esquerdo, lutando contra um cego aleijado, o que para os vários ignorantes que estão para presenciar a luta, isso possa parecer como um show de bizarrice, somente duas pessoas alie presentes sabem o passado desses dois homens, o que aconteceu para eles passarem a se odiarem tanto e como ambos se tornaram os dois maiores espadachins de seus tempos. Shigurui conta está historia.

Este mangá é baseado na livro “Suruga-jo Gozen Jiai” (The Morning Tournament at Sunpu Castle) de Norio Najo, o livro possui 12 capítulos no qual cada um conta a história por trás de cada luta disputada, a adaptação em mangá, realizada por Takayuki Yamaguchi, resolve focar somente na primeira batalha e expandir ela em 15 volumes, de forma modificar bastante a história original, mas sempre se mantendo nos moldes do capítulo original.

Nessa primeira batalha então, somos apresentados a estes dois guerreiros, Gennosuke Fujiki, um espadachim de somente um braço e Seigen Irako um homem cego e manco, ambos possuem várias cicatrizes, várias alias, infligidas um pelo outro, o resto do mangá é um flashback gigante, todo destinado e voltado para contar como estes dois samurais chegaram a ganhar as cicatrizes que possuem, tudo destinando e voltado à esta sensacional e incrivelmente causadora de arrepios na espinha, derradeira batalha final.

A primeira coisa que nos chama a atenção em Shigurui é o apelo do gráfico do mangá, logo nas primeiras páginas já somos apresentados à um homem retirando suas próprias tripas de dentro de sua barriga. Obviamente essa primeira cena é pra separar os fracos dos fortes, se você já ficar tonto com um gore fraquinho como este, nem ouse virar mais algumas páginas, se mutilação, estupros, incestos, tripas voando, desmembramentos, decapitações e castrações explícitas forem algo que te ofendem, o autor já deixa claro, pare agora. Todo esse clima sanguinário é incrivelmente apelativo e tentador pra quem gosta, ficamos chocados e boquiabertos, mas não de uma forma ruim, tudo é muito empolgante.

Essa apelação toda pra sangue e tripas, no entanto, pode ter um lado ruim, afasta muitos leitores potenciais. Não porque estes não gostam de gore, mas sim porque acreditam que este será só um mangá típico de samurais da era Edo, cheio de violência, mas pra compensar, sem nenhum história decente. Eu mesmo peguei o mangá esperando isso, muito violência em um a história fraca, felizmente posso dizer que fui incrivelmente surpreendido, Shigurui tem tudo para um grande mangá de samurais, violência, ótima arte e um enredo inesquecível.

Um ponto interessante da história, é essa brincadeira de parcial/imparcial em relação aos dois personagens principais da história. Um momento o autor nos faz desprezar Irako e ter admiração por Gennosuke, para no momento seguinte termos compaixão por um e raiva pelo outro, pra inda depois odiarmos os dois e logo em seguida torcermos pelos dois…. e vai indo assim até o final do mangá. É aquilo que sempre digo por aqui, é o típico mangá que quer que o leitor pense por ele mesmo, o próprio leitor vai decidir quem está certo nessa história de vingança, se é que tem alguém certo, novamente, é um carácter muito interessante da obra.

Outro ponto positivo do enredo, que mais me chamou a atenção, é a pouca quantidade de diálogos e monólogos presentes no mangá. Sobre isso, o próprio autor explica em entrevista, ele diz que “desenvolveu” a técnica assistindo o  filme “Alien” de Ridley Scott, Takayuki afirma que o filme utiliza a mínima quantidade de diálogos necessários, a final de contas é assim que as pessoas são na vida real, ninguém sai por aí tendo longos monólogos super elaborados sobre a vida e a existências, nem se dão ao trabalho de ficar explicando tudo, dessa forma, com poucos diálogos o mangá acaba adquirindo um tom mais real, que é o que ele necessita.

Essa declaração do autor é muito interessante e me fez lembrar de um cena (AQUI) da famosa HQ Maus (publicada no Brasil pela editora “Companhia das Letras” e obrigatória na estante de qualquer pessoa), no qual após ter uma longa conversa com sua esposa, o autor/personagem Art Spiegelman diz: ” Está vendo, na vida real eu nunca teria falado tanto sem ser interrompido”. Me fez pensar sobre essas longas falas que constantemente encontramos em vários mangás e o quão irreais elas realmente são.

