Helter Skelter

“A word before we start:
             laughter and screams
                  sound seems very much alike.”

E assim começa uma das mais frias e profundas análises sobre a beleza e a mente humana: Helter Skelter.

Mangá de autoria de Kyoko Okazaki, mesma autora do já revisado por aqui River’s Edge, conta a história de Ririko, uma mulher que sempre foi  feia, mas fez uma cirurgia plástica de reconstrução total e hoje vive da fama, através de sua beleza, como modelo e atriz. As coisas no entanto, estão muito longe de serem um mar de flores pra Ririko, já se passaram alguns anos desde a cirurgia e entre vícios em remédios, falta de sono, situações de estresse constante e má alimentação, seu corpo está começando a se desabar e somente ao ser apertada marcas e hematomas já começam a aparecer, mas o desabamento mais preocupante mesmo é o de seu estado mental. Ririko sabe que ela pode até salvar seu corpo agora, mas um dia ela irá envelhecer, o que será dela então?

O desenvolvimento principal da história é centrado em Ririko, mas os personagens secundários não são deixados de lado, temos o futuro noivo, ou como a personagem relata “o futuro sustento”, que acaba não dando tão certo quando esperado, para os dois lados. Temos a assistente/escrava de Ririko que sofre diariamente, o que acaba atrapalhando de formas inimagináveis sua vida pessoal, quase um “O Diabo Veste Prada” só que BEM pior, acreditem. Há também um segundo núcleo, que só depois acaba se encontrando com o principal, que é de um detetive que está investigando a clinica que fez a cirurgia em Ririko, e que pode estar por trás de coisas muito piores.

Antes de comentar sobre qualquer outra coisa, já quero tirar isso da frente, a arte de Kyoko Okazaki não é exatamente boa, tecnicamente falando, e sinto que a autora é extremamente underrarted por causa disso, o que me deixa muito descontente. Pessoas, apreciadores de mangá, por favor não desistam de Helter Skalter por causa da arte.
Como já disse anteriormente, a simplicidade aqui é totalmente necessária,  Kyoko toca em assuntos muito polêmicos, joga sal na ferida e não trás nenhuma resposta, a simplicidade ajuda a amenizar esse clima pesado que o enredo já tem por conta própria, além do que essa própria simplicidade, em vários momentos, é exatamente o que ajuda a construir esse clima, não esperamos o grotesco de uma arte simplista com essa, e quando recebemos já é tarde demais, o choque já foi atingindo com perfeição.
É obvio que a autora desenvolve a arte dessa maneira, por escolha própria e não por falta de competência, ja que vemos que quando quer, faz muito bonito. Sinceramente, não sei se Helter Skelter ficaria melhor com uma arte que não essa.

Assim como River’s Edge, Helter Skelter é diferente de qualquer josei que você já tenha lido, a personagem principal é a anti-heroína perfeita, o oposto de qualquer personagem de shoujo que você já tenha visto, é egoísta, má, cruel, sádica, arrogante e mais do que qualquer outra coisa, ela é profunda. O mangá inteiro é o desenvolvimento psicológico da personagem, falas cotidianas cobertas por pensamentos cruéis, frios, mas muito reais, pensamentos que qualquer pessoa, por mais puritana que seja já chegou a pensar pelo menos uma vez na vida.

Dos fatores que mais me agradaram no mangá, o que mais se destacou é a sua incrível imparcialidade com os personagens. Mesmo Ririko, que é constantemente relatada como o diabo encarnado, é posta em questionamento se o que está acontecendo com ela é resultado de suas próprias escolhas, ou se todos que apoiaram, e a sociedade em geral, foram que criaram o monstro que ela é hoje em dia. Mas isso não é só com a personagem principal, todos são postos à prova e questionados sobre suas éticas e filosofias de vida.
O diferencial aqui, é que o mangá pões em dúvida, questiona argumenta, mas não traz uma resposta se quer, Helter Skelter faz o leitor pensar. Constantemente eu tinha que literalmente parar a leitura pra pensar sobre o que estava acontecendo e tirar alguma conclusão daquilo, o resultado foi que o mangá que possui somente 1 volume, pareceu ter 5, são assuntos que são colocados na nossa frente constantemente, mas nunca dessa forma. Gosto disso em mangás, imparcialidade, deixe o leitor fazer o trabalho.

Um outro fator narrativo que me agradou bastante são os constantes monólogos intercalados entre vários personagens, sendo a assistente, a empresária ou o maquiador, cada um tempo um ponto de vista sobre o que está acontecendo com a Ririko e sobre o que é beleza no final das contas, provando novamente a indiferença do mangá como uma obra e a insistência e competência em fazer o leitor pensar e não jogar a opinião do autor em cima dele.

As vezes são vários e vários quadros pretos preenchidos somente com textos brancos sobre pensamentos de cada personagens, frases muito bem boladas e provocadoras, fica parecendo quase um livro de poesias e citações, perfeito por exemplo……pra colocar no twitter =) Alias, parando pra pensar agora, o manga ficou com um gostinho de Light Novel na boca do que qualquer outra coisa, não que isso seja ruim ou bom, só um detalhe.

Não sei se foi na empolgação do momento, mas cabei dando nota 10 pro mangá, achei simplesmente sensacional, recomendo pra qualquer pessoa que queira uma leitura diferente e psicológica. Sendo uma mistura provocadora e instigante de “O Cisne Negro” com “O Diabo Veste Prada”,o mangá certamente entrou pra minha lista de mangás obrigatórios, sendo assim…

Recomendo com a mais absoluta certeza e sinceridade: Helter Skalter.

12 Respostas para “Helter Skelter

  1. Esse mangá é muito tenso! De uma maneira muito positiva, é claro. Como você disse ele joga várias questões para você, ao contrário de muita coisa que por aí ele quer te fazer pensar, e o consegue com maestria!Nunca pensei que veria abordado em um mangá um tema como o culto as celebridades, e a por extensão a beleza. Cara, é assustador mas o mundo tem se tornado mais e mais superficial,e o boom dos realities shows, estes programas não possuem qualquer conteúdo mas são capazes de atrair milhões de pessoas, simplesmente expondo pessoas bonitas, brigando entre si por dinheiro… E mais assustador ainda é ver ao que algumas pessoas fazem para se enquadrar nos "padrões de beleza", quase irreais, que esta mesma mídia absurda nos impõe!Eu não havia lido o mangá antes, mas fui procurá-lo logo após ler a sua resenha, que ficou ótima e conseguiu transpor muito bem um pouco do que é o mangá, parabéns!Por fim posso sugerir que você faça um MMV para ele?Mais uma vez parabéns pelo ótimo blog!

  2. @Nana-sanObrigado, adoro quando as pessoas voltam pra escrever suas experiências do mangá, acho que é sobre isso que é o blog a final de contas XDAcho que é bem por ai mesmo, acho que era essa a expressão que eu queria ter usado "culto às celebridades", nunca vi um mangá tratar o tema dessa forma. Normalmente se fala em anorexia, bulimia, mas não se trata o assunto de padrão de beleza tão concretamente e de forma tão profunda, é mais complicado né, entra em todo um jogo social.E sugestão anotadíssima.

  3. Olha só que agradável surpresa? Acho, só acho, que é a primeira vez que vi um mangá destinado originalmente ao publico feminino, sendo tratado aqui. E é claro, tenho que comentar a respeito. Nunca havia ouvido falar desse mangá, mas gostei da arte, que mesmo sendo meio grotesca, consegue ser bela a sua maneira. E a sua resenha está excelente, acredito que é um dos seus melhores textos, me prendeu e vai me fazer correr atrás desse mangá pra ler. Adoro mangás com alta carga psicológica e com roteiro provocante. XDE aliás, essa arte me lembra bastante a de Sakurazawa Erica, no primeiro momento até pensei que fosse e até conferi no google. Mas não.

  4. @Roberta CarolineCaramba! Obrigado mesmo, considero muito esses elogios, ainda mais vindos de você que sabe escrever mesmo, mas pra falar a verdade acho que, mesmo que vagarosamente, estou ficando melhor nesse negócio, ainda mais lendo uns textos meus lá do comecinho, acho que dei uma melhorada sim, não nego XDSó pra constar, tinha feito review de 2 Josei já na verdade. Um é o próprio River's Edge da mesma autora desse mangá, o outro é um um pouco apelação, mas é o One-shot Slow Down. Se não me engano você comentou nos dois.Obrigado de novo, meu ego foi pra nuvens agora 😀

  5. XDNa 1ª imagem(a gravura) logo pensei: "Esta poderia ser a Rose(Kate Winslet)posando nua para Jack(Leonardo di Caprio) com o colar "Coração do Oceano" no filme Titanic de 1997."Mas o mais singular são que em todos os desenhos se vê uma conotação de "croqui" que deve justificar os ideais efêmeros perseguidos pelas personagens com um pretexto maqueado de sonho.A quem se interessar Helter Skelter também é um nome de uma música dos Beatles do "místico Albúm Branco de 1968" e um filme de 2004 com referência direta a esta música.O significado é o nome de um brinquedo britânico muito popular que consiste em um tobogã em formato de espiral e também significa confusão,algazarra,desorganização,(Fonte:Wikipédia).Enfim,Kyoko Okazaki – pelas datas – deve ter bebido nesta fonte.

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  7. Ainda não tive a oportunidade de ler, mas pela descrição e os trechos que vc postou, este manga me lembra muito (na estética e na narrativa) dois trabalhos de Bill Sienkiewicz em parceria com Frank Miller: “Elektra Assassina” e “Demolidor Amor e Guerra”. Embora o tema seja muito diferente (Bill e Frank trabalharam com o universo de heróis da Marvel), Foi usado o recurso de narrativa psicológica (em primeira pessoa, e com inclusão de pensamentos) dos personagens e a variação do estilo da arte como uma forma de expressão, uma ferramenta narrativa.
    Naturalmente as semelhanças param por aí. O trabalho de Sienkiewicz é bem mais mainstream, colorido, quase comercial até. A arte visual é bem mais valorizada que a reflexão psicológica, esta aparece de forma mais elouquente nos personagens perturbados mentalmente ou sob efeito de drogas, hipnose ou algo semelhante. Mas nestas horas a arte visual reflete tanto o ponto de vista dos personagens que varia de um desenho infantil a crayon à uma elaborada pintura a óleo.
    Desculpem-me pela citação de duas obras que não têm nada de underground, mas arte é arte e é um prazer ver trabalhos tão bem elaborados assim.

  8. Pingback: Shibou to Iu Na no Fuku o Kite (In the Clothes Named Fat) | Ao Quadrado²·

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