De qualquer jeito, Takayuki Yamaguchi faz uma bom uso dessa técnica, as várias cenas de luta que o mangá tem são completamente silenciosas e cheias de tensão, no entanto ele “rouba” um pouco também, o autor adapta para o seu próprio estilo e talvez para algo mais cabível aos mangás essa técnica. A falta de diálogos é substituída por, é claro, uma ótima arte bem gráfica e com bastante movimento, mas principalmente por um narrador onisciente.

Os personagens não falam, nem somos apresentados aos seus balões de pensamento, mas o narrador nos conta seus pensamento, e vai além, realiza análises sobre a vida e a sociedade em que estes estão vivendo, ele é mais do que só o transpor do balão de fala inexistente, ele narra e descreve as cenas de forma que nem os próprios personagens do mangá poderiam fazer melhor, é simplesmente uma das melhores narrativas do gênero que eu já li. Talvez ela seja um resquício da obra ser, na verdade, uma adaptação de um livro, de forma que toda a narrativa que o livro necessita, foi passado para o mangá, que não obrigatoriamente necessita dela, mas que compensa de forma incrível a falta de diálogos e mantém a realidade que o autor tanto quer. Enfim, ótimo trabalho do mangaka nesse quesito.

Voltando para a arte, como já falei ele é bastante gráfica e violenta, mas acho que a melhor forma de descrever ela é que a primeira expressão que lhe vem a sua cabeça ao ler o mangá é “Que lindo”, a segunda expressão no entanto é “Que horror”, é uma mescla entre a beleza e o grotesco que é de fazer inveja pra muito autor de gore por aí.

Onde isso é muito bem representado é nas páginas coloridas no começo de cada volume, várias vezes o autor faz literalmente faz um “Raio X” do corpo dos personagens, de forma que podemos ver os órgãos pulsando dentro de cada um. É lindo? Sim. É grotesco? Sim! É provocador , é instigante, e novamente de forma indireta (já que o autor já faz isso claramente dentro da própria narrativa), pela arte sozinha já faz o leitor se questionar sobre as beldades e os horrores que se passavam na Era Edo.

É até interessante o autor mostrar o horror e ao mesmo a beleza da época, mantendo novamente a imparcialidade. Ele mesmo quando perguntado sobre a possibilidade de fazer uma adaptação de “Musashi” de Eiji Yoshikawa, responde que não seria interessante uma adaptação dessa obra, pois “Musashi” é mais uma obra de motivação, escrita para inspirar os soldados na Guerra do Pacífico e que a figura do espadachim não é tão bela assim. Takayuki Yamaguchi diz que prefere muito mais as obras de Nanjo, devido ao carácter mais inconsistente e maldoso mesmo da natureza dos personagens ( ou seja, um tapa na cara discreto, no mangá Vagabond de Takehiko Inoue).

Apesar de ótimas qualidades, até Shigurui tem um ou outro ponto negativo, acho que a coisa que mais me desagradou no mangá foi a enrolação. Várias cenas que não acrescentam em nada para o enredo, pequenos arcos que estão ali obviamente só pra encher linguiça mesmo, isso é compreensível de certa forma, já que uma história que originalmente possuía somente 1 capítulo foi expandida para 15 volumes, mas também não serve de desculpa, que o mangá é enrolado e desnecessário em várias partes, ele é.

Em resumo, Shigurui, é um ótimo mangá de samurais da Era Edo, com belas e horripilantes cenas de gore e com um ótima enredo com atenção em especial ao poder narrativo fixador da história. Então se você gosta de Berserk, Vagabond, bastante gore, e que ler algo diferente, então…

Eu te recomendo o lindamente horrível: Shigurui.

De bônus, aqui uma entrevista com o autor: http://mangahelpers.com/t/daevakun/releases/15197

11 Respostas para “Shigurui

  1. Um tempo atras eu tentei ler Shigurui, mas acabei achando a arte muito estranha, e é claro muito gore, que de todas as coisas no mundo é a unica que fico com o pé atras.Porem agora que foi dito que ele usa uma formula narrativa um pouco diferente, despertou meu interesse, tentar dar uma nova chance para a obra.Olha essas imagens dá a grande impressão que é uma obra que pega muito pesado no visual, parece lindo, porem pesado aos olhos, ler tudo isso sem parar deve ser muito difícil.

  2. @RubioPaloosaEu fiz maratona desse mangá, terminei em uns 4/5 dias, acho que exatamente por ter pouco dialogo acaba fluindo bem, mas sim, acho que é um pouco pesado e carregado em algumas partes, é constante ação.

  3. Excelente texto. A questão dos diálogos sempre foi algo que, não que me incomode, mas que eu costumo pensar nesse ponto de que, na vida real, não falamos assim. O autor me despertou a curiosidade por essa fala deleO mangá parece ser muito bom, e ele ser adaptação de um livro é algo que me interessa. Ainda mais esse tipo de adaptação, imagino que deva ser muito interessante pra quem leu o livro ver o enfoque em uma das batalhas, e foi uma maneira de adaptar diferente, que eu achei boa! Em que revista ele foi publicado?

  4. @OniluapLGrato, pelos elogios.O mangá foi publicado na Champion Red da Akita Shoten, atual casa de Franken Fran, Saint Seiya Episode.G e Seikon no Qwaser (¬¬). Apesar de alguns títulos conhecidos, o próprio autor afirma que (ao menos quando começou a publicar Shigurui) ainda é uma revista fraca que luta pelo seu lugar no mercado.Não sei como ela tá hoje em dia.

  5. Obs.:Pode haver spoilers.Este eu vi o anime.O que me recordo dele começa deste início com esta caprichosa mudança nas regras do torneio e aquele grande salto ao passado.E no decorrer da estória se tem todo aquele cuidado em interpretar o que os atos mudos,a arte realista,a voz consciente simbolizada no discurso do narrador e o ar de amoralidade misturando em muito com a inescrupulosidade podem nos contar sobre este mega flash back.É um grande jogo por toda uma vaidade de poderes(políticos,marciais etc)de formas diretas ou em outras mais traiçoeiras e por que não veladas?Quanto a enrolação não me lembro de tanta intensidade(no anime…que foi o que vi),mas… *Spoiler:a resolução do "fight" num só golpe como num "Destroyed" de Guilty Gear me dava certa inquietude.*Já quando Takayuki afirma "que o filme utiliza a mínima quantidade de diálogos necessários, a final de contas é assim que as pessoas são na vida real, ninguém sai por aí tendo longos monólogos super elaborados sobre a vida e a existências, nem se dão ao trabalho de ficar explicando tudo, dessa forma, com poucos diálogos o mangá acaba adquirindo um tom mais real, que é o que ele necessita.".Discordo dele porque este extremo também não é popular, porque da mesma forma que não se discursa tanto sem interrupções 'não se emudece ensaiando votos de silêncio'.É a minha reflexão a esta pretensão do autor levando em conta a submissão e recato desta sociedade retratada no anime.

  6. @AnônimoBaixei aqui o primeiro e o ultimo ep. só pra ter um opinião geral mesmo.No final das contas, no anime provavelmente não há grandes enrolações mesmo, mas isso só se deve ao fato dele terminar antes da metade, e realmente até ali não tinham grandes encheções de linguiça no mangá, se be que consigo imaginar eles retirando alguns pequenos arcos aqui ou ali.SPOILEREnfim, na minha opinião, o fim realmente fica uma desegraça só por ter teminado na morte do velho, perdeu-se os 3 maiores momentos do mangá: a perda do braço de Gennosuke, a cictriz no pé de Irako e, obviamente, a derradeira batalha final entre os dois samurais, que pra mim é a melhor parte, mesmo se todo o mangá tivesse sido ruim, teriado valido só por aquela parte.Se bem que admito, outra parte que me satisfez muito (acredito que essa sim passa no anime), é Fujiki deixando Irako cego com os dois dedos que o seu oponento mesmo tinha quebrado dois anos atrás, quando li aquilo…. pqp! fiquei gritando na frente do PC de tanta emoção, achei sensacional a ironia.Sobre o silêncio talvez irreal da obra, não sei, acho que quando os personagens precisam conversar eles conversam, não sei o que dizer, talvez só possa afirmar algo se algum dia chegar a reler essa obra, mas a impressão incial que me deixou foi de realidade mesmo.

  7. @O Judeu AteuPela forma que conduziram a narrativa em flashback[mesmo com esta condução da versão animada citada em "SPOILER"]há ainda possibilidades fluídas de continuar Shigurui caso algum estúdio se comprometa…'caso algum estúdio se comprometa.'

  8. Excelente review, me atentou até mesmo para pontos que não tinha notado.
    [Prováveis spoilers]
    Pra mim os reais filhos da puta desse mangá são Kogan e Tadanaga. Kogan sempre foi um cretino miserável, não só depois de enlouquecer, e isso fica evidente em alguns flashbacks e também quando o mesmo está lúcido. Ele destruiu a vida de Iku. Tadanaga dispensa explicações.
    Seigen é consequência do sistema e Fujiki não passa de um boneco manipulável.

    Mangá épico, se ignorarmos o lance do homem-sapo, é um mangá perfeito.

